Compra da Serra Verde pode quebrar paradigma no Brasil

Com a compra de mina de terras raras no Brasil por mineradora norte-americana, Brasil terá que escolher entre continuar sendo vendedor de commodities ou entrar na cadeia de processamento de minérios

Por Redação

em 24 de Abril de 2026

A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela americana USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões, anunciada em 20 de abril, recolocou o Brasil no centro da disputa global por terras raras. O negócio envolve a mina e a planta de processamento Pela Ema, em Goiás, e foi fechado em um momento em que Estados Unidos, Europa e aliados tentam reduzir a dependência da China em minerais críticos para a indústria, a defesa e a transição energética. A operação prevê US$ 300 milhões em dinheiro, emissão de 126,849 milhões de novas ações e fechamento esperado para o terceiro trimestre de 2026.

Segundo a mineradora brasileira, sua mina é a única produtora em escala fora da Ásia capaz de fornecer os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Ainda de acordo com a Serra Verde, o negócio possibilitará a criação da maior empresa global do ramo, mas a produção em Goiás está em sua primeira fase e ainda é considerada modesta, com expectativa de dobrar em 2030.

A expectativa divulgada pela compradora é que a produção da operação represente mais de 50% da oferta de terras raras pesadas fora da China até 2027, quando a primeira fase deverá atingir capacidade nominal de cerca de 6,4 mil toneladas por ano de óxidos totais de terras raras.

O acordo ainda prevê fornecimento de 15 anos para abastecer uma Empresa de Propósito Específico (“SPV”), capitalizada por diversas agências do governo dos Estados Unidos, bem como por fontes de capital privado, para 100% de sua produção da Fase I. O acordo proporciona uma segurança ao fluxo de caixa da mineradora, já que ele conta com preços mínimos garantidos para suas terras raras.

O que está em jogo com a aquisição de Serra Verde?

À primeira vista, o negócio parece reposicionar o Brasil como peça central em uma cadeia global altamente concentrada, mas isso não significa, automaticamente, ganho industrial relevante para o país. Segundo a USGS, a produção mundial de terras raras foi estimada em 390 mil toneladas em 2025, com a China responsável por cerca de 90% da produção global processada, mantendo influência decisiva sobre preços, disponibilidade e ritmo de suprimento.

Esse domínio chinês ganhou ainda mais peso depois que Pequim anunciou, em abril de 2025, restrições à exportação de terras raras em resposta à escalada tarifária com os Estados Unidos. A medida atingiu justamente materiais usados em armamentos, eletrônicos, motores, geração de energia e bens industriais.

É nesse ponto que entra a leitura mais criteriosa de Rodolfo Midea, CEO da Fácil Negócio Importação, empresa que atua diretamente com a cadeia de ímãs de neodímio. Para ele, a aquisição não deve ser lida como um simples avanço para o Brasil, mas como parte de uma reorganização geopolítica liderada por potências que querem montar cadeias alternativas à China. “O fato de o ativo estar no Brasil não significa que o valor vai ficar no Brasil. O que esse negócio mostra é que o país continua estratégico como origem do recurso, mas ainda periférico na etapa mais rentável, que é a industrialização”, afirma.

O Brasil vai ganhar o quê com isso?

A avaliação faz sentido quando se observa o desenho da transação. A USA Rare Earth vem montando uma plataforma verticalizada fora da China, somando mina, processamento e fabricação. Em menos de um ano, a companhia adicionou a britânica Less Common Metals, participação na francesa Carester, sua planta de ímãs em Stillwater, Oklahoma, e agora a Serra Verde.

O investimento do governo estadunidense também não é pouco. Um pacote de financiamento de US$ 1,6 bilhão foi fechado em janeiro com a mineradora norte-americana, enquanto a própria Serra Verde recebeu US$ 565 milhões em financiamento do mesmo governo em fevereiro. O já citado contrato de fornecimento para a SPV é o preço dessa ajuda financeira.

Na prática, isso reforça a tese do especialista de que o Brasil pode até ganhar visibilidade, mas corre o risco de apenas trocar uma dependência concentrada na China por uma dependência distribuída entre novos polos de poder, sem construir soberania industrial. “Se o Brasil continuar entrando na cadeia apenas como dono do recurso mineral, vai seguir exposto às decisões de outros países sobre processamento, contratos, preços e destino final da produção. O centro da discussão não é só de quem é a mina. É de quem controla metal, liga, magneto e aplicação industrial”, diz.

Aquisição ainda tem que passar por crivo governamental

A expectativa de que o negócio seja fechado até o terceiro trimestre deste ano ainda passa pela aprovação de diferentes órgãos governamentais. O primeiro deles será o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que analisa operações sob a ótima da livre concorrência, e a expectativa é de que a aprovação ocorra sem restrições relevantes entre três a seis meses.

O maior risco está na Agência Nacional de Mineração (ANM), que terá de validar a transferência de controle dos direitos minerários. O portal Capital Digital explica que, no Brasil, o subsolo pertence à União e o que está sendo transferido não é a propriedade da jazida, mas o direito de explorá-la. A dúvida é o quanto essa venda pode ser politizada, já que, como Midea comentou, há uma questão importante de incluir o Brasil dentro da cadeia de processamento dos minérios, não só como um simples vendedor de commodities.

No fim, a aquisição da Serra Verde é relevante justamente porque escancara uma contradição brasileira. O País tem geologia, escala potencial e agora voltou ao radar geopolítico das grandes potências. Mas continua sem presença robusta nos elos que realmente concentram margem, tecnologia e autonomia econômica. “A grande pergunta não é se o Brasil tem terras raras. Isso ele já provou que tem. A pergunta é se quer continuar exportando oportunidade e importando dependência”, diz Rodolfo.

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