Madero, da Infinera: pandemia ajuda no avanço das redes inteligentes de telecom

Nelson Valêncio –InfraDigital – 08.07.2020 –

A experiência da Infinera, um dos players de tecnologia óptica que atuam na América Latina, mostra que as operadoras já usam recursos de automatização na oferta de serviços e não somente pra identificar e corrigir falhas em sua infraestrutura. Os desafios da pandemia, como o deslocamento do tráfego dos escritórios tradicionais para o home office, são apenas mais um ponto de pressão na mudança. Nessa entrevista, Andres Madero, CTO da companhia para a região, explica porque as operadoras

Madero: recursos de automatização não se restringem à melhorias de operação

querem uma rede que simplifique suas operações, seja automática e com menor custo. Para Madero, estamos numa fase 2 desse processo, ou seja identificando os recursos disponíveis com a automatização e não discutindo se ela é necessária.

InfraROI – Com o aumento de tráfego em função da pandemia de Covid-19, a rede de telecomunicações voltou a ser destaque?

Andres Madero (AM): A rede sempre teve importância, mas o que ganhou destaque foram os parâmetros para se medir a efetividade dela e isso vem acontecendo há cinco ou seis anos. Antes o foco era na largura de banda, o que não é mais suficiente. Hoje, é necessário verificar a qualidade da rede para que a experiência do usuário seja satisfatória. Parâmetros que influenciam nisso, como a latência nas redes, ganharam relevância e é o enfoque que a Infinera adota. Focamos no menor custo por dados transportados, na densificação da informação dentro do espectro e na ultra baixa latência. Do ponto de vista da operadora isso tem mudado muito.

InfraROI – Em que sentido?

AM: Há dois tipos de operadoras de dados: o provedor típico, muito focado ainda em largura de banda, e as outras operadoras de conteúdo. Nesse último caso, elas querem data centers mais eficientes, com menor consumo de energia e de espaço. As tecnologias precisam ser sustentáveis. Para fazer um paralelo: não basta ter carros elétricos disponíveis, eles precisam ter autonomia. Há estradas de fibra óptica na América Latina, mas elas funcionam com portadoras de altíssima velocidade, como 800 gigabits por segundo (800 G) em distâncias de 800 km? O que temos observado é uma transição para maiores capacidades como 400 G, sem precisar passar por outras intermediárias, usando a rede legada e obtendo menor custo por bit transportado.

InfraROI – Há uma expansão de redes ópticas na América Latina. Vocês confirmam isso?

AM: Sim. Diferentemente dos Estados Unidos, onde o crescimento é orgânico, temos alguns problemas na América Latina, como a pouca quantidade de redes ópticas e o desafio de crescer em ambientes metropolitanos, com a restrição do uso de postes para a malha aérea. Uma solução é aproveitar mais a infraestrutura instalada, ou seja, adotar tecnologias que usam o legado existente, mas que permitam densificar a rede, com maior capacidade de transmissão de dados. A densificação vai levar ainda ao menor custo de manutenção da rede externa.

InfraROI – As novas tecnologias de fibra óptica também são sustentáveis para provedores regionais, que têm uma capacidade financeira menor do que as grandes operadoras?

AM: Claro. E temos exemplos como o da Aloo Telecom, que é um provedor regional e tem usado muito as tecnologias flexíveis que permitem uma expansão da rede racional ou ainda disponibilizar capacidade por demanda, de forma dinâmica. Funciona como se fôssemos manusear um líquido. O usuário compra largura de banda para um determinado serviço e depois volta para a capacidade que usa no dia a dia.

InfraROI – É o papel da automatização?

AM: A automatização tem se tornado um tema importante pela redução de custos e também, na operação, pela redução de falhas com a redução da intervenção humana. Ao não termos a interface manual, eliminamos os erros repetitivos e entram os recursos da rede definida por software (SDN). E podemos combinar o SDN com Inteligência Artificial (AI), entre outros. Falando de um exemplo real, podemos pegar um caso no Rio de Janeiro, onde em função de uma obra local havia praticamente a interrupção da rede a cada dois meses, com a intervenção da equipe de engenharia. A automatização detecta essa tendência e redireciona a rota, de forma mais rápida, garantindo a estabilidade da transmissão. Antes, o processo era manual para estudar estatisticamente as rotas, agora isso é feito com o aprendizado de machine learning. E as informações são gráficas, você acompanhar o processo a partir de plataformas amigáveis.

InfraROI – Os recursos, então, não se restringem à melhorias na operação…

AM: Não. As operadoras da região estão comprando muitos recursos de automação, mas isso não é divulgado. O que era usado somente para operação em si tem sido aplicado na oferta de serviços. Eu, por exemplo, estou em home office, mas a Infinera tem um prédio corporativo que usa um plano grande de banda larga. As operadoras têm recursos hoje para distribuir essa capacidade para outros locais. Podem provisionar capacidades menores e múltiplas, atendendo vários profissionais em home office e cobrando o mesmo valor pelo serviço fornecido no prédio corporativo. A demanda no prédio pode estar reduzida porque a grande maioria do pessoal está trabalhando em casa. É uma largura de banda fluída, que tem que estar no radar da operadora.

InfraROI – Existe uma melhor abordagem para avançar nessa automatização?

AM: As mudanças e as vantagens são grandes, mas pode parecer complexo fazer em toda a rede de uma só vez. Nossa sugestão é que o processo seja paulatino, por módulos, automatizando antes algumas redes. O primeiro passo é entender onde estão os processos resolvidos de forma manual e onde a automatização teria o maior impacto. E fazer a intervenção, com um projeto piloto. O monitoramento da intervenção vai mostrar os ganhos e permitir o avanço da automatização para outras áreas, inclusive com o deslocamento de pessoas ou seu aproveitamento melhor. O profissional deixa de resolver problemas e passa a monitorar e refinar as soluções de melhorias. Deixa de fazer um trabalho repetitivo e foca em inovação.

InfraDigital é um projeto comum de conteúdo do InfraROI e o do portal IPNews (www.ipnews.com.br). Para informações sobre o formato, consulte Rodrigo Santos (rodrigo@canaris-com.com.br) ou Jackeline Carvalho (jackeline@cinterativa.com.br).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *