Mineração do futuro mira novas tecnologias no Chile

Buscando protagonismo global, mineração chilena aposta em tecnologias digitais por mais mercado na transição energética

Por Rodrigo Conceição Santos

em 22 de Agosto de 2025
Mina de Los los Bronces, da Anglo American. Foto de Divulgação Anglo American

O Banco Mundial estima que o consumo de cobre vai aumentar 60% e o de lítio 90% até 2050. A demanda está no contexto da transição energética, com a previsão de que mais eletricidade deverá ser distribuída por cabos de cobre e mais lítio será usado para baterias de armazenamento de energia em veículos e dispositivos eletrônicos, como smartphones e elementos vestíveis. Sobre essa projeção, o Chile – maior produtor de cobre do mundo e um dos mais promissores extratores de lítio – busca o seu protagonismo.

“Esse protagonismo é estratégico não só para a economia chilena, mas também para a transição energética global”, resumiu Roberta Valença, presidenta da Câmara Chilena e Norte Americana de Comércio (Amcham-Cl). Para alcançá-lo, contudo, é necessária uma corrida tecnológica, que envolve automação e digitalização, com destaque para a inteligência artificial. “A mineração do futuro será cada vez mais autônoma, digitalizada e segura”, afirmou a executiva.

mineração Chile

Vice-Presidente da Amcham-Cl, Roberta Valença.

Roberta e outros especialistas trataram do tema em meados de agosto, em Santiago, durante o encontro Mining Summit, organizado pela Amcham-Cl e pela empresa estadunidense Honeywell.

José Simon, vice-presidente e gerente geral de Automação Industrial da Honeywell para a América Latina, avaliou que o uso de inteligência artificial nas operações de mineração ajuda a equilibrar a extração de recursos com a proteção ambiental. “A mineração do futuro, portanto, deve avançar para soluções quase ou totalmente autônomas, com controle de emissões, visibilidade completa das operações e o suporte de tecnologias como cibersegurança, inteligência artificial e internet das coisas”, disse.

Soluções digitais para processos complexos

Hoje, mais de 45% da produção global de cobre do mundo utiliza sistemas de controle desenvolvidos pela Honeywell, incluindo grandes mineradoras como BHP, Vale, Rio Tinto e a estatal chilena Codelco, segundo Simon. “Ao todo, são mais de 500 processos minerais controlados pelas nossas tecnologias”, detalhou

Alexandre Groschitz, gerente geral da Honeywell Process Solutions no Brasil, resumiu que a automação ocorre para resolver algumas questões de modularidade, como no caso de reduzir consumo indesejado e ampliar produtividade.

Na liderança da aplicação de sistemas de automação nas indústrias brasileiras, Groschitz pontuou ao InfraROI que a maturidade tecnológica das minerações chilenas e brasileiras são semelhantes, com pontualidades. “Atendemos segmentos como óleo e gás, químico, petroquímico e mineração, além de papel e celulose, terminais de combustível e farmacêutico”, explicou.

O foco da Honeywell, completou ele, está em processos industriais que envolvem transformações de matérias primas em produtos acabados. Isso envolve reações químicas, uso de energia e controle de variáveis como temperatura, calor e pressão. “Enfim, esse é o nosso ‘habitat natural’: processos produtivos complexos”, resumiu.

No caso da mineração – assim como de outros processos industriais em áreas distantes dos grandes centros – as questões de conectividade não são mais um limitador tecnológico, na visão de Groschitz. “Nesse caso, o desafio está mais ligado à capacidade financeira para instalar equipamentos (leia-se redes de telecomunicações). Muitas mineradoras, por exemplo, estão em áreas remotas, com dificuldades logísticas, de eletrificação e de acesso à rede”, disse.

Em outras palavras, ele avaliou que as tecnologias necessárias para sistemas de automação estão disponíveis e, em quase todos os cenários, são financeiramente viáveis para retornos de investimento em prazo satisfatório. “Em muitos casos, os próprios clientes criam suas redes privadas de telecomunicações para suportar aplicações mais avançadas”, completou.

mineração Chile

De cinzeiros a suvenirs, o cobre está no dia a dia dos chilenos.

Ainda no que diz respeito à conectividade, o especialista da Honeywell frisou que a utilização de redes de telecomunicações 4G ou 5G é importante, e não necessariamente um fator limitador para projetos de automação na mineração. “O que pode acontecer é utilizarmos padrões mais antigos em alguns ambientes industriais que ainda não estejam hiperconectados, principalmente em locais que têm requisitos regulatórios e de segurança muito específicos”, disse.

Quando se fala de mobilidade – uso de celulares, wearables (elementos vestíveis), como capacetes com visor, ou acesso remoto a dados – aí sim a infraestrutura de conectividade é diferencial. “Mas a operação de uma planta mineral em si não depende exclusivamente disso. O que muda é o nível de eficiência, agilidade e suporte que se consegue alcançar com padrões de conectividade mais altos”, completou.

Nas minerações que já estão hiperconectadas com redes 4G ou 5G, a Honeywell já acumula casos de automação em alto nível, como a gestão de veículos pesados autônomos (caminhões e equipamentos off road). “São equipamentos caros e críticos para a operação. Hoje, conseguimos monitorá-los em tempo real, aplicando regras de manutenção preditiva e outras que evitam falhas operacionais e ampliam produtividade”, revelou.

Questionado sobre as limitações relativas a protocolos de comunicação dos fabricantes desses equipamentos (cada marca tem o seu próprio protocolo), Groschitz disse que este não é mais um grande limitador para a gestão remota de ativos de lavra. Em alguns casos, segundo ele, os clientes mineradores conseguem a abertura dos protocolos junto aos fabricantes. Em outros, a Honeywell desenvolve protocolos específicos para cada uso, sempre no intuito de integrar os dados em plataformas únicas para os clientes.

As soluções tecnológicas da Honeywell para prover automação em operações minerais não se limitam à etapa de extração. Também estão presentes no transporte, processamento e beneficiamento do minério. Com isso, a empresa demonstra estar em linha com os objetivos macro desse mercado, que busca elevar a qualidade e produtividade, conforme pontuaram palestrantes do Mining Summit, em Santiago. “Em 2027 o Chile pode fornecer 27% do cobre do mundo. Para isso, precisamos avançar com uma agenda mais robusta de inovação, tecnologia e sustentabilidade”, confirmou Roberta Valença, da Amcham-Cl.

Avanços digitais na Codelco e Anglo American

Como caso de sucesso nessa linha, a Anglo American demonstrou a sua operação em tempo real na mina de cobre e molibdênio de Los Bronces, a cerca de 65 quilômetros de Santiago. Com um centro remoto que reúne mais de 700 câmeras e 32 estações de trabalho, a automatização de processos caminha em conjunto com evoluções na sustentabilidade. 

Victoria Madrid-Salvador, gerente de operações integradas da Anglo American no Chile, revelou que, a partir de 2026, por exemplo, esse nível de evolução permitirá à companhia adotar o uso de água dessalinizada tanto em suas operações quanto para suprir parte da água utilizada pelas comunidades locais. Esse avanço faz parte de um plano anunciado em 2022 pela Anglo American para reduzir a captação de água potável em 50%, até 2030, em regiões com escassez, como Los Bronces.

A estatal Codelco também aposta na digitalização e desenvolveu para esta vertical quatro pilares estratégicos: (1) Liderança corporativa; (2) Desenvolvimento e experiência das pessoas; (3) Automação e instrumentação para captura de dados críticos em toda a cadeia de valor; e (4) Alianças tecnológicas.

Segundo José Ramón Abatte, gerente corporativo de tecnologia e digitalização da empresa, o centro integrado de operações é o eixo dessa estratégia, pois conecta processos e gera ganhos em segurança, produtividade e confiabilidade. “Com isso, a expectativa é que a aplicação de IA aumente a produtividade entre 5% e 15%”, disse.

Parte disso está em curso. A Codelco já utiliza recursos de vídeo analytics para mapear riscos e retirar profissionais de áreas de exposição, por exemplo. 

Na manutenção preditiva, a IA apoia diagnósticos e amplia a eficiência e, de acordo com Abatte, o modelo operacional integrado permite decisões baseadas em dados, com impacto direto nas rotinas produtivas. “O objetivo não é apenas elevar a produtividade, mas agregar valor em segurança, confiabilidade e sistemas operacionais”, disse.

IA e mão de obra

O evento também contou com a participação da Microsoft. O caso da Codelco, na visão da empresa de tecnologia, não é trivial. Segundo a diretora de soluções comerciais da Microsoft na América Latina, apenas 5% das mineradoras globais utilizam dados estratégicos para o que ela classifica como mineração inteligente e segura. “O trabalho humano já atingiu seus limites. A mineração precisa de agentes digitais (agentes de IA) que atuem junto com pessoas para transformar a produtividade”, defendeu.

Nessa linha, a empresa estima que, até 2035, a IA vai movimentar um mercado de US$ 300 bilhões na mineração mundial e, segundo Paula, quem não acompanhar esse movimento tende a perder espaço no curto prazo.

Paula citou casos como o da Anglo American, que reduziu tempos de incorporação e riscos com a plataforma Passport 360, e da Suncor Energy, que cortou em 95% alarmes em operação com o software Honeywell Forge. Para ela, esses são exemplos de que o uso de IA já está transformando operações.

A avaliação da Microsoft é uma das respostas para o cenário de falta de mão de obra disposta a trabalhar na mineração. De acordo com os especialistas do Mining Summit em Santiago, o setor enfrenta dificuldades para atrair talentos. Isso porque os jovens não têm demonstrado interesse em trabalhar em áreas inóspitas e distantes dos grandes centros.

Segundo Roberta Valença, da Amcham-Cl, até 2032, somente no Chile a mineração precisará de 34 mil novos técnicos e profissionais em digitalização, IA, manutenção inteligente e infraestrutura 4.0. “Isso se alinha ao contexto de que 75% dos empregadores dizem que têm escassez de talentos no mundo”, disse. Para ela, esta é mais uma demonstração de que a mineração do futuro ainda está sendo construída e tende a ser mais tecnológica, com automação, digitalização e segurança.

 

* O InfraROI viajou a Santiago a convite da Honeywell.

    Os assuntos mais relevantes diretamente no seu e-mail

    Increva-se na nossa newsletter e receba nossos conteúdos semanalemnte

    Aceito receber a newsletter por email