Onde mora a internet?

Por Nelson Valêncio – 1 de abril de 2014

Muita gente já se perguntou onde fica a internet, inclusive o jornalista americano Andrew Blum. O profissional saiu a campo para entender qual é a infraestrutura que sustenta o envio diário de emails e outras transações mais complexas. A motivação do repórter? Um esquilo. Isso mesmo, um pequeno roedor nova-iorquino foi o estopim, aliás, o causador literal da busca empreendida por Blum. Explicando: ao roer o cabo que ligava a provedora local de internet à casa do jornalista, o animal derrubou a conexão da rede. Então – graças ao esquilo – temos um levantamento das estruturas físicas que transportam dados, imagens e voz ao longo de todo o mundo. As informações estão no livro Tubos – o mundo físico da internet, lançado em 2012 nos Estados Unidos e publicado no ano passado pela editora Rocco. Para escrevê-lo, o profissional percorreu vários data centers nos Estados Unidos e Europa e presenciou a instalação de um cabo óptico interoceânico no ponto de chegada em Portugal, entre outras atividades.

Ao mostrar como é a infraestrutura física da internet, Blum ingressa num mundo de padronização, que é muitas vezes, tedioso. Ou seja: um data center em Bombaim – de forma geral – tem o mesmo formato de um centro de dados em São Paulo. Fisicamente falando, o mundo da internet entra nesse local via os cabos de fibra óptica das operadoras que fornecem as conexões ou tubos. Para que isso aconteça de forma tranqüila, o data center funciona com fornecimento de energia duplicado e sistemas de controle de ar condicionado eficientes. Tem que ser autossustentável. Por outro lado, ao conhecer um dos centros de dados do Google, o jornalista conclui que o grande fornecedor de informações da internet não gosta de falar de si mesmo. Essa avaliação do livro é interessante porque mostra outra característica do mundo físico da rede: os mecanismos de segurança. Não só para evitar esquilos como para combater o roubo de dados e a derrubada literal da comunicação. Por isso, além de existir fisicamente, a malha que sustenta os serviços de telecomunicações e tecnologia de informação (TIC) é geralmente redundante.

Mas, se as redes existem, elas podem ser mapeadas. E é o que faz a TeleGeography, um dos primeiros espaços físicos visitados por Blum em sua odisséia. A empresa americana produz um relatório anual chamado de Global Internet Geography vendido por US$ 5,5 mil dólares a unidade. O documento lista os cabos submarinos de fibra óptica ao redor do mundo e também as redes terrestres. São vários backbones – redes de longa distância na terminologia de telecomunicações – com detalhes sobre capacidade de quantidade de dados que podem transmitir, entre outras informações. Para executar o mapa, a Telegeography usa um recurso de baixa tecnologia: distribui um questionário confidencial para as operadoras e reúne os dados. Para validar os números fornecidos, a empresa adota alta tecnologia, combinando a experiência de seus geeks com programas como o Traceroute, que varre roteadores e a velocidade que uma mensagem demora para chegar numa determinada rota. É como se a concessionária de rodovias A dissesse que tem 100 km de estrada bem construída e que você leva 1h30 para ir da cidade B à cidade C. Para verificar se isso faz sentido, podemos percorrê-la. No caso da Telegeography, o processo é executado de forma virtual. Mas a rede testada é bem real.

A estrutura física da internet também pode ser comprovada pela existência de “aeroportos “ de dados ou centros de conexão, geralmente nomeados com a palavra IX (de interconexão) em sua sigla. É o caso da Equinix, que em 2012, tinha uma estrutura de 65 mil metros quadrados na pequena cidade de Ashburn (EUA) e onde reúne a chegada da rede de várias operadoras, as quais por sua vez alugam seus tubos para outras operadoras. A conveniência da troca é o segredo desse tipo de empresa e a locação da estrutura é que justifica seu lucro. Se o modelo da Equinix é concentrar a chegada de várias redes e funcionam como gargalos, os data centers operam como estruturas mais seccionadas. Por isso são mais volumosos em quantidade. Mas também tem demandas específicas como a exigência do fornecimento de energia em grande escala. O Google, por exemplo, tem um dos seus na cidade de Dalles, próximo a uma fundição de alumínio. O local de 12 hectares é bem suprido pela concessionária local, pois o processo de fabricação de alumínio é eletrointensivo. Antes mesmo do Google, a antiga fundição demandava 85 MW de energia, um consumo que daria conta de uma cidade com várias vezes o tamanho de Dalles.

Geograficamente, a internet nem sempre é inovadora. Na Holanda, por exemplo, mais especificamente em Amsterdã, Blum percorreu – de bicicleta – vários data centers próximos ao AMS-IX, comprovando a sinergia entre um centro de interconexão e a presença de centros de dados, que também são um espaço físico de internet. E comprovou que o pequeno país europeu mantém sua filosofia de ser um hub ou concentrador e não necessariamente um comprador de capacidade de tráfego (ou de outros produtos). Em Nova York, por outro lado, o jornalista mostra que os Tubos da internet necessariamente não são novos. É o caso do prédio número 195, da Broadway, para onde converge uma rede centenária de conduítes anteriormente utilizados pelo sistema de telégrafo. Hoje, o edifício é um dos corações da internet na cidade, recebendo fibra óptica que percorre uma malha com 80 e até 100 anos. Para Blum, a geografia de telefonia foi substituída pela da internet.

O espírito investigativo do repórter americano o levou ainda à Portugal para ver de perto a chegada do cabo óptico do West Africa Cable System,na estação de aterragem na Costa de Caparica. Essa etapa fecharia um périplo de 14 mil km de cabos ópticos ligando vários países africanos à costa portuguesa. E também fecham um entendimento sobre onde está a internet: ela está em vários lugares e em lugar nenhum. Nem sempre se pode falar nela, visto que não se visita um data center como se vai a um museu. E ela é tão fisicamente palpável que há casos inusitados como a senhora de 75 anos que derrubou a rede da Armênia ao escavar seu terreno e atingir – de cheio – um backbone óptico.

Livro: Tubos – o mundo físico da internetLivro Tubos
Autor: Andrew Blum
Conteúdo: 271 páginas
Editora Rocco
Preço médio: R$ 35 (impresso) ou R$ 27 (ebook)

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