Carro elétrico sozinho não resolve mobilidade urbana

Por Nelson Valêncio – 30.08.2017 –

Para Clarice Linke, diretora da ONG ITDP Brasil, planejamento precisa envolver vários atores e não pode ser deixado somente nas mãos da indústria automobilística

Clarisse Linke

Países europeus como Alemanha e França estão praticamente decretando o fim da fabricação de veículos movidos a combustíveis fósseis e implantando a adoção paulatina de carros elétricos. A mesma pegada de fabricação de automóveis com baterias de íons de lítio tem sido apregoada por montadoras como a Volvo. O problema para grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro é que isso não resolve os desafios de mobilidade urbana. Clarice Linke, da ONG ITDP Brasil, vê outras saídas, incluindo a ativação de projetos de moradias com apelo social em regiões centrais e a adoção de redes de compartilhamento de bicicletas elétricas em cidades com topografia mais complexa.

A palavra de ordem para a especialista, que participou ontem do Ciclo Mobilidade: Marco Regulatório, PPP e Concessões, promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP) e pela Arq. Futuro, é integração, com adoção de opções que privilegiem os outros modais de transporte e até mesmo a caminhada como alternativa nas etapas de primeira e última milha, ou seja, os trechos – de até 1 km, por exemplo, que separam o trabalho da estação mais próxima de metrô ou trem. “É preciso regulação”, diz ela, enfatizando que os dados coletados por vários projetos de compartilhamento de carros, de veículos autônomos e outras iniciativas devem ser acessados pelos governos para amplificar as mudanças.

“Um carro compartilhado pode tirar das ruas até 12 carros usados individualmente”, destaca Clarice, lembrando que a combinação com veículos elétricos e autônomos pode favorecer ainda mais as cidades. “Porém os modais eficientes envolvem o transporte público. É preciso entender como funciona esse mosaico e integrar as várias formas de mobilidade”, argumenta. Ela defende a participação da iniciativa privada, mas lembra que é necessário ter regras claras e planejamento.

Dois casos estão entre os exemplos que precisam ser aperfeiçoados. Um deles é o da estação King Cross, de Londres, repassada para a iniciativa privada. Parte do entorno da estação está sendo controlada, inclusive com segurança, de forma privada, embora seja uma área pública, com restrição de entrada. Para Clarice, que morou em Londres e conheceu a estação antes do projeto atual, muita coisa mudou positivamente, porém é o poder público não pode perder a mão na fiscalização e regulação do espaço. Outro caso mais recente e nem sequer iniciado é o do plano estratégico do Rio de Janeiro que, segundo ela, não incorpora informações do Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), etapa de projeto de PPPs, para os estacionamentos na cidade.

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