A redução das emissões no transporte rodoviário se tornou um dos principais desafios da transição energética brasileira. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), o setor de transportes responde por 22,8% das emissões de CO₂ do país, sendo 89,9% desse volume proveniente do modal rodoviário e de fontes móveis. O dado ajuda a dimensionar a importância de buscar maior eficiência energética e combustíveis alternativos ao diesel em um modal que concentra grande parte da movimentação de cargas no país.
Diante desse cenário, transportadoras começam a testar alternativas ao diesel. As iniciativas mais comuns envolvem diferentes tipos de gases, sendo o gás natural veicular (GNV) e o biometano as mais adotadas. A escolha, porém, depende de fatores como distância percorrida, peso da carga, autonomia, infraestrutura para abastecimento ou recarga, manutenção e custo total da operação, variando de acordo com a estratégia de cada empresa.
Do ponto de vista ambiental, as alternativas apresentam características diferentes. O GNV de origem fóssil pode reduzir emissões em comparação ao diesel em determinadas condições, enquanto o biometano apresenta potencial significativamente maior de descarbonização por ser produzido a partir de fontes renováveis. Já os veículos elétricos não apresentam emissões pelo escapamento, mas seu impacto total depende também da origem da eletricidade e do ciclo de vida da tecnologia.
West Cargo aposta no GNV e no elétrico
A West Cargo iniciou esse processo em 2025, com a incorporação de caminhões movidos a GNV e elétrico. Desde então, os modelos são acompanhados por telemetria para comparação de consumo, custo e desempenho com a frota a diesel. A experiência prática com as duas tecnologias permitiu à empresa avaliar diferenças de aplicação antes de ampliar os investimentos.
Os testes mostraram aplicações distintas. O caminhão elétrico apresenta maior aderência a rotas curtas e previsíveis, com retorno à filial e possibilidade de controlar a recarga. Já o GNV tem se mostrado mais adequado para trajetos regionais e corredores onde existe infraestrutura de abastecimento.
Na avaliação da empresa, o GNV é hoje a alternativa com maior perspectiva de expansão em parte das operações, especialmente nos deslocamentos entre aeroportos. A ampliação dessa frota deverá acompanhar os resultados operacionais e a evolução da infraestrutura disponível.
Em 2025, o programa economizou mais de 210 toneladas de CO₂. O resultado é compatível com fatores de emissão utilizados em estudos do transporte rodoviário, para cada litro de diesel consumido na combustão. Nos últimos 12 meses, mais de R$ 565 mil foram distribuídos aos motoristas por desempenho nessa modalidade.
40% da frota da Reiter Log usa combustíveis alternativos
Em 2021, a Reiter Log adquiriu 124 caminhões movidos a gás (GNV ou biometano) e, atualmente, mais de 40% dos veículos da frota Reiter já operam com fontes renováveis. Com o novo lote de caminhões do tipo contratado em setembro de 2026, a Reiter Log deverá superar 600 veículos sustentáveis somando todos os modelos de sua frota em operação até o final do ano, se aproximando da meta de 100% de caminhões a combustíveis alternativos até 2035.
O objetivo da transportadora é transformar a sustentabilidade em uma solução operacional capaz de atender às metas ambientais dos embarcadores sem abrir mão de eficiência, produtividade e escala. Para acompanhar esse incremento, a empresa investe também na infraestrutura necessária para viabilizar operações de longa distância com combustíveis alternativos. A Reiter possui nove pontos próprios de abastecimento, chamados de pit stops. A estrutura permite realizar operações com veículos a gás conectando o Rio Grande do Sul, onde fica a matriz, a estados como Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Rio de Janeiro.
A companhia ainda testa um cavalo mecânico elétrico da Scania desde agosto passado. Adquirido pela empresa durante a Fenatran 2024, o caminhão oferece zero emissão de CO2 e baixo custo operacional. O Scania 30 G tem autonomia de aproximadamente 250 km, versão cavalo mecânico 4×2 com 300 kw de potência (410cv) e capacidade máxima de tração (CMT) de 66t. Além destas características, o modelo tem um carregador que suporta até 375kW e 500 A, e capacidade de estar com carga total em aproximadamente 50 minutos. Ele está na terceira geração Scania de BEV (veículo elétrico a bateria).

Frota a gás adquirida pela Reiter Log este ano (foto: divulgação).
Grupo SADA forma parceria para descarbonizar transporte
Já o Grupo SADA apostou em uma parceria com as empresas Energia Livre Cemig, Gasmig, e Logás para implantar um modelo de transporte rodoviário de cargas com baixa emissão de carbono. O projeto integra 21 caminhões movidos a GNV do Grupo SADA com uma infraestrutura de abastecimento por gasoduto da Logás suprida pela Gasmig. Já a Energia Livre Cemig entra com o fornecimento de energia elétrica renovável e certificada para garantir as operações de todas essa estrutura.
A solução reduz emissões não apenas na utilização dos veículos, mas também nos processos de compressão e abastecimento do combustível, ampliando os ganhos ambientais em toda a cadeia logística. Outro diferencial é que o abastecimento do posto ocorre por meio de gasoduto, eliminando a necessidade de transporte do combustível por caminhões-tanque e reduzindo ainda mais a pegada de carbono da operação.

Grupo SADA aposta em parcerias para diminuir emissões do transporte (foto: divulgação).
TransJordano tem projeto ambicioso de Corredor Verde
Quem apostou mais alto na descarbonização foi a TransJordano, que inaugurou recentemente seu Corredor Verde, um trecho logístico de 450 quilômetros no estado de São Paulo que liga Ribeirão Preto a Cubatão com caminhões movidos a biometano. A empresa iniciou o projeto com 10 caminhões Scania 6×4 e pretende chegar a 100 veículos até o final deste ano.
A empresa aposta em três pontos de abastecimento com biometano, que será oferecido pela Ultragaz. O primeiro deles já foi inaugurado em Sumaré, com previsão para a abertura do segundo em Ribeirão em novembro e o de Cubatão até dezembro. Com autonomia de até 700 quilômetros descarregado, os caminhões poderão atender cidades em um raio de até 350 quilômetros a partir de cada ponto de abastecimento, levando o alcance operacional do projeto a cerca de 1.150 quilômetros.
Um diferencial do projeto é que os pontos de abastecimento serão abertos para outras transportadoras, ampliando o acesso ao biometano e contribuindo para a criação de uma estrutura capaz de estimular a adoção do combustível por outras operações do setor. A falta de infraestrutura é hoje um dos principais obstáculos para ampliar a utilização do biometano nas operações de transporte.

João Bessa, presidente da TransJordano, corta a fita de inauguração do primeiro ponto de abastecimento de biometano da transportadora (foto: divulgação).


