Depois de 11 anos, Caterpillar atualiza série de retroescavadeiras no Brasil

Por Rodrigo Conceição Santos – 26.02.2016 –

Empresa prevê exportar mais de 50% da produção desses equipamentos após o segundo semestre. Essa seria uma forma de contrabalançar a queda do mercado interno de equipamentos, estimada em 15% sobre o baixo volume de 2015.

 

Foto da linha de produção das retroescavadeiras série F2 em Campo Largo (PR) - Crédito Rodrigo Conceição Santos
Foto da linha de produção das retroescavadeiras série F2 em Campo Largo (PR) – Crédito Rodrigo Conceição Santos

Mesmo diante de um período difícil regional e mundialmente – pois a Caterpillar teve queda de 15% na receita global e de 36% na latino-americana (puxada pelo Brasil) em 2015 – a empresa anunciou ontem o início da produção da nova série F2 de retroescavadeiras. Essa é a primeira atualização da linha desde 2005, quando a fabricante lançou a série E de retros. Centralizada na fábrica de Campo Largo (PR), a fabricação dos modelos 416F2 e 420F2 promete melhoria de 14% de desempenho em relação à série anterior (E) e tem mais componentes nacionalizados, reforçando a adesão ao financiamento do BNDES (Finame).

“Investimos cerca de 7 milhões de dólares no desenvolvimento dessa linha”, diz Odair Renosto, presidente da Caterpillar Brasil. Segundo ele, a cifra integra os cerca de 1 bilhão de dólares que a fabricante investe mundialmente em pesquisa e desenvolvimento todos os anos e o que justificaria o lançamento da nova série brasileira mesmo neste momento de fragilidade econômica. “O nosso planejamento é de médio a longo prazo”, enfatiza.Já prevendo queda de 15% na venda de equipamentos em 2016 (lembrando que em 2015 o mercado já caiu 56%), Renosto conta que a estratégia para a venda de retroescavadeiras nacionais é buscar market share interna e externamente, concorrendo com outras companhias e também com unidades da própria Caterpillar que atendem o mercado internacional. “Hoje, a Caterpillar Brasil é fonte para países da América Latina, África e Norte da Ásia”, diz ele. “Acreditamos que a 420F2, principalmente, terá grande apelo de exportação”, completa, prevendo que as exportações devam representar mais de 50% das vendas de retros após o segundo semestre do ano.

No mercado interno, uma das apostas é o setor agrícola, principalmente o sucroalcooleiro. Além disso, a Caterpillar acredita que as retroescavadeiras são equipamentos bastante indicados para obras menores, de manutenção, o que costuma ocorrer em maior volume quando os projetos maiores, de produção/construção, estão parados.

Os dois modelos lançados, 416F2 e 420F2, têm algumas diferenças entre si e a principal delas é a potência do motor, de 93hp na primeira e de 101hp na segunda. “Em relação à série anterior, há diversas melhorias, como 14% mais força de desagregação na escavadeira, elevação da lança 10% maior, altura de despejo de materiais 17 cm maior e emissão de ruído reduzida de 80 para 74 decibéis”, diz Rodrigo Cera, engenheiro de produtos da empresa.

Tecnologia e produção
Outra novidade dessa série é uma linha hidráulica auxiliar, que permite o acoplamento de um tipo de implemento diferente na parte da escavadeira, chamado pela Caterpillar de “polegar”. Trata-se de uma espécie de pinça, que fecha a boca da concha e por isso é indicada para operações de carregamento em curta distância, como movimentação de blocos de rocha, tubulações, etc.

Para fabricar as novas retros, a Caterpillar fez alguns ajustes na linha de produção da fábrica de Campo Largo, que já foi concebida em 2011 já com conceito de lean manufactoring (manufatura enxuta, na tradução literal), segundo José Otávio Bruler, gerente geral da fábrica de Campo Largo.

A cadeia de suprimentos também ampliou, pois, como explica Odair Renosto, “em número de peças, as retroescavadeiras da série F2 são mais nacionalizadas que as anteriores”. “Em moeda, essa diferença não aparece, pois os itens que precisam ser importados estão mais caros por conta da alta do dólar”, explica.

Como exemplo, ele cita a nacionalização dos eixos traseiro e dianteiro, que passaram a ser produzidos pela ZF na cidade de Sorocaba e representam cerca de 6% do conteúdo nacional do equipamento. “O Brasil tem hoje maior volume de tecnologias específicas, como as de engrenagens, necessárias para a produção dos eixos. Isso nos permite ampliar a nacionalização, algo que é bom em vários sentidos, como agilidade no fornecimento, redução de estoque interno, etc.”, diz Renosto.

Suely Agostinho, diretora de assuntos governamentais e corporativos da Caterpillar Brasil, complementa que o preço do dólar é um problema que o BNDES está revendo para enquadrar os índices de nacionalização. “O BNDES usa dois indicadores para monitorar o conteúdo nacional. Um é o peso e o outro é o preço”, diz ela. “Na parte do preço, ele considera a média da cotação do dólar nos últimos 36 meses, mas a medida em que os meses passam e o dólar continua alto, essa média vai aumentando e tornando cada vez mais difícil cumprir o índice de nacionalização mínima que é de 60%”, completa ela.

Estrutura e readequações
A fábrica de Campo Largo, onde são fabricadas as retroescavadeiras e também as carregadeiras de médio porte da Caterpillar (com caçambas de 1,7 a 3,5 m³) tem hoje cerca de 500 funcionários. Essa quantidade é 14% menor em comparação aos 580 funcionários que lá trabalhavam no início de 2015.

Na outra fábrica brasileira da Caterpillar, em Piracicaba (SP), as demissões neste último ano foram ainda maiores, tanto em volume quanto em proporção. Lá, o quadro foi reduzido de 4 mil para 3,2 mil funcionários e, segundo Renosto, essa adequação foi um processo que começou mesmo antes da crise, ainda em 2013, e foi totalmente previsto pela unidade brasileira da companhia, diferente da condução mundial, que precisou fazer cortes mais significativos em 2015 porque teria começado o processo de readequação tardiamente.

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