A cúpula do BRICS (grupo de países emergentes do Sul Global) realizada no Rio de Janeiro, entre 6 e 7 de julho, terminou com uma agenda marcada por declarações políticas e propostas para fortalecer a atuação do bloco em áreas como saúde, clima, tecnologia e finanças. Os líderes dos países presentes assinaram uma declaração de 126 compromissos, indicando a pretensão de ampliar o papel do grupo nas instituições multilaterais.
Intitulada “Fortalecimento da Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”, a declaração tem o objetivo de reequilibrar o sistema internacional.
O documento aborda temas como a reforma da Organização das Nações Unidas (ONU), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial e incentiva o uso de moedas nacionais em transações comerciais. Além disso, propõe maior protagonismo de países em desenvolvimento em negociações climáticas e tecnológicas. “A atual configuração da governança internacional não atende mais à realidade geopolítica e econômica. O BRICS é parte da resposta a esse desequilíbrio”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, anfitrião do encontro.
Apesar da ausência dos presidentes Xi Jinping (China) e Vladimir Putin (Rússia), representados por seus chanceleres, o bloco buscou sinalizar coesão. O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, participaram presencialmente.
Minerais estratégicos e clima na rota geopolítica
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, propôs uma política coordenada para evitar o que ele classificou como “arma geopolítica” dos minerais estratégicos. A ideia é criar mecanismos conjuntos para garantir o suprimento de insumos importantes para a transição energética, como lítio e terras raras.
Na área ambiental, os países definiram uma nova plataforma para ação climática, conectando iniciativas do BRICS às negociações da COP 30, a ser realizada em Belém, em novembro deste ano. Além disso, o NDB deve ampliar o financiamento de projetos de mitigação e adaptação climática.
Saúde na cúpula do BRICS no Rio
Um dos principais anúncios da cúpula foi a criação da parceria do BRICS para eliminação de doenças socialmente determinadas. A iniciativa tem foco em enfermidades associadas à pobreza, como tuberculose, dengue e outras doenças tropicais. O objetivo é integrar ações de saneamento, acesso remoto, pesquisa científica e uso de inteligência artificial.
Segundo o chanceler russo Sergey Lavrov, trata-se de um modelo de saúde pública voltado à redução de desigualdades, com ênfase na prevenção de doenças. “A agenda do BRICS não é apenas de infraestrutura, é de justiça social”, disse.
Bloco avança em alternativas ao dólar e amplia NDB
Na área econômica, os líderes reforçaram o interesse em desenvolver mecanismos que reduzam a dependência do dólar nas transações internacionais entre os países do bloco. O tema foi tratado como prioritário nas reuniões técnicas e deve avançar com a criação de um grupo de trabalho permanente sobre sistemas de pagamento alternativos.
O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado pelo BRICS em 2015, também foi destaque. A instituição anunciou a entrada da Colômbia e do Uzbequistão como novos membros, elevando para 11 o número de países participantes. A presidente do banco, Dilma Rousseff, defendeu a ampliação do financiamento a projetos de infraestrutura verde e digital.
Lula pede comércio com base em regras
Durante a cúpula, Lula fez críticas à política comercial dos Estados Unidos, após o governo de Donald Trump anunciar planos de sobretaxar produtos de países alinhados ao BRICS em até 10%. O presidente classificou a proposta como “equivocada e irresponsável”.
A declaração final do bloco condena medidas unilaterais e reforça o compromisso com um sistema de comércio baseado nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Os países também reiteraram apoio à ampliação de acordos comerciais entre economias em desenvolvimento.
Tecnologia e IA entram na pauta do BRICS na cúpula do Rio
A governança da inteligência artificial entrou, pela primeira vez, na agenda de forma estruturada do BRICS. Os líderes defenderam a adoção de princípios comuns para proteger dados, coibir o uso não autorizado de conteúdo em treinamentos de IA e garantir remuneração justa a produtores de dados e conhecimento, especialmente no Sul Global. “Queremos garantir que a revolução digital não reproduza a lógica de dominação tecnológica”, disse o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa.


