Da infraestrutura à inteligência dos dados: o novo caminho para universalizar o saneamento

Como a digitalização e a gestão integrada de informações se tornam essenciais para superar gargalos históricos e acelerar a universalização do saneamento no Brasil

Por Redação

em 5 de Agosto de 2026

Por Gustavo Carezzato*

O saneamento básico brasileiro vive um dos momentos mais importantes de sua história. Desde a aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento, o país deve universalizar o acesso aos serviços essenciais até 2033, garantindo água potável para 99% da população e coleta e tratamento de esgoto para 90% dos brasileiros. Os desafios, no entanto, permanecem proporcionais à dimensão territorial do país e às desigualdades históricas entre as regiões. Enquanto alguns estados avançam rapidamente, outros ainda enfrentam dificuldades relacionadas à infraestrutura, ao financiamento e à capacidade de execução dos projetos.

Em São Paulo, segundo a Secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, houve um ciclo recorde no investimento em infraestrutura para saneamento, prevendo injeção de R$ 70 bilhões no setor até 2029. Mas, os problemas persistem, pois ainda existem cerca de 3,1 milhões de paulistas vivendo sem acesso à coleta de esgoto, segundo o Painel do Saneamento Brasil. Grande parte dessas dificuldades está concentrada nas áreas de ocupação irregular e nas regiões periféricas , onde a implantação da infraestrutura depende de questões fundiárias, ambientais e sociais.

Ao mesmo tempo, a recuperação de importantes bacias hidrográficas continua exigindo investimentos permanentes na ampliação da coleta e, principalmente, da capacidade de tratamento de esgoto. Essa realidade evidencia que o desafio do saneamento não é exclusivamente físico. A gestão de empreendimentos de grande escala envolve milhares de documentos, projetos multidisciplinares, equipes distribuídas geograficamente e ativos que precisam ser monitorados durante décadas. Quanto maior o volume de investimentos, maior também é a necessidade de garantir qualidade, rastreabilidade e integração das informações. Nesse cenário, a Transformação Digital assume papel estratégico. Projetos de saneamento envolvem disciplinas como engenharia civil, hidráulica, elétrica, automação, meio ambiente e geoprocessamento. Cada uma produz um enorme volume de informações que precisam permanecer atualizadas, acessíveis e consistentes ao longo de todo o ciclo de vida do empreendimento.

Quando essas informações permanecem dispersas em diferentes sistemas, planilhas ou arquivos isolados, aumentam significativamente os riscos de incompatibilidades entre projetos, retrabalhos, atrasos nas obras, dificuldades de fiscalização e perda de conhecimento técnico. Nesse contexto que ganha relevância o conceito de Common Data Environment (CDE), ou Ambiente Comum de Dados Central, considerado hoje uma das principais boas práticas internacionais para gestão da informação em empreendimentos de infraestrutura. O CDE Central detém um ambiente único, estruturado e controlado onde documentos, projetos, modelos BIM, fluxos de aprovação e comunicações permanecem centralizados, atualizados e acessíveis para todos os envolvidos.

Essa abordagem está alinhada à ISO 19650, norma internacional que estabelece as diretrizes para o desenvolvimento e a gestão da informação utilizando BIM ao longo de todo o ciclo de vida dos ativos, e que tem sido cada vez mais adotada em grandes projetos de infraestrutura ao redor do mundo porque padroniza processos, define responsabilidades, assegura rastreabilidade das informações e fortalece a governança dos empreendimentos. Outro aspecto cada vez mais relevante é a integração entre modelos digitais de engenharia e informações geográficas.

Em projetos de saneamento, compreender a localização precisa de redes, reservatórios, estações elevatórias e estações de tratamento é fundamental para o planejamento das obras, a operação dos sistemas e a manutenção da infraestrutura. Ao integrar essas informações em um ambiente único, torna-se possível analisar os ativos considerando tanto suas características técnicas quanto seu contexto territorial, permitindo decisões mais rápidas e precisas. Essa visão também fortalece a gestão de portfólio dos investimentos.

Em vez de acompanhar cada obra de forma isolada, gestores públicos e concessionárias conseguem monitorar simultaneamente centenas de projetos, avaliando cronogramas, execução financeira, riscos e indicadores de desempenho em tempo real. A governança da informação passa, então, a ocupar um papel tão importante quanto a própria engenharia. Processos padronizados, controle de versões de documentos e modelos BIM, rastreabilidade completa das alterações, fluxos estruturados de aprovação e conformidade com normas nacionais e padrões internacionais como o openBIM contribuem para aumentar a transparência, reduzir erros e melhorar a qualidade das entregas. Além dos ganhos operacionais, essa abordagem fortalece a tomada de decisão baseada em dados, permitindo maior previsibilidade dos projetos, melhor utilização dos recursos públicos e privados e maior segurança para todos os envolvidos.

A universalização do saneamento representa uma das maiores oportunidades de desenvolvimento social, ambiental e econômico do país. Mas o sucesso da estratégia dependerá da combinação entre investimentos, capacidade técnica, inovação e uma gestão cada vez mais inteligente dos projetos. Em um setor em que que os investimentos anuais mais que dobraram após o Marco Legal, realizado em 2020, passando de R$ 18 bilhões para R$ 42 bilhões por ano, de acordo com Abdid (Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base), a informação passa a ser tão estratégica quanto a própria infraestrutura, tornando-se um dos principais ativos para acelerar a entrega de água tratada, coleta e tratamento de esgoto para toda a população brasileira.

*Gustavo Carezzato é arquiteto e urbanista com foco em BIM e ISO 19650, e head de BIM do Construtivo, empresa de tecnologia que desenvolve soluções para engenharia.

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