*Por Evandro Rodrigues
Por muito tempo, sustentabilidade e expansão geográfica foram tratadas como agendas separadas dentro do mercado imobiliário. Uma dizia respeito ao produto, que materiais usar, que certificações buscar, que selo estampar na fachada. A outra dizia respeito à estratégia, onde construir, em que praça lançar, como driblar a escassez de terrenos nos polos já consolidados. O que temos visto nos últimos meses é que essas duas agendas deixaram de ser paralelas. Elas se tornaram a mesma decisão.
O motivo é simples: quando uma incorporadora decide sair dos polos tradicionais e lançar em uma cidade média, ela não está apenas escolhendo um terreno mais barato. Está escolhendo, também, começar do zero. E começar do zero, num momento em que o comprador já demonstra disposição concreta de pagar mais por soluções sustentáveis, muda completamente a equação do projeto.
Sustentabilidade parou de ser adjetivo
Durante anos, a sustentabilidade em empreendimentos imobiliários foi tratada como um adicional, algo que se incorporava depois, quando o projeto já estava desenhado, como resposta a uma exigência regulatória ou a uma tendência de mercado que parecia distante. Essa lógica não se sustenta mais. Pesquisas recentes mostram que 66% dos compradores estão dispostos a pagar mais por imóveis com energia solar, e 56% fariam o mesmo por sistemas de reuso de água da chuva. Isso significa que sustentabilidade parou de ser um diferencial de marketing e passou a ser um fator direto de valorização e de liquidez do ativo.
Para quem incorpora, essa mudança tem uma consequência prática: soluções sustentáveis inseridas desde a concepção do projeto custam menos e entregam mais do que soluções adaptadas depois. Um empreendimento pensado com eficiência energética e hídrica desde a planta evita retrabalho, reduz custo de obra no médio prazo e chega ao mercado já alinhado com o que o comprador está sinalizando que valoriza.
A geografia do setor está mudando e é uma oportunidade
Ao mesmo tempo, o mapa de onde as incorporadoras estão construindo também está em movimento. A escassez de terrenos e os preços recordes em polos consolidados, o caso mais visível é o de Balneário Camboriú, que já empurra o mercado de alto padrão para cidades vizinhas como Piçarras e Penha, não é um fenômeno isolado. Índices como o IDI Brasil já apontam capitais fora do eixo tradicional, como Curitiba e Goiânia, entre as praças com maior demanda por novos lançamentos residenciais. O protagonismo imobiliário está deixando de ser exclusividade das capitais mais conhecidas.
Essa expansão costuma ser lida apenas como uma resposta à falta de terreno ou de espaço. Mas há uma leitura mais interessante por trás dela: cidades médias e regiões emergentes oferecem justamente o espaço em branco necessário para projetar diferente. É mais fácil construir um empreendimento sustentável do zero, em uma praça nova, do que reformular a lógica de um lançamento em uma região onde os padrões de produto já estão consolidados há anos.
Duas agendas, uma decisão
É por isso que, na prática, a decisão de expandir geograficamente e a decisão de investir em sustentabilidade deixaram de ser dois capítulos separados do planejamento de uma incorporadora. Elas acontecem no mesmo momento, na mesma mesa de decisão: ao escolher um novo terreno, já se avalia disponibilidade hídrica, infraestrutura e viabilidade para soluções sustentáveis. Ao desenhar o projeto, já se parte do princípio de que o comprador vai valorizar e pagar mais por isso.
O mercado imobiliário brasileiro está, aos poucos, deixando de tratar sustentabilidade como custo e expansão geográfica como contingência. As duas coisas, juntas, são hoje uma das formas mais claras de antecipar onde e como o setor vai crescer nos próximos anos.
*Evandro Rodrigues é CEO da BE, A Moradia do Futuro, incorporadora de Maringá.


