O Lote 5 do Leilão de Transmissão nº 01/2027, marcado para 30 de abril de 2027, prevê a adoção de sistema de armazenamento de energia por baterias (BESS, na sigla em inglês). Será o primeiro sistema do tipo contratado por meio de um leilão de transmissão do Sistema Interligado Nacional (SIN), ampliando o papel da tecnologia no planejamento da infraestrutura elétrica brasileira. Para Matheus Teixeira, COO da VOLTXS Energia, a iniciativa demonstra uma mudança importante na forma como o armazenamento por baterias passa a ser visto pelo setor elétrico.
Ele diz que o sistema de armazenamento em baterias está deixando de ser visto apenas como uma ferramenta de gestão energética para o consumidor e passa a integrar também soluções voltadas à confiabilidade da infraestrutura de transmissão do Brasil. “Esse movimento demonstra como a tecnologia pode assumir diferentes funções e ganhar relevância na transformação do setor elétrico nos próximos anos.”
Leia mais
Ação pode trazer mais investimentos em BESS
Na avaliação do executivo, o projeto previsto no leilão também pode abrir caminho para uma nova geração de investimentos em armazenamento de energia no País. Isso porque incorporar um sistema BESS ao planejamento da transmissão sinaliza um amadurecimento importante do setor elétrico brasileiro.
“O armazenamento deixa de ser tratado apenas como uma tecnologia complementar e passa a ocupar espaço em projetos estratégicos de infraestrutura. Esse movimento tende a acelerar novos investimentos e ampliar as aplicações dessa tecnologia, contribuindo para uma rede mais resiliente, flexível e preparada para a expansão das fontes renováveis”, complementa Teixeira.
O que o leilão vai exigir para adotar armazenamento de energia por baterias?
A contratação do projeto veio da recomendação da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para aumentar a confiabilidade do fornecimento de energia elétrica em Cruzeiro do Sul e Feijó, no Acre. O estudo técnico propõe a implantação de um sistema de 100 MW/200 MWh, equipado com tecnologia grid-forming, aliado à expansão da infraestrutura de transmissão em 230 kV.
Além de armazenar energia, o empreendimento utilizará conversores grid-forming, tecnologia capaz de atuar como formadora de rede e contribuir diretamente para a estabilidade do sistema elétrico. Diferentemente dos inversores convencionais, que dependem de uma rede previamente estabilizada para operar, os equipamentos grid-forming conseguem estabelecer referências de tensão e frequência, oferecendo resposta praticamente instantânea em situações de contingência.
Na prática, isso permitirá que o sistema combine a energia armazenada nas baterias com serviços de estabilização da rede, resposta rápida a falhas e suporte à operação do sistema elétrico, aumentando a confiabilidade do fornecimento em uma região que ainda apresenta limitações estruturais.
O projeto prevê a instalação do BESS na Subestação Cruzeiro do Sul, conectado ao setor de 69 kV, com capacidade para operar durante duas horas em potência máxima. O contrato terá duração de 18 anos, prazo compatível com a vida útil das baterias, e a implantação deverá ocorrer em até 36 meses após sua assinatura.
Por que o sistema será utilizado no Acre?
A adoção da tecnologia responde às características do sistema elétrico da região. Embora Cruzeiro do Sul e Feijó tenham sido recentemente integrados ao SIN, o subsistema ainda opera sob critério N, sem redundância suficiente para suportar determinadas contingências na infraestrutura de transmissão. Segundo a EPE, para o horizonte conjuntural, o BESS apresentou a melhor relação técnico-econômica para ampliar a confiabilidade do atendimento.
Paralelamente, o planejamento de longo prazo prevê reforços estruturais da transmissão por meio da construção de novos circuitos em 230 kV entre Tucumã, Feijó e Cruzeiro do Sul. O Lote 4 do mesmo leilão contempla uma nova linha de transmissão entre Tucumã e Feijó, com aproximadamente 376 quilômetros, além da implantação do segundo circuito entre Feijó e Cruzeiro do Sul, com cerca de 255 quilômetros. Parte da expansão utilizará estruturas de circuito duplo já existentes, reduzindo impactos ambientais e riscos de implantação.
A combinação entre o sistema de armazenamento e as novas linhas de transmissão evidencia uma mudança importante no planejamento da infraestrutura elétrica brasileira. Em vez de substituir a expansão da rede, o BESS passa a atuar como uma solução complementar, aumentando a flexibilidade operacional e a capacidade de resposta diante de falhas ou oscilações no sistema.


