“Nesse ritmo de investimento, o saneamento não vai a lugar algum”, diz especialista do Trata Brasil

Redação (com assessoria de imprensa) – 24.08.2020 –

Setor recebe o pior investimento entre os setores da infraestrutura e expectativa é que o Novo Marco Legal melhore o cenário.

Para os especialistas participantes do Fórum de Infraestrutura Grandes Construções realizado virtualmente pela Sobratema na semana passada, o novo marco legal do saneamento básico tende a equacionar a falta de recursos da área. O diagnóstico é que o país precisa receber ao menos R$ 20 bilhões anuais de aportes, mas nos últimos anos a média ficou entre R$ 11 e R$ 13 bi. “Nesse ritmo, não vai se chegar a lugar algum. Até a energia elétrica que é universalizada investe o dobro do saneamento no Brasil”, diz com Édison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil
Segundo ele, o saneamento é o setor da infraestrutura que recebe o menor investimento percentualmente comparando ao Produto Interno Bruto. Nos últimos anos, ele contabiliza que a verba variou entre 0,18% a 0,2% do PIB.
Ilana Ferreira, superintendente técnica da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), reforçou que os investimentos médios anuais no setor não são suficientes para atender a população, ou seja, expandir a rede, nem para recuperar a depreciação da rede existente. Segundo um estudo da entidade com a KPMG, seriam necessários mais de R$ 750 bilhões até 2033, sendo R$ 498 bilhões voltados para a expansão e R$ 255 bilhões para a manutenção. “O segmento é de baixa elasticidade, o que significa que as grandes variações do PIB afetam o setor, mas com proporcionalidade menor. O que impacta o saneamento no Brasil são as questões ambientais”.
Além do investimento, outro fator preocupante é a perda de água potável, que chegou a 38,5% em 2018. “Ela acontece em todo o mundo, porém, esse índice é muito alto. Um percentual tolerável seria de 15%”, ressaltou Carlos. Como resultado, são R$ 12 bilhões de prejuízo com a perda de água, que poderiam ser revertidos, segundo ele, em investimentos, caso houvesse mais eficiência.
Nesse sentido, Luiz Roberto Gravina Pladevall, presidente da Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente (APECS), comentou que esse percentual de perda de água pode chegar até 70% dependendo da localidade, o que é muito frustrante para o consumidor, que paga pelo serviço, mas sem eficiência. Além disso, ele avaliou que reduzir a perda de água significa diminuir o custo de produção.
Para ele, há muita coisa a ser feita no saneamento, mas não é possível virar a chave de uma hora para outra, isto é, passar de um investimento de R$ 12 bilhões para um de R$ 40 bilhões. “É necessário um planejamento de curto, médio e longo prazos e uma cadeia produtiva estruturada. Essa ação precisa ser bem feita e eficiente. Caso contrário, podemos chegar à universalização do saneamento, mas com grandes perdas e entregando um serviço ruim à população”.
Para aumentar a eficiência do setor e diminuir as perdas decorrentes da falta de manutenção ou por ilegalidades, os especialistas do Fórum de Infraestrutura Grandes Construções 2020 foram enfáticos sobre a importância de utilizar a tecnologia como uma aliada. “O Brasil tem muita tecnologia disponível no mercado. A questão é aplica-la as necessidades locais”, afirmou Hélio Sugimura, gerente de Marketing da Mitsubishi Electric, que acrescentou que ela pode ser usada, por exemplo, para reduzir custos operacionais e melhorar a eficiência energética. “Em outros países, a tecnologia pode oferecer suporte a todo processo produtivo”.
João Rosa, sócio-fundador da Acqua Expert também acredita que a tecnologia é importante para elevar a qualidade do saneamento no país. No entanto, ele ponderou que algumas dessas tecnologias são importadas e que, com isso, há poucas pessoas com conhecimento e habilidade para fazer o dimensionamento e utilizá-las corretamente.
Mesmo assim, na visão de Sugimura, o marco legal do saneamento pode ser uma oportunidade de transferir tecnologia e conhecimento já aplicados em outras nações do mundo. “No exterior, existe uma preocupação muito grande com a eficiência energética para o tratamento de água e esgoto. Outra questão também de atenção é a redundância de controladores e dos sistemas para dar confiabilidade aos processos”.
Outra área que faz parte do saneamento é o resíduo. Desse modo, Luiz Gonzaga Alves Pereira, diretor presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), revelou que a situação da área de resíduos é pior do que a de água e esgoto. “Os nossos números são da época da pedra lascada. Um país com a dimensão do Brasil não pode em 2020 ainda agraciar a população com mais de 3 mil lixões. Estamos falando de saúde e quanto mais deixarmos de cuidar dos problemas que geram esse tipo de ação, mais problema teremos”, enfatizou.

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