Por Marcus Granadeiro*
A engenharia e a arquitetura brasileiras já viveram a sua própria era de ouro. Tivemos um período histórico marcado pela valorização do talento e por uma liberdade criativa que nos legou marcos definitivos, como a construção de Brasília, o Metrô de São Paulo e usinas monumentais como Itaipu e Tucuruí. No entanto, ao observarmos o cenário corporativo atual, fica a nítida sensação de que a ousadia se esvaziou, sendo substituída pela ditadura do ROI (Retorno sobre Investimento) e da cultura estrita de métricas e controles.
Historicamente, a inovação disruptiva sempre exigiu uma dose de confiança que transcende as planilhas. No Renascimento, a instituição do mecenato permitia que patronos investissem fortunas em obras de arte como estratégia de poder e legado, garantindo que a fama do artista refletisse diretamente no prestígio de quem o financiava. Os Médici, na Itália, por exemplo, eram banqueiros que não tinham sangue nobre, mas gastavam com palácios e obras monumentais que serviam para comprar respeito. Ao encomendar um quadro de Leonardo da Vinci ou Michelangelo, o patrono garantia que seu rosto ou o nome de sua família sobrevivessem por séculos.
Um fenômeno semelhante ocorreu na publicidade brasileira dos anos 90, em que agências e profissionais tinham liberdade criativa longe das métricas atuais, gerando campanhas e resultados icônicos. Nomes como Washington Olivetto e Nizan Guanaes tornaram-se celebridades. Eles tinham mais liberdade do que a exigência de ROIs.
Hoje, o mercado de infraestrutura e construção civil parece sofrer do mal oposto: não se permite mais a liberdade de criar e “engenheirar”. O medo do erro e o controle rígido nos condenam a entregar projetos burocráticos e medianos. Até mesmo na adoção de novas tecnologias e processos, como nas implantações de BIM (Building Information Modeling), a criatividade é muitas vezes sufocada por scripts engessados.
Mas, a Transformação Digital exige assumir riscos. E é exatamente neste contexto de aversão ao risco que o setor enfrenta o seu maior desafio: como sobreviver e se manter competitivo em um mundo cada vez mais digital. A resposta exige maturidade. Adotar o BIM não é trivial e não se resume a adquirir um software específico. Trata-se de uma profunda jornada de transformação digital que deve estar alinhada ao planejamento estratégico do negócio.
Para que as empresas de engenharia não desapareçam, como ocorreu com muitas gigantes na transição das pranchetas para o CAD, é imperativo inovar. E, assim como na construção das grandes obras do passado, essa jornada requer a disposição das lideranças em assumir riscos calculados para superar desafios e ampliar as oportunidades do mercado.
Destacando a estratégia por trás da inovação e o openBIM, podemos afirmar que as bases para esse avanço da engenharia já estão disponíveis e consolidadas. O impulso da digitalização de projetos ganha força com o padrão openBIM, chancelado pela nova norma ISO 16739, que consagra a evolução do formato IFC 4.3, e pelo amadurecimento trazido pela buildingSMART ao Brasil. Além disso, a nova Lei de Licitações (Lei nº 14.133/21) tornou-se um catalisador irreversível, induzindo o uso da metodologia em obras públicas e reforçando a necessidade de capacitação técnica corporativa.
Para guiar as empresas a não implantarem apenas softwares, mas sim repensarem seus negócios, é preciso construir um planejamento que inclua o conhecimento para a implementação prática, que vai ajudar as empresas desde o nível estratégico, como o nivelamento de conceitos, definição de posicionamento e planos de investimento, até o operacional.
Na prática, isso se traduz no desenvolvimento de Planos de Execução BIM (PEB), apoio em processos contratuais de medição e no estabelecimento de um Ambiente Comum de Dados (CDE) estruturado. Essa abordagem metodológica garante precisão e padrão internacional a custo local mesmo se tratando de projetos com extrema complexidade.
Sair da caixa, arriscar e buscar a inovação é um passo importante para a construção do futuro, não do modelo mediano. Ao “afrouxar os controles” para permitir a verdadeira inovação em processos BIM, é possível que algo saia do roteiro ou atrase. Claro, isso é possível. Mas, se não resgatarmos essa confiança no profissional e se não buscarmos a liberdade para engenheirar o novo, jamais teremos as novas “Capelas Sistinas” ou rodovias inovadoras da nossa geração.
O BIM é a tecnologia que pavimenta o futuro, mas a coragem para dar esse passo estratégico deve partir da liderança. É hora de decidir se seremos empresas burocráticas ou as protagonistas da nova era da engenharia.
*Marcus Granadeiro é engenheiro civil especialista em BIM e sócio-diretor do Construtivo, empresa de tecnologia com DNA de engenharia.


