Como a má formação das cidades influencia nos estragos da chuva

Denis Cossia (*) – 05.03.2020 –

Todo o País assistiu aos estragos causados pelo impacto das chuvas nas grandes cidades brasileiras. Mas, apesar de muitos acharem que esses estragos são culpa da chuva, isso tem forte influência na ocupação das margens dos rios e do concreto que formam as cidades. Os eventos climáticos acabam ganhando uma força ainda maior quando incidem em áreas que deveriam ser preservadas ou que já estão desgastadas. Essa questão, muito além da arquitetura e do urbanismo, abraça um fator social inseparável.

Diante disso, é preciso formar uma linha do tempo para entender o que acontece. Não estamos em um momento irreparável da urbanização brasileira e podemos sim minimizar os danos.

Os lusitanos, nossos colonizadores, tinham o costume de ocupar o topo de um local sempre próximo a algum rio ou alguma fonte de água potável. Com o previsível crescimento da população, das habitações e dos comércios, as águas acabavam se tornando um depósito de lixo a céu aberto. Isso também aconteceu no Brasil. A existência dos rios como depósitos de lixos é totalmente equivocado, pois cidades e águas que as circundam devem seguir em perfeita harmonia.

A água, quando não tem para onde ir, destrói tudo que encontra pela frente. É a força da natureza. Nenhuma interferência humana pode impedi-la, mas é capaz de minimizá-la. No Brasil, o Código Florestal estabelece normas que visam a proteção das florestas e das águas a partir da criação de Áreas de Preservação Permanente (APPs). A cobertura florestal é fundamental e está lá para absorver e permitir o escoamento saudável das águas para os rios. Isso evita que a água da chuva provoque inundações, mas quando essa cobertura é desrespeitada, provoca estragos.

Aqui, o fator social se torna a peça chave: grande parte da população de renda baixa acabou ocupando APPs de forma irregular e assim foram criadas as maiores comunidades do País.

Nesse mesmo sentido de “contribuição” para os desastres, faltam áreas ajardinadas nas casas. Veja bem: quando você transforma qualquer terreno em área impermeável, além do que é permitido por lei, você está contribuindo para essa “explosão”. Isso ocorre quando chuvas torrenciais aumentam o volume de água nesses locais e aceleram a sua chegada aos rios, fazendo-os transbordar.

Soluções
Levando em consideração os pontos citados, uma das formas de evitar prejuízos financeiros e de perdas de vidas, é a não ocupação dessas APPs, o que exige uma reflexão: como funcionam as políticas públicas federais para o direcionamento das pessoas que vivem em áreas de riscos? Como é a fiscalização dessas áreas? Como o governo se torna conivente com isso, já que a previsibilidade de tragédias sempre existiu?

Então, em um panorama ideal, a operação mais eficiente é de “segurar” a água. Isso pode ocorrer de diversas formas: a partir da construção de bacias de contenção e jardins de chuva, pisos e vias permeáveis, aumento de áreas de infiltração nas residências e na cidade. Resoluções que devem ser apontadas pelo Poder Público, seja Federal, Estadual ou Municipal.

* Denis Cossia, é arquiteto urbanista formado pela USP e foi pesquisador pelo laboratório Quapá. Trabalhou com desenvolvimento de parques e praças em São Paulo. É fundador da Construtech InstaCasa, que atua no mercado de loteamentos. Também é fundador da fintech Glebba Investimentos e da Construtech Concessus.

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