Com química e digitalização, americanos melhoram ROI na concretagem

Um ecossistema tecnológico foi apresentando na World of Concrete para eliminar o retorno de concreto das obras para as usinas

Por Rodrigo Conceição Santos

em 21 de Janeiro de 2026

Cerca de 145 milhões de toneladas de resíduos da construção são destinadas a aterros a cada ano, com o concreto respondendo pela maior parcela desse volume, sobretudo por sua massa e dificuldade logística. Nos Estados Unidos, aproximadamente 5% de todo o concreto produzido retorna às usinas sem uso. Em uma usina de concreto com produção anual de  76 mil metros cúbicos de concreto, por exemplo, cerca de 3,8 mil m³ retornam para a usina sem ser usado. Como dimensão, esse concreto inutilizado é suficiente para fazer uma laje de quase 28 mil metros quadrados.

Esse problema foi exposto pela Master Buiders Solutions para apresentar a sua nova tecnologia durante a World of Concrete 2026, com cobertura o InfraROI. Trata-se de uma solução digital e química integrada para enfrentar o retorno de concreto fresco às centrais de produção. Batizado de MasterAtlas R3, o programa combina automação, sensores embarcados em caminhões e aditivos estabilizadores de hidratação para permitir a reutilização eficiente do material que, historicamente, acaba descartado.

Segundo Phil Matisak, gerente de produtos da empresa, além do desperdício de material, o concreto retornado às usinas gera custos adicionais para os produtores, afeta a programação das usinas, aumenta o tempo de caminhões em circulação e amplia a pegada de carbono da operação. “Embora a reutilização sempre tenha sido possível, o processo tradicional exigia controle manual, decisões rápidas da equipe de despacho e acompanhamento técnico constante, o que tornava a alternativa menos atraente do que o descarte”, disse.

Executivos da Master Buiders Solutions durante a World of Concrete 2026

Executivos da Master Buiders Solutions durante a World of Concrete 2026

Solução integrada

O MasterAtlas R3 conecta, em tempo real, frota, central dosadora de concreto e equipes de despacho por meio da plataforma digital MasterAtlas, hospedada em nuvem e operada pela própria Master Builders Solutions.

Assim que um caminhão deixa a obra com concreto retornado, o sistema inicia automaticamente a análise do carregamento. Dados como idade do concreto, temperatura, volume, traço e tempo de deslocamento são captados por sensores embarcados no caminhão betoneira e cruzados com informações dos softwares de despacho, rastreamento e dosagem da planta. A partir desse conjunto de dados, o módulo R3 avalia o potencial de reaproveitamento do material e sugere destinos possíveis para reutilização.

Essas informações são apresentadas em uma tela específica de reaproveitamento, acessível à equipe de despacho, que pode selecionar o novo destino do carregamento. Ao mesmo tempo, o sistema calcula a dosagem adequada do aditivo estabilizador de hidratação MasterSet Delvo, indicando à equipe de produção a quantidade necessária para interromper temporariamente a hidratação do concreto e viabilizar sua incorporação a um novo lote.

Reuso com respaldo técnico

O processo segue os critérios estabelecidos pela norma ASTM C1798, que regula o uso de concreto fresco retornado em novas misturas nos Estados Unidos. Até por isso, a tecnologia só está disponível nos Estados Unidos por enquanto. “Para disponibilizar em outros países (como o Brasil), é necessário entender a norma e os materiais utilizados nos traços de concreto”, explicou Matisak.

O sistema respeita os limites de tempo, temperatura e desempenho previstos na norma, ao mesmo tempo em que permite personalizações conforme projetos, tipos de traço ou políticas internas de cada produtor.

A dosagem do aditivo é definida principalmente pelo volume de concreto retornado e pela temperatura do material, ambos monitorados diretamente no caminhão. Caso necessário, o sistema também considera ajustes relacionados ao traço original. Todas as informações ficam registradas no processo produtivo, garantindo rastreabilidade e controle de qualidade.

Embora o MasterAtlas R3 não altere automaticamente os parâmetros do software de dosagem das usinas, ele fornece todas as instruções necessárias para que o operador realize a incorporação do material retornado ao novo lote de forma segura e padronizada.

Resultados operacionais e ambientais

Segundo a Master Buiders Solutions, produtores que já utilizam o programa conseguiram transformar volumes expressivos de concreto retornado em valor econômico e ambiental. Em um dos casos, mais de 30,6 mil metros cúbicos de concreto retornado foram reaproveitados em um único ano. Esse volume resultou em economia superior a 833 mil litros de água, redução de aproximadamente 3 mil toneladas de CO₂ equivalente e incremento de cerca de US$ 70 mil no resultado anual da usina dosadora.

“Cada metro cúbico reaproveitado representa menos descarte, menor consumo de matérias-primas virgens e redução direta nos custos com transporte e destinação de resíduos. Do ponto de vista ambiental, o impacto é imediato na redução de emissões e no uso de água, reforçando a aderência do programa a princípios de economia circular”, diz Matisak.

Convergência entre química e digitalização

A Master Builders Solutions destaca que a base química para o reaproveitamento do concreto existe há décadas, desde a introdução dos estabilizadores de hidratação. O diferencial do MasterAtlas R3 está na convergência entre essa tecnologia e as atuais capacidades digitais, como sensores, conectividade em tempo real e processamento automatizado de dados.

“No passado, iniciativas de reaproveitamento dependiam de controles manuais, planilhas e do engajamento contínuo de equipes específicas dentro das usinas, o que dificultava a escalabilidade. Com o avanço da automação e da digitalização, o processo passa a ser executado de forma quase imediata, com sugestões calculadas em segundos e apresentadas diretamente aos operadores”, detalha o executivo.

Neste momento, o MasterAtlas R3 está disponível apenas nos Estados Unidos, em função da existência de uma norma técnica específica que regula o reaproveitamento do concreto retornado. A empresa afirma, no entanto, que a plataforma não tem limitações geográficas do ponto de vista tecnológico e que a expansão para outros mercados dependerá da evolução regulatória local.

A expectativa é que, à medida que o sistema ganhe escala, novos recursos sejam incorporados, incluindo a possibilidade de dosagem do aditivo ainda no campo, em situações específicas de clima ou distância. A solução também se soma a outras tecnologias já existentes para o tratamento do concreto retornado, como processos que transformam o material em agregados reutilizáveis.

 

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