O mercado brasileiro de construção civil vem de um período de crescimento modesto, mas enfrenta um momento de transição em 2025. Após avançar 4,1% em 2024, a previsão da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) é de que o setor cresça 2,3%, refletindo uma desaceleração do ritmo. No entanto, na comparação anual, o setor ainda mantém dinamismo: o PIB da construção cresceu 3,4 % no primeiro trimestre de 2025 frente ao mesmo período de 2024, apesar da queda de 0,8 % em relação ao trimestre imediatamente anterior.
Os desafios atuais para manter o crescimento não são poucos. O setor enfrenta problemas na disponibilidade de mão de obra e precisa passar por uma atualização de processos com a tecnologia ao mesmo tempo em que busca formas de ser mais sustentável. Confira a seguir as principais tendências de construção civil em 2025.
Tecnologia na construção civil em 2025
A principal tendência tecnológica do setor continua sendo o Building Information Modeling (BIM), que permite criar modelos digitais detalhados que trazem informações sobre materiais, custos e cronogramas de uma obra. Por ser digital, ele permite que os envolvidos no projeto (arquitetos, engenheiros, empreiteiros e clientes) colaborem em cima do mesmo documento, reduzindo retrabalho e conflitos entre disciplinas.
Quando combinado com inteligência artificial, o BIM também consegue detectar antecipadamente interferências entre sistemas (clash detection), como uma tubulação que atravessa uma viga, evitando correções caras durante a obra. Dessa forma, é possível ter maior precisão, diminuindo desperdício de materiais e ajustes de última hora, com maior controle de custos e de prazos.
A IA também pode ajudar em outros desafios da construção. Por exemplo, na segurança do trabalho, ao analisar dados de sensores de internet das coisas (IoT) para identificar riscos como movimentações inesperadas de solo e presença de gases tóxicos, gerando alertas em tempo real às equipes de segurança. Em outra frente, ela pode reduzir em até 25% os custos operacionais em grandes projetos, ao antecipar pontos críticos de uma obra e otimizar a alocação de recursos, segundo a consultoria Deloitte.
Tendências de métodos construtivos
Fugindo da construção tradicional, os métodos de construção PPMOF (Pré-fabricação, Pré-montagem, Modularização e Fabricação Offsite, em tradução livre da sigla em inglês) surgem como uma forma de de melhorar o desempenho de projetos. O mercado global de construção pré-fabricada é avaliado em US$ 129 bilhões, com previsão de crescimento de 7,1% até 2026, segundo o Global Market Insights.
Em artigo, a Deloitte define o PPMOF da seguinte forma:
- Pré-fabricação (P): um processo de fabricação, geralmente realizado em uma instalação especializada, no qual diferentes materiais são unidos para formar uma parte integrante de uma instalação final. É uma prática comum na maioria dos projetos industriais hoje;
- Pré-montagem (P): um processo pelo qual vários materiais, componentes pré-fabricados e/ou equipamentos são conectados em um local remoto para depois serem instalados como uma subunidade. Geralmente é focado em um sistema e também é uma prática comum na maioria dos projetos industriais hoje;
- Modularização (M): uma seção principal de uma planta resultante de uma série de operações de montagem remota que pode incluir diversas partes de muitos sistemas, sendo geralmente a maior unidade transportável ou componente de uma instalação;
- Fabricação Offsite (OF): uma prática de pré-montagem ou fabricação de componentes tanto fora do local quanto no local em uma localização diferente do ponto final de instalação.
Ainda segundo a Deloitte, uma das principais vantagens na aplicação desses métodos é a redução de custos nos projetos, que podem representar uma economia de até 10% nos gastos gerais e de 25% nos custos com a mão de obra, segundo um estudo do Construction Industry Institute (CII).
Além dos conceitos do PPMOF, também há o pré-moldado, que é a produção de elementos construtivos pela moldagem do concreto em uma fôrma, geralmente reutilizável. Fabricados em usinas especializadas, dentro ou fora de uma obra, os pré-moldados permitem maior agilidade na construção e a redução de desperdícios, já que a peça terá a dimensão exata da sua necessidade.
Sustentabilidade na construção civil
A construção civil é responsável por cerca de 39% das emissões globais de CO₂ relacionadas à energia e aos processos industriais, sendo 28% provenientes do uso de energia em edificações (aquecimento, resfriamento e iluminação) e 11% do carbono embutido nos materiais e na própria construção. Como resposta, o setor tem adotado diferentes iniciativas para reduzir sua pegada de carbono.
O uso de concreto reciclado, tijolos ecológicos, materiais compostos biodegradáveis e madeira certificada, são algumas das ações que construtoras têm buscado. Isso reforça a implementação de práticas de economia circular que priorizam a reutilização, reciclagem e recuperação de materiais ao longo de todo o ciclo de vida das edificações, diminuindo o volume de resíduos e o consumo de recursos naturais.
Surge também um maior interesse por projetos autossustentáveis após sua construção. Empreendimentos podem ser projetados para gerar ao menos a mesma quantidade de energia que consomem (Zero‑Energy Buildings) a partir da energia solar ou eólica. Também é possível integrar sistemas de captação de água da chuva, tratamento e reúso de águas cinzas e filtragem para usos não potáveis.
Os desafios com a mão de obra para construção civil em 2025
Atualmente, o número de trabalhadores com carteira assinada na construção civil chega a 2.992.877 pessoas, segundo levantamento da CBIC. A perspectiva é de que o setor chegue à marca de 3 milhões de trabalhadores ainda este ano, mas a contratação ainda é um desafio para o setor.
“A Sondagem da Construção”, pesquisa realizada pelo FGV-Ibre, apontou que 71,2% dos empregadores do setor da construção civil declararam ter tido dificuldades em contratar trabalhadores qualificados entre junho de 2023 e junho de 2024, e 39% afirmaram ter “muita dificuldade”. O cenário se agrava diante da rápida evolução das habilidades exigidas, especialmente nas áreas digitais e interpessoais.
Para Fabio Cassab, sócio da EXEC, consultoria especializada na contratação e desenvolvimento de altos executivos e conselheiros, a construção civil tem como desafio a capacitação e a inovação técnica, que tem dificuldade em acompanhar lado a lado o avanço das tecnologias como visto em outros segmentos. “A construção civil no Brasil ainda é um setor que segue processos e modelos de trabalho que se repetem há anos, da mesma forma.” Por isso, as tendências citadas neste texto podem ser fundamentais para auxiliar o setor a enfrentar os desafios.


