O custo da logística e transporte do Brasil volta a pesar para o país nos índices de competitividade à medida que o Produto Interno Bruto (PIB) cresce. Nos últimos anos, é o que vem acontecendo, e não deve ser diferente em 2025, quando a expectativa é de incremento acima de 2% no PIB.
Em 2024, segundo o Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), a demanda por transportes cresceu em torno de 3,6%, gerando gastos superiores a R$ 940 bilhões (7% a mais do que no ano anterior). As formas de reduzir esses gastos, segundo entidades como o próprio Ilos e a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), é investir na infraestrutura multimodal para reduzir os custos provenientes dessa atividade. E há iniciativas nesse sentido.
Investimentos no planejamento
No início de julho, o Ministério dos Transportes assinou Acordo de Cooperação Técnica com o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) para promover o aporte de US$ 300 mil, a serem usados na realização de estudos estaduais sobre a movimentação de cargas e suas origens. O objetivo é alimentar o Plano Nacional de Logística 2050 (PNL 2050 – veja mais a seguir) e planejar os investimentos necessários para ele.
Segundo George Santoro, ministro dos Transportes em exercício, os dados permitirão entender melhor os fluxos internos de mercadorias, inclusive aqueles que não cruzam fronteiras estaduais, muitas vezes ignorados nos levantamentos nacionais. “Isso dá um grau de assertividade maior na decisão sobre onde investir, o que fazer e como fazer”, disse.
O mapeamento atende às diretrizes do Planejamento Integrado de Transportes (PIT), instituído em 2024, que transformou o PNL em política de Estado.
Já Fábio Damasceno, presidente do Conselho de Secretários Estaduais de Transportes (ConseTrans), destacou a importância da medida: “Precisamos de mais investimento, mas também de um planejamento mais eficiente, que evite sobreposição de obras e oriente a alocação de recursos públicos e privados”.
Investimentos recentes em logística e transporte
Em 2024, os investimentos em infraestrutura no Brasil atingiram cerca de R$ 259,3 bilhões, com alta de 15% sobre o ano anterior, segundo projeções da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Desse total, R$ 197,1 bilhões vieram do setor privado e R$ 62,2 bilhões de recursos públicos federais, estaduais e municipais. Os dados fazem parte da nova edição do “Livro Azul da Infraestrutura” da Abdib.
Segundo a associação, o volume projetado para 2024 supera o recorde anterior registrado em 2014, quando os investimentos totalizaram R$ 239,7 bilhões a valores atualizados. “Os valores são recordes”, disse Venilton Tadini, presidente-executivo da Abdib, em entrevista para o Valor. A entidade acompanha os investimentos públicos e privados em infraestrutura desde 2003.
A alta é puxada por setores como transportes e energia, sendo que os aportes em transportes e logística chegaram a cerca de R$ 63 bilhões, um crescimento de 52% na comparação com 2023.
Principais modais no Brasil
A matriz de transporte brasileira é bastante concentrada nas rodovias, que respondem por cerca de 61% de toda a carga movimentada no país. As ferrovias, que oferecem maior capacidade de transporte a custos mais baixos por tonelada-quilômetro, representam 20,7% da matriz, seguidas por hidrovias (13,6%), dutos (4%) e transporte aéreo (0,3%).
Apesar da extensão territorial e das vantagens competitivas de cada modal, o Brasil ainda apresenta baixo nível de integração entre eles. A CNT avalia que a multimodalidade — ou seja, o uso coordenado de dois ou mais modais — poderia reduzir os custos logísticos, mitigar impactos ambientais e elevar a produtividade dos fluxos de escoamento da produção .
O desbalanceamento da matriz acarreta maior vulnerabilidade à malha rodoviária, que concentra o transporte de bens de consumo, combustíveis e parte significativa da produção agrícola e industrial. Com isso, a pressão sobre estradas federais e estaduais se mantém elevada, gerando impactos econômicos e sociais.
Integração multimodal
A baixa articulação entre modais no Brasil é um dos principais entraves à eficiência logística. Terminais multimodais, áreas de transbordo e interoperabilidade de dados entre sistemas são considerados essenciais para tornar o transporte mais racional e econômico.
No setor ferroviário, por exemplo, a fragmentação de malhas dificulta o deslocamento de cargas entre regiões. Hidrovias como as do rio Madeira e Tietê-Paraná, apesar do potencial, operam com restrições por falta de dragagem e investimentos em eclusas. Já no setor aéreo, o uso é restrito a cargas de alto valor agregado devido ao custo elevado por tonelada transportada.
Segundo a CNT, a combinação entre modais — com uso de ferrovias e hidrovias para longas distâncias e rodovias para capilarização — pode reduzir em até 25% o custo logístico total em alguns corredores estratégicos . Esse ganho de eficiência é decisivo para o setor agrícola, a indústria e o comércio exterior.
Gargalos da logística e transporte
Por ser o principal modal, a qualidade das rodovias brasileiras pesa na balança. Não sem motivo, a precariedade delas é frequentemente apontada pela Pesquisa CNT de Rodovias. Atualmente, 67,5% da extensão avaliada foi classificada como regular, ruim ou péssima . O relatório da confederação analisou 111.502 km de rodovias pavimentadas e mostrou que as más condições da infraestrutura geram efeitos diretos no custo do frete, no consumo de combustível e no aumento dos acidentes.
Entre 2018 e 2024, os custos dos acidentes em rodovias federais somaram R$ 102,06 bilhões. Só em 2024, o valor alcançou R$ 16,17 bilhões. No entanto, a aplicação dos recursos para reduzir esses impactos permanece abaixo do necessário. O Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset), que poderia financiar melhorias, executou apenas 21,8% dos valores autorizados no período. Em 2024, esse percentual caiu para 5,8% .
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Para a CNT, essa ineficiência compromete a segurança e a produtividade dos corredores logísticos. A entidade defende ações coordenadas para restaurar trechos críticos, eliminar gargalos urbanos, ampliar a sinalização e expandir a capacidade das rodovias mais demandadas.
O que é o PNL 2050
O Plano Nacional de Logística 2050 (PNL 2050) representa a iniciativa pioneira do governo brasileiro para estruturar o planejamento de transportes com horizonte de longo prazo, alinhado ao Decreto nº 12.022/2024, que instituiu o Planejamento Integrado de Transportes (PIT). Lançado por meio de Consulta Pública em abril, o PNL 2050 visa recolher contribuições da sociedade, garantindo transparência e participação social na construção de suas etapas estratégicas.
O foco imediato dessa primeira fase de implantação foi o desenvolvimento das matrizes origem–destino de cargas. Por meio dessas matrizes, que incluem dados sobre 43 macroprodutos distribuídos em seis grupos de carga, projeta‑se a rota e a quantidade de movimentação para diferentes anos: 2025, 2030, 2035, 2040, 2045 e 2050. Essas matrizes são disponibilizadas em formato Excel, o que permite análises detalhadas e modelagens futuras por especialistas e cidadãos interessados.
Além dos dados tabulares, o PNL 2050 também disponibiliza mapas temáticos: mapas de calor e mapas por microrregião para o ano-base de 2023, além de projeções cartográficas para 2035 e 2050. Essas visualizações são úteis para compreender o fluxo espacial de mercadorias e identificar gargalos e oportunidades de infraestrutura nas diferentes regiões do país.
Para facilitar a utilização dessas informações, o site oferece um “Dicionário da Base de Dados”, que funciona como um guia explicativo, com links diretos aos dados abertos hospedados no portal do PIT. A consulta pública foi encerrada em 27 de maio de 2025, com 19 contribuições, consolidando essa etapa inicial do PNL 2050.


