O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) está trabalhando em pelo menos dois projetos de uso mais eficiente de água, o Saneamento Ambiental e Reúso de Água (Sara), desenvolvido pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa), e o Água de Beber, elaborado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. As iniciativas de tecnologia nasceram da necessidade de diferentes populações e buscam amenizar o sofrimento de quem vive em locais com escassez de água.
Desenvolvido durante o período crítico da, até então, pior seca vivida pela região do Médio Solimões (AM), em 2023, o projeto Água de Beber nasceu da necessidade dos moradores locais, especialmente os ribeirinhos. “Naquele momento, nós precisávamos pensar em algo que pudesse amparar as famílias e permitisse que, ao menos, elas pudessem ter água em casa”, conta o pesquisador do Mamirauá, João Paulo Borges, que é doutor em saneamento e meio ambiente.
Os especialistas em saneamento do instituto idealizaram um kit que simula uma estação de tratamento de água convencional. Ele é composto de 200 gramas de sulfato de alumínio, o principal agente de tratamento; 100 ml de hipoclorito de sódio, o agente desinfectante; um copo dosador; uma seringa; um tecido para filtrar; e um guia prático e ilustrado de tratamento emergencial.
Projeto trata água de forma emergencial
Como explica o pesquisados, o kit de tratamento emergencial permite tratar até 6 mil litros de água de acordo com as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Essa quantidade garante água potável por mais de 80 dias para uma família de cinco moradores.”
Hoje, o kit é um produto aberto que está disponível para que outras instituições também possam replicá-lo e aplicá-lo durante eventos extremos. “O instituto dá suporte àqueles que têm interesse em aplicar o kit, orientando e supervisionando a montagem e auxiliando no uso”, afirma. “É animador saber que a gente pode contribuir de alguma forma para diminuir a dor das pessoas, para que elas tenham água dentro de casa. É uma tecnologia que nós acreditamos de verdade que pode fazer a diferença.”
Projeto Sara: tecnologia para reúso de água no combate à escassez
Ao contrário da região amazônica, o semiárido, principalmente no Nordeste, convive com escassez de água há anos e a tecnologia pode ajudar a reverter o cenário. A área ainda enfrenta a falta de saneamento, onde cerca de 80% da população rural ainda não tem esgotamento sanitário adequado, segundo a tecnologista em Recursos Hídricos do Insa, Mariana Medeiros.
De acordo com a pesquisadora, o projeto, lançado em 2016, coleta e trata o esgoto doméstico rural gerado nas residências e transforma o que antes era um problema, em uma fonte contínua de água para irrigação das plantações de pequenos produtores. “Com o sistema, aquela água que antes era desperdiçada, ia para uma fossa ou era lançada ao redor das casas e contaminava o solo, ganha um destino muito mais digno, produtivo e eficiente”, afirma Medeiros.
O sistema primeiro passa o esgoto que vem das comunidades por caixas de gordura, para depois entrar em um tanque de equalização, que mistura todas essas águas e ao mesmo tempo retém boa parte dos sólidos que são sedimentáveis e vão para o fundo. De lá, o efluente segue para um reator, onde as próprias bactérias fazem a decomposição da matéria orgânica ali presente.
Na sequência, a água passa pelas lagoas de polimento, que são tanques abertos, onde a radiação solar, temperatura e pH elevados são responsáveis por fazer o decaimento dos microorganismos patogênicos, que são aqueles que podem oferecer riscos à saúde. E, por fim, o resultado de todas essas etapas é uma água tratada.
Impacto na saúde e no desenvolvimento econômico
Ainda de acordo com a especialista, os impactos do sistema são visíveis no meio ambiente, na saúde pública, na segurança hídrica e no desenvolvimento econômico local. “Com o tratamento do esgoto rural de forma adequada, nós eliminamos problemas de contaminação do solo e das águas e, ao mesmo tempo, reduzimos as doenças transmitidas pela água. Além disso, ainda conseguimos dar às famílias uma fonte contínua de água para a irrigação de alimentos que servem para a base alimentar das pessoas e dos animais”, disse a pesquisadora.
Atualmente, o projeto conta com 410 unidades instaladas ou em processo de instalação em nove estados do semiárido, sendo oito da região nordeste e uma no norte de Minas Gerais.
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