Aditivos e RAP mudam a forma de recuperar o pavimento das rodovias

Novos aditivos, avanço das normas e adesão das concessionárias ampliam o uso do fresado, enquanto gestão e controle tecnológico desafiam o setor

Por Redação

em 21 de Setembro de 2026
Foto: Raphael Nunes/EGR

A escala de utilização do material fresado (RAP, na sigla em inglês) para reutilizar o asfalto em recapeamentos de rodovias cresceu nos últimos anos. O fresado deixou de ser visto como aquilo que precisa ser retirado e descartado e passa a ser tratado como matéria-prima para um novo pavimento, muito por causa da química. O avanço das normas, a adesão das concessionárias e a evolução dos contratos de concessão também ajudaram a abrir espaço para o material reciclado.

A mudança tem uma dimensão ambiental importante: reutilizar o pavimento existente reduz a necessidade de novos agregados e de ligante virgem, além do volume de material destinado ao descarte e dos transportes associados à obtenção de novas matérias-primas.

O valor começa na pista

Quando uma rodovia passa por fresagem, uma máquina retira parte do pavimento antigo. Esse material, conhecido como RAP, não precisa virar descarte. Ele pode ser preparado e incorporado a uma nova mistura asfáltica. Mas, para isso, é preciso cuidado desde o momento em que sai da pista. A forma como o RAP é retirado, transportado e armazenado interfere na qualidade do material que chegará à usina.

“Não se pode cortar e armazenar como se fosse lixo. É preciso tirar da pista rapidamente e guardar em local coberto. Quanto mais limpo, melhor o controle e a qualidade do material”, explica o engenheiro Agnaldo Agostinho, gerente técnico da Brasquímica Produtos Asfálticos e especialista em ligantes há mais de 30 anos.

O armazenamento é apenas o começo. Antes de voltar para a estrada, o RAP pode precisar ser processado e separado de acordo com o tamanho de suas partículas. Em alguns casos, o material chega compactado ou em blocos e precisa ser quebrado. Depois, passa por peneiramento para obter diferentes faixas de granulometria.

“Muitas vezes é preciso quebrar o RAP e transformar em granulometrias diferentes para que ele possa entrar na receita do concreto asfáltico. Controlar essas diferentes faixas permite definir quanto de cada uma será utilizado na nova mistura”, relata Agnaldo.

A Norma DNIT 033/2021-ES, que trata do concreto asfáltico reciclado em usina a quente, estabelece procedimentos para o uso e o controle do RAP.

O papel do ligante

Há um componente que exige atenção: o ligante asfáltico. O RAP não é formado apenas pelas pedras e outros agregados. Ele também contém o cimento asfáltico que originalmente unia esses materiais. Com o tempo, esse ligante envelhece e sofre oxidação, alterando suas propriedades. Com o envelhecimento, torna-se mais rígido e frágil e perde parte da capacidade de relaxar as tensões, o que aumenta sua suscetibilidade ao trincamento.

Leonardo Ochoa, da Kao Chemicals México, explica que o envelhecimento do ligante começa nos primeiros ciclos de produção e aplicação e continua com a exposição ao oxigênio, à radiação solar, à umidade e a outros fatores ambientais. O efeito acumulado torna o material mais rígido e frágil, reduz sua capacidade de relaxar tensões e aumenta a suscetibilidade ao trincamento.

É justamente nesse ponto que entram os aditivos rejuvenescedores. Para Ochoa, o rejuvenescedor não deve ser entendido como um simples produto para amolecer o asfalto. O objetivo é recuperar propriedades alteradas pelo envelhecimento e restabelecer o equilíbrio entre rigidez, capacidade de relaxamento e resistência ao trincamento.

Agostinho, da Brasquímica, resume o processo: “É possível reciclar o ligante e transformá-lo em um novo produto. Essa possibilidade está no centro da nova geração de tecnologias para o reaproveitamento do RAP.”

Química sob medida

Quanto rejuvenescedor usar? A resposta depende das características do RAP. Antes de escolher o produto e a dosagem, o ligante precisa ser analisado. A idade é apenas um dos fatores; o estado efetivo do ligante e a formulação da nova mistura orientam o tratamento.

“Não temos um remédio único para todas as doenças. No caso da pavimentação, cada caso é um caso”, ressalta Agnaldo.
A seleção e a dosagem do rejuvenescedor exigem a extração e a análise do ligante oxidado presente no RAP, além de equipamentos laboratoriais específicos, ensaios e profissionais capacitados. Ochoa chama atenção ainda para a necessidade de avaliar o desempenho da mistura reciclada com critérios adequados: estabilidade e fluxo Marshall, tradicionalmente usados para misturas com materiais virgens, não são suficientes. A resistência ao trincamento e a durabilidade no longo prazo precisam ganhar mais peso.

A mesma lógica vale para o percentual de RAP. A decisão depende da caracterização do material, da formulação e das condições de produção.

O rejuvenescimento é apenas uma das aplicações da química na pavimentação. Há aditivos para melhorar a adesividade, modificar o comportamento do ligante em diferentes temperaturas, trabalhar com misturas em temperaturas mais baixas e aumentar a durabilidade. A ideia é adaptar o ligante à necessidade de cada aplicação.

“O que temos de novo em termos de tecnologia é justamente a incorporação de aditivos ao CAP, ou seja, ao ligante que mantém os agregados unidos na mistura, para adequá-lo a cada necessidade”, ressalta Agnaldo. CAP é o cimento asfáltico de petróleo, o ligante que mantém os agregados unidos na mistura.

Quando o calor aperta

As temperaturas elevadas também preocupam quem trabalha com pavimentação. Agnaldo explica que o CAP é termoplástico e, à medida que a temperatura aumenta, ele amolece. Em determinadas condições, isso favorece deformações permanentes na pista, especialmente sob tráfego intenso.

Por isso, a formulação do CAP precisa considerar as condições às quais o pavimento estará submetido. A incorporação de aditivos modificadores altera características do ligante e aumenta sua resistência diante das temperaturas elevadas. Adrian Grasson, gerente técnico da Betunel, chama atenção também para as mudanças nas condições de tráfego e clima. Temperaturas mais altas, cargas maiores e velocidades menores podem favorecer deformações e afundamentos de trilha de roda. Chuvas mais intensas e prolongadas podem manter a estrutura saturada por mais tempo, favorecendo a infiltração de água pelas trincas e o deslocamento de materiais nas camadas inferiores. O aumento do volume de tráfego e das cargas transportadas também pode antecipar a fadiga e reduzir a vida útil do revestimento..

Outra frente está nas misturas mornas, produzidas e compactadas em temperaturas inferiores às das misturas convencionais. A redução da temperatura entra na busca por maior eficiência do processo e menor consumo de energia.

Desempenho e ciclo de vida

A discussão sobre RAP também leva a uma questão maior: como decidir o que fazer com um pavimento ao longo de toda a sua vida útil?

Para Márcia Mello, diretora de Divulgação da Associação Brasileira de Pavimentação (ABPv) e gestora técnico-comercial da Iterchimica Brasil, o setor precisa aproximar pesquisa, normas e aplicação prática, ampliar o controle tecnológico e fortalecer o planejamento de longo prazo. “Essas discussões podem contribuir para uma mudança importante: deixar de tomar decisões baseadas apenas no custo inicial e passar a considerar o desempenho ao longo de toda a vida útil do pavimento.”

Na decisão entre recuperar e reconstruir uma estrada, entram diagnóstico estrutural e funcional, causas das patologias, capacidade de suporte, deformações, drenagem, tráfego, vida útil esperada, custo do ciclo de vida, frequência das intervenções, impacto sobre os usuários, prazo de execução e aspectos ambientais.

Na avaliação da Betunel, alguns sinais indicam que uma intervenção superficial pode não ser suficiente: deformações permanentes, afundamentos em trilha de roda, escorregamentos, trincas de fadiga e, principalmente, a recorrência de defeitos pouco tempo depois de uma intervenção. O diagnóstico de campo, combinado aos levantamentos e ao histórico do pavimento, ajuda a definir se a solução deve ser superficial ou estrutural.

“Uma recuperação superficial aplicada sobre um problema estrutural pode apenas adiar uma intervenção inevitável. O ponto central é simples: RAP e aditivos fazem parte da solução, mas o desempenho do pavimento depende do conjunto”, afirma Márcia.

Na avaliação de Grasson, olhar apenas o preço inicial também pode esconder custos que recaem sobre o usuário e sobre a operação da rodovia, como aumento do tempo de viagem, desvios, mobilização de equipes e equipamentos, transporte de novos materiais, consumo de energia e risco de retrabalho. A deterioração do pavimento também não ocorre de forma linear: quanto mais avançado o processo, mais rápida tende a ser a perda de condição.

Tecnologia existe, mas gestão é o desafio

O Brasil não parte do zero. Tem tecnologia, pesquisa, normas, empresas desenvolvendo soluções e experiências práticas. O desafio está em transformar esse conhecimento em uma prática mais sistemática. “O Brasil tem tecnologia. O que falta é gestão”, destaca Agostinho, da Brasquímica. Ele defende legislação mais específica, incentivos e a incorporação da reciclagem de pavimentos à política ambiental brasileira.

A quantidade de RAP que pode ser incorporada também depende da disponibilidade do material, das condições de processamento e da estrutura da usina. Equipamentos e sistemas de produção precisam estar preparados para receber, processar, armazenar e dosar o material.

Brasil ainda tem longo caminho

Na Europa, a reutilização e a reciclagem do asfalto já fazem parte da rotina do setor. Dados recentes da EAPA mostram que, entre os países que forneceram informações completas, 97% do asfalto recuperado teve algum tipo de reutilização ou reciclagem em 2024.

Mas o Brasil ainda tem bastante espaço para crescer, como aponta Taís Sachet, engenheira civil, mestre em Infraestrutura e Meio Ambiente e doutora em Infraestrutura de Transportes pela Escola Politécnica da USP. Sua pesquisa de doutorado estudou materiais com incorporação de fresado. Ela aponta ainda a evolução das normas do DNIT, a adesão das concessionárias e os contratos de concessão como fatores que ajudam a acelerar esse aprendizado.

“Ainda temos bastante para caminhar, mudar a cultura e entender que o material fresado é algo muito valioso em vários aspectos, incluindo o econômico e o ambiental”, afirma. “Considero que o Brasil está no meio da curva de aprendizado”, diz Taís.

Paving Expo deve estender discussões

Esta semana, entre os dias 22 a 24 de setembro de 2026, a cidade de São Paulo vai sediar a 9ª edição da Paving Expo no Distrito Anhembi. O evento vai contar com duas palestras que abordam diretamente o uso do material fresado:

  • O painel “Gerência de Pavimentos – Uma visão dos Setores Público e Privado”, dedicado à gestão dos pavimentos e à pressão por desempenho nos contratos de concessão e que vai contar com participação da engenheira civil Taís Sachet.
  • O painel “Conexões em Pavimentação: Experiências, Aprendizados e Inovações”, dedicado a experiências práticas, pesquisa e novas tecnologias, que vai contar com a participação de Márcia Mello, da ABPv e da Iterchimica Brasil.

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