Lisboa mostra mobilidade urbana que funciona

Nelson Valêncio – 27.05.2019 – Portugal tem 10,5 milhões de habitantes e recebeu quase 12,8 milhões de turistas estrangeiros no ano passado. Os dados são do site lusitano Jornal de Negócios. Se fossemos transferir o mesmo cenário para o Brasil seria algo como ter mais de 220 milhões de visitantes internacionais em 2018. Percam a ilusão. Os números reais mostram que recebemos praticamente metade do número de turistas de Portugal. Não vamos nem problematizar o porquê. Deixemos para o Ministro do Turismo, ele mesmo envolvido em vários imbróglios…

Estive em Cascais para um evento de telecomunicações na semana passada e pude comprovar que a mobilidade urbana afinada em Lisboa e nas cidades em seu entorno é uma forte razão para explicar o sucesso do turismo no país europeu. De Cascais para a capital é possível ir de trem – ou comboio como chamam os portugueses – em 35 minutos, a saindo da estação final na cidade litorânea e chegando no famoso Cais de Sodré, em Lisboa. De lá, o passeio pode ser estendido por trem, por metrô e, destes, via bonde (eléctrico). Ou ainda por VLT e ônibus. E tudo integrado num só cartão cujo valor diário é de aproximadamente 12 euros.

Comprei o cartão Viva com direito a todo esse acesso e gastei quase um tênis inteiro andando a pé porque Lisboa é uma cidade para se conhecer a pé. Apesar disso, tem horas que o cansaço aperta ou a distância obriga a pegar o metrô, que serve boa parte da cidade. Fui de transfer do aeroporto para o hotel em Cascais em cerca de 25 minutos. E fui de Uber, trem e metrô até o aeroporto no último dia de viagem, deixando a bagagem no aeroporto e voltando pra cidade. Poderia ter deixado também em alguma estação do trem, inclusive a do Cais do Sodré.

Validar o cartão nas saídas do metrô e do trem irritam, mas não comprometem o serviço 

A única coisa que chateia no uso do trem e do metrô é a necessidade de validar o cartão também nas saídas. O resto é vantagem. Custo, acesso fácil, intermodalidade de transportes etc. Lisboa mostra-se bem resolvida e,  mesmo nos horários de pico, não tem nem comparação com o metrô de São Paulo ou do Rio. Mesmo os elétrictos no centro da cidade, que cobrem as subidas ingratas entre a parte baixa e alta da capital, não assustam e nem destoam na convivência com os pedestres em ruas mais apertadas. Ah, tinha esquecido, tem o transporte fluvial também, saindo do Cais do Sodré.

Além de conhecer um pouco de Lisboa no tempo que lá estive, pude sonhar com a mesma organização de mobilidade urbana para as cidades brasileiras. Da facilidade de comprar os bilhetes nas máquinas automáticas ao acesso pleno na cidade por vários modais. Por que não podemos ter algo similar por aqui? O que falta?

Em Cascais, onde me locomovi pouco, há uma réplica da capital, com ônibus urbanos bem conservados cobrindo a cidade. Também vi postos de abastecimento de carros elétricos convenientemente instalados no centro da cidade e lixeiras inteligentes, monitoradas remotamente. Parece futurista e posso imaginar que nem todas as cidades tenham uma infraestrutura urbana desse naipe, mas a pergunta continua: por que não podemos ter o mesmo tipo de serviços e acessos por aqui?

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