Canteiro de Obras avança na digitalização

 Hilton Menezes (*) – 17.09.2020 –

Com um cenário desafiador pela frente no pós-pandemia, a tecnologia passe a ser uma das

principais ferramentas das construtoras, principalmente na hora de oferecer imóveis com

plantas mais flexíveis que comportem novos formatos de trabalho e de mobilidade nas

grandes cidades do mundo

Cimento, areia, ferro e muita mão-de-obra. Esse tem sido o coração do setor de construção civil no mundo há anos. Muito embora já tenha sentido os efeitos da engenharia financeira nas últimas duas décadas, a indústria ainda não fincou o pé, de vez, na nova fronteira do conhecimento global: a tecnologia.

Um estudo feito pela consultoria McKinsey , realizado em 2015, deu o tom. A indústria da construção civil é o segundo pior setor, quando o assunto é solução digital. Ou seja, se as companhias sabem como poucos otimizar um canteiro de obras, incorporar financiamentos engenhosos e atrair o cliente com plantas flexíveis, o mesmo não se pode dizer na hora de conectar a tecnologia ao centro do negócio.

Mas nem tudo está perdido. Muito pelo contrário. As ConstruTechs já chegaram e cada vez mais começam a tomar corpo no setor. São novas empresas, muitas vezes ligadas à tradicionais grupos da construção civil, mas que estão preocupadas com o desenvolvimento de novos materiais, serviços, soluções, com um olhar até de urbanização em direção ao entorno onde está localizado o empreendimento. Enfim, é um novo jeito de encarar um negócio que é responsável por dar força às economias de qualquer país.

Em 2015 tive a oportunidade de acompanhar de perto um projeto com um cliente, uma empresa sediada em Belém (PA), para pensar e desenhar a inovação voltada para o setor de construção civil. Esse trabalho de consultoria de inovação entregou resultados desde o mapeamento do ecossistema da empresa, passando pela criação de laboratórios de inovação internos para finalmente implantar processos inovativos que desencadearam a criação de dois serviços que ofertam inteligência, gestão de obras e produtividade. O case comprova que é possível transformar velhos modelos com benefícios de alta capilaridade.

No entanto, enfrentamos barreiras ainda muito solidificadas no setor que é muito tradicionalista mundialmente. Podemos elencar características como: cadeia produtiva altamente fragmentada que inibe a liderança transformadora; baixo nível de treinamento somado à escassez de soft skills necessárias na execução de papéis e funções estratégicas; baixa colaboração entre construtores e fornecedores que reduz potencial de ganhos múltiplos; investimento insatisfatório em processos e gestão. No Brasil, especificamente, não podemos esquecer da baixa qualidade dos projetos, excesso de regulamentações e altíssima carga tributária.

A inovação está disponível, mas o setor, que ocupa espaço relevante na economia nacional, resiste a incorporar processos novos de produção para finalmente entrar e deslanchar no século 21. De acordo com a pesquisa realizada pela PwC Brasil , a inovação foi considerada uma força de transformação e os investimentos em tecnologia praticamente dobraram nos últimos anos, porém, o setor ainda é muito relutante ao aplicá-los.

Tecnologias como Machine Learning, Impressão 3D, robótica, Realidade Virtual, IoT, BIM e tantas outras estão cada vez mais presentes nos canteiros de obras pelo mundo. Em artigo publicado no Diário de Pernambuco , Daniel Almeida, que atua na plataforma de geração de startups do CESAR, o histórico de baixos investimentos em inovação é agravado pela falta de políticas adequadas de desenvolvimento tecnológico e por cortes na área de pesquisa. Ele afirma que a resistência à adoção de novas tecnologia também está relacionada ao fator alto investimento e ciclo produtivo longo. No pior cenário avaliado, – quando uma obra pode levar até 10 anos para ser concluída – os custos de implementação de novas tecnologias e o desconhecimento sobre os seus resultados econômicos e operacionais são inibidores de inovação digital.

Felizmente, a transformação digital se faz mandatória – muito acelerada pela crise mundial em decorrência da pandemia de covid-19 -, e já enxergamos um movimento de grandes empresas, construtoras tradicionais e também incorporadoras em direção à construção 4.0. Iniciativas como o MitHub – lançada pela Cyrela em 2018 e destinada a fomentar o empreendedorismo no mercado imobiliário e na construção civil – e, mais recentemente, o NextFloor , plataforma de inovação que estabelece canal direto com empreendedores e startups. Além destas, programas de inovação aberta estão impulsionando o caldeirão de soluções para a construção civil, tais como o Vetor AG, da Andrade Gutierrez; labs e hubs de inovação criados a partir de parcerias, como o OKARA Hub da Engeform, o HousinPact da ArcelorMittal e o LAB da MARV também em Minas Gerais… Todas iniciativas que reforçam o objetivo de fomentar inovação e empreendedorismo no setor, unindo empresas, organizações, empreendedores e centros de conhecimento e tecnologia.

Temos um amplo mercado e muito espaço para desenvolver projetos inovadores para o setor e com alta demanda em regiões como Norte e Nordeste. Com movimentos identificados que começam a ser percebidos pelo mercado, acendem o alerta de investidoras e articuladoras de parcerias e ativação do ecossistema de inovação voltado à construção civil para finalmente romper as barreiras culturais e aproximar de fato as construtoras das soluções e tecnologias disponíveis. As parcerias e oportunidades já existem e queremos apoiar o mercado de construção civil em seu processo de transformação real – ainda que digitalmente.

*Hilton Menezes é fundador e CEO da Kyvo.

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