Modelo de IoT para saneamento pode ser replicado no Brasil

Nelson Valêncio – 20.08.2021 – A transformação digital dos setores de infraestrutura é um processo que não tem como parar. Em alguns deles, o processo é mais visível, caso das concessionárias de energia elétrica, onde a aplicação de gestão e monitoramento remoto avança rápido com o uso de Internet das Coisas (IoT). Tão rápido que, como mostramos aqui no InfraROI, não há mais fronteiras entre o que se chama de TI e de TO, sendo essa última a sigla para tecnologia de operação. As redes não estão mais estanques (e quem está por trás dos ciberataques sabe disso).

O mesmo acontece com rodovias. As recentes concessões em São Paulo exigiram investimentos em infraestrutura de telecom, como o acesso à redes Wi-Fi ao longo das estradas. O mesmo parece se encaminhar para o esperado pacote de concessões do Paraná. Nos aeroportos, até mesmo para atender o cenário atual de pandemia – o uso de recursos digitais não para de acontecer e deve permanecer, assim como devem permanecer boa parte do chamado (e já batido) “novo normal”.

E o saneamento básico, esse patinho feio entre os demais? Com o novo marco legal do setor, espera-se mais concessões à iniciativa privada ou em projetos de PPP, com participação privada em combinação com o setor público. A concessão da Cedae, além de real, foi simbólica para a infraestrutura como um todo e, em particular para o saneamento urbano. Apesar de tímidas, há várias aplicações de IoT, por exemplo, nas concessionárias dessa área, inclusive com sistemas de monitoramento de nível de água usando boias com sensores.

O exemplo mais recente do Reino Unido pode ser um modelo para o nosso cenário, agora oxigenado com a possibilidade de mais concessões, ou seja, mais investimento na infraestrutura demandante da área de saneamento. A iniciativa envolva a Vodafone, tradicional operadora de telecom e uma oferta de IoT especialmente desenhada para atender as concessionárias de saneamento. É uma plataforma com dispositivos e sensores que podem ajudar a reduzir o desperdício de água, entre outros recursos.

A ideia principal é prolongar a vida útil dos sistemas legados de monitoramento instalados, em alguns casos, nos últimos 30 anos. Os dados são de uma reportagem do portal Computer Weekly. O sistema da Vodafone investe nisso para melhorar os sistemas de monitoramento e detecção, aumentar a eficiência, reduzir o desperdício e atender aos requisitos regulamentares.

O que a operadora notou é que o problema não é a captura de dados, mas os famigerados silos, ou seja, a forma como eles são tratados isoladamente e, muitas vezes, sem padronização. E gerenciar tecnologias que não se falam tem um custo. Segundo o Computer Weekly, o novo sistema da operadora “é fundamentalmente para permitir que as companhias de água aumentem o nível de vigilância e telemetria nas redes para atender aos padrões regulatórios e ambientais, ao mesmo tempo em que garante maior eficiência e menor desperdício. Ele oferece uma única plataforma de gerenciamento de dados que integra sensores novos e antigos em um sistema para aumentar drasticamente a eficiência operacional”.

E ainda mais: a “tecnologia é descrita como agnóstica de dispositivo e tecnologia, portanto, pode reunir qualquer dispositivo em uma rede e fornecer às empresas de água todos os elementos de uma solução de IoT, incluindo dispositivos, conectividade, gerenciamento de dados e serviço contínuo”. Resumo: as concessionárias de saneamento não ficariam presas aos fornecedores e podem escolher os dispositivos que melhor atendem às suas necessidades e às de seus clientes.

O modelo de negócio da Vodafone ainda envolve a aquisição de novos dispositivos e sensores, incluindo medidores inteligentes e registradores de dados, bem como a integração dos dispositivos existentes em uma única plataforma de gerenciamento. Em termos de conectividade, a solução usaria a banda estreita IoT (NB-IoT), que atualmente já cobre 98% da geografia do Reino Unido. Tecnicamente, o NB-IoT foi projetado para dispositivos que requerem baterias de longa duração, evitando um gargalo de manutenção.

Certamente as condições do Reino Unido são diferentes do mercado brasileiro, onde as perdas de água no processo são muito elevadas, entre outras características, mas não deixa de ser um modelo já em teste e que pode ser, pelo menos em parte, replicado.

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