Apesar da maior durabilidade e da possibilidade de reduzir custos ao longo da vida útil, o pavimento de concreto ainda ocupa uma fatia pequena da pavimentação brasileira. Segundo Rubens Brito, gerente da linha de pavimentação da XCMG, aproximadamente 4% a 5% do mercado utiliza concreto, enquanto o asfalto permanece dominante. O custo inicial de investimento ainda é o grande desafio, mas alguns movimentos podem abrir o mercado para o pavimento rígido.
O gerente diz que há uma oportunidade no desenvolvimento de uma nova tecnologia de pavimento rígido pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP): o Concreto Compactado com Rolo Reforçado com Fibras (CCRF). A solução troca o concreto fluído, como é usado normalmente nas obras, pelo concreto rolado, o que permite usar equipamentos semelhantes aos da pavimentação asfáltica para entregar a vida útil e a resistência superiores do concreto.
Brito explica que o uso de fibras de poliéster permitem que a espessura da camada de concreto seja consideravelmente menor, diminuindo os custos iniciais. “Você consegue trabalhar com uma espessura menor, abaixando a espessura lá de 15 a 20 centímetros para cinco centímetros, a depender do tráfego que você vai ter na rodovia”, explica ele. Essa camada teria a mesma espessura do asfalto utilizado, sem a necessidade de criar diversas camadas de base.
Tecnologia também facilitaria a manutenção de rodovias de concreto
Segundo a ABCP, por ser aplicado com vibroacabadoras e compactado com rolos tradicionais, o método garante uma alta produtividade e rapidez na liberação ao tráfego, eliminando processos complexos que o pavimento rígido exige. Nesse sistema, a associação diz que também é possível reduzir significativamente os custos de manutenção a longo prazo para as prefeituras.
Essa redução nos custos de manutenção também é importante para as concessionárias. O gerente da XCMG explica que a manutenção do concreto é mais difícil que a do asfalto, pois neste último é possível fazer o recapeamento e entregar o trecho reformado em questão de horas.
“Você fresa, coloca o asfalto novo, compacta e abre o tráfego. O concreto não, ele precisa de pega, ele precisa endurecer. Aí demora alguns dias”, diz ele. “Por mais que você acelere, vai demorar alguns dias com o tráfego fechado naquela área. Isso é uma dificuldade que o pavimento de concreto tem que vencer ainda.”
Visão de longo prazo abre oportunidade para o pavimento rígido
As concessões de rodovias em longos períodos é outra oportunidade. A percepção de Renato Torres, CEO da Schwing Stetter Brasil, aponta que as concessionárias que ganham uma concessão de 20 a 30 anos e precisam investir na construção de um novo pavimento tendem a olhar com maior carinho para o concreto porque elas sabem que a durabilidade do pavimento irá acompanhar todo o período da gestão.
Segundo ele, as concessões puxam a tendência de substituição do asfalto pelo concreto. “Eles já viram o grande benefício que é usar o concreto. Antigamente não se fazia muito concreto porque eles não pensavam a longo prazo. Se aquela obra durasse quatro anos já estaria bom.”
Paraná puxa o investimento estatal no pavimento de concreto
O Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR) também enxerga o potencial do pavimento rígido. O estado no Sul do País lidera o ranking de rodovias de concreto com 979,5 km e o presidente do DER-PR, Fernando Furiatti Saboia, espera passar os 1 mil quilômetros logo. Segundo reportagem da CNN, os investimentos já ultrapassam os R$ 5,1 bilhões e contemplam desde grandes corredores logísticos do estado até estradas rurais e novas ligações metropolitanas.
O destaque fica por conta da PRC-280, no sudoeste do estado, que abriga atualmente o maior trecho contínuo de rodovia em concreto do Brasil com 142 quilômetros utilizando o whitetopping, técnica que aproveita a camada de asfalto que já existia. O pavimento rígido também é usado em estradas rurais para atender trechos mais curtos onde o tráfego é pesado.
Em painel realizado durante a Concrete Show 2026, Saboia diz que o governo do Paraná zerou o ICMS do cimento para incentivar o uso de concreto nas rodovias do estado. Mas ele alerta que o pavimento rígido não serve para todos os cenários e o que define seu uso é o peso do tráfego na rodovia.
Asfalto ainda deve manter a maior fatia de mercado
Quem não está tão otimista é Paulo Toniate, gerente regional da Zoomlion. Ele não enxerga que o pavimento rígido vá crescer o bastante para influenciar nas vendas do setor de concreto. “Acho que isso foi um investimento do passado, que foi feito, por exemplo, no Rodoanel de São Paulo, mas eu acho que não tem de ser uma tendência pelo custo de manutenção dessas rodovias.” Para ele, a tendência maior é melhorar o que se tem de asfalto.
Rubens Brito, da XCMG, diz que, se a promessa da tecnologia CCRF for viável, o custo de aplicação do pavimento rígido vai cair a ponto de quase empatar com o flexível. Mas isso não quer dizer que o asfalto vai acabar, porque a aplicação do concreto ainda vai depender do caso de uso específico.
“Os dois vão ter que conviver, até porque o betume é um resíduo do refino de petróleo. Então, se a gente mudar tudo para cimento hoje, o que a gente vai fazer com esse resíduo todo? Ah, faz sentido. Então, precisa achar um meio termo econômico para os dois caminharem juntos.”


