Como Recife “civilizou” as obras na malha viária

Da Redação – 17.08.2018 – 

Plataforma digital controla intervenções nas vias e consolida filosofia que vem sendo adotada desde 2013

Assim como acontece em outras cidades do país, Recife não foge ao problema de abertura de valas para colocação de redes das concessionárias de serviços públicos, tipo de empresas conhecidas em inglês como utilities. Desde o final de fevereiro, no entanto, a capital pernambucana deu um norte a esse tipo de intervenção por meio de uma lei promulgada em 2017. A legislação é simples: as utilities devem cadastrar os pedidos e ter a autorização da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) para realizar as obras. O processo envolve uma plataforma digital que compl

ementa dois outros sistemas da cidade, o Siga e o SGP, ambos iniciados há cinco anos.

Primeiro, vamos à novidade. A plataforma mais recente vai permitir o planejamento das intervenções de acordo com a manutenção da malha viária da cidade, racionalizando os recursos, segundo a Emlurb. Como as concessionárias e prestadoras de serviço precisam entrar no portal e indicar o local e a finalidade das intervenções, entre outros dados, a autarquia tem mais controle sobre o processo. Nas emergências, como o vazamento de água, o cadastramento pode acontecer depois, mas no prazo de 24 horas. Caso contrário, multa e até embargo da obra.

A digitalização do controle foi antecedida pelos já citados Siga e SGP. O primeiro é o Serviço Itinerante de Gerenciamento Avançado, organizado para “identificar, planejar e fiscalizar de forma ágil os serviços de pavimentação, principalmente os de tapa buracos”, na definição da Emlurb. O sistema conta com seis fiscais que percorrem a cidade utilizando tablets para o registro das ocorrências e a imediata comunicação aos técnicos da autarquia. Já o SGP, sigla para Sistema de Gestão de Pavimentos, “trabalha a programação de manutenção do pavimento por meio de técnicas específicas de conservação de vias”.

SGP envolveu várias fases de análises e foi concluído em 2015

O segundo sistema merece uma atenção especial por ter sido o pioneiro da trinca de soluções. O SGP permite a priorização de ações por região, tráfego e hierarquia de trânsito e inclui vários cenários, inclusive o que não contempla ação nenhuma. Ao combinar dados como as condições das vias urbanas e os custos de reparo, o SGP pode identificar janelas de oportunidade. Nelas, a reabilitação das ruas custaria menos e daria uma sobrevida maior. Ele leva em consideração, entre outros, os índices internacionais que mostram que uma via perde em média 40% de sua qualidade após 75% de tempo de vida. E mais 40% com outros 12% adicionais de vida útil.

Finalizado em 2015, o SGP teve seis fases, começando com o levantamento de dados e diagnósticos preliminares sobre as vias urbanas da cidade. A segunda etapa envolveu o levantamento funcional e estrutural da malha viária e foi seguido pelos estudos de tráfego e hierarquização da rede. As três fases finais incluíram a implantação de sistema de informações geográficas (GIS), do Sistema de Gerenciamento de Pavimentos Urbanos, o próprio SGP, e o treinamento e suporte técnico dos profissionais que usam o sistema.

Somente a avaliação dos pavimentos ocupou quatro meses, com análise visual de mais de 2,3 mil km da malha. Ele foi antecedido de um processo de diagnóstico baseado em estudos históricos e planos diretores. A visita in loco, por sua vez, foi seguida pela avaliação do tráfego real da cidade em 33 pontos, criação de mapas e estruturação da hierarquia das vias. Já o georreferenciamemento envolveu a coleta de dados de quase 30 mil vetores. Nesse rol de ações, várias tecnologias de hardware foram adotadas, incluindo o perfilômetro de superfície (RSP) e o deflectômetro de impacto pesado (FWD). Entre os softwares o processo incluiu o GIS e o Paver, específico para gerenciamento de pavimento.

Prefeitura de Recife fiscaliza 96% das vias urbanas da cidade

Dos mais de 2,3 mil km de vias da malha da capital, 96% passaram a ser gerenciados pelo sistema. Os 4% restantes estão sob coordenação de órgãos diferentes como o DNIT, DER e mesmo a Universidade Federal de Pernambuco. A fiscalização envolve 8.475 vias, das quais 70% estavam pavimentadas na época do levantamento (2014). O pavimento flexível (asfalto) estava presente em 39% da extensão total das vias, seguido pelo revestimento em paralelepípedo (34%) e apenas 4,7% era pavimento rígido, quer dizer concreto. Na avaliação da época 63% de todo o pavimento era considerado excelente ou muito bom e 13% como bom. O pavimento rígido ficou com a melhor classificação: 78% excelente e muito bom.

O levantamento de campo mostrou problemas comuns como as trincas interligadas, remendos e panelas (buracos), nos pavimentos flexíveis, e as placas divididas e fissuradas no pavimento concreto. Nas vias com paralelepípedos os problemas recorrentes eram os pontos de reposição. Com eles em mente, a Prefeitura cruzou as informações com o Índice de Condição de Pavimento (PCI). Na avaliação geral de então, as vias locais apresentaram PCI alto, enquanto as principais mostraram um PCI baixo. As condições estruturais eram boas, mas as funcionais eram péssimas, segundo o diagnóstico.

Com todas as informações em mãos, a Emlurb passou a ter uma visão melhor da malha viária, usando o Siga para fiscalizar o status da época e a evolução dos reparos. A nova plataforma, que obriga o cadastramento das intervenções, fecha a trinca. E ponto para Recife.

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