As mudanças climáticas estão alterando o regime de chuvas no Brasil, como apontam estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A redução das vazões médias nos subsistemas Sudeste, Norte e Nordeste, regiões que concentram grande parte da capacidade de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN), indicam a necessidade de pensar em outras opções para a geração de energia elétrica. Modelos que surgem são as usinas reversíveis, ativos estratégicos que podem reverter a água usada nos reservatórios.
Na prática, reservatórios funcionam como baterias para o setor elétrico, já que a água armazenada é usada para gerar energia conforme a demanda. A ideia por trás das usinas reversíveis é reutilizar esse recurso ao enviar de volta a água para o reservatório.
Thiago Prado, diretor da EPE, diz que o Brasil mantém potencial hidrelétrico relevante e estratégico, mas os eventos climáticos recentes mostram que o planejamento precisa incorporar cenários mais extremos. Ele participou de painel realizado na 9ª Conferência Nacional de PCHs e CGHs, realizada em Foz do Iguaçu (PR) no final de fevereiro, pela Associação Brasileira de PCHs e CGHs (ABRAPCH).
Falta de vontade política travava usinas reversíveis
O Brasil, apesar de todo o seu potencial hidrológico, ainda não possui nenhuma usina reversível, tanto por falta de projetos que contemplem esse modelo, como porque faltava regulamentação para implementação de reversíveis. No entanto, é um cenário que deve mudar em breve. Pois além de que já há empreendedores planejando estes projetos, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) acabou de soltar a Resolução ANA 286/2026, publicada no último dia 10 de fevereiro que, entre outras coisas, regulamenta as usinas reversíveis no Brasil.
Patrick Thomas, diretor da Agência, garantiu durante a sua fala no painel que as usinas reversíveis serão outorgadas sem grandes dificuldades. E que as regras para outorga terão arranjos semelhantes ao de outros tipos de usinas. A intenção é tornar o sistema elétrico brasileiro mais resiliente às mudanças climáticas, pois os reservatórios de água podem ajudar não somente nas grandes estiagens, mas também a controlar a vazão dos rios nas enchentes.
O diretor do Ministério de Minas e Energia (MME), Victor Protázio, reforçou a necessidade de adaptação do sistema às novas realidades climáticas. “Flexibilidade operativa será cada vez mais necessária diante das incertezas hidrológicas”.
Concessões elétricas vencendo.
Hidrelétricas garantem segurança do SIN
O debate também se conecta às concessões hidrelétricas que vencem nos próximos anos (cerca de 16 GW em contratos que expiram no horizonte de seis anos). Esse cenário abre espaço para modernização, repotenciação e até implantação de usinas reversíveis, que ampliam a capacidade de armazenamento.
Para além do setor elétrico, a discussão envolve segurança hídrica, planejamento climático e desenvolvimento regional. Em um país cuja matriz elétrica ainda depende majoritariamente da água, adaptar reservatórios às novas condições climáticas pode ser decisivo para evitar novas crises energéticas.


