Como será a próxima inauguração da BR-163?

Rodrigo Conceição Santos – 06.03.2020 –

No final de 2014 fui de São Paulo a Cuiabá e depois embarquei em um ATR da Azul para Rondonópolis. O trecho foi tenso, sob tempestade e turbulência constante. Esse stress me fez esquecer a recém-adquirida biografia do Noel Rosa – 3ª edição de No tempo de Noel Rosa, escrita pelo Almirante e editada pela Sonora – no compartimento do avião. Péssima notícia, porque precisaria dela para suportar a volta. Sim, teria a volta.

Saí da aeronave, passei pelo pequeno saguão e vi, a um corredor de distância, a porta de saída. Acendi o cigarro, como Noel, acalmei a adrenalina, como Almirante, e observei os demais passageiros encontrando os familiares e seguindo para o estacionamento logo à frente. Eles todos se dispersaram em minutos e fiquei sozinho na porta do saguão. Sem sinal do motorista que combinou de me levar até o canteiro de obras. Tentei telefonar: sem sinal de celular. Vi um orelhão: sem cartão para usar. Apareceu um taxista e, oportunista como tal, me ofereceu uma corrida que não pude negar.

Começou assim a minha reportagem sobre o trecho 1 das obras da BR-163 (850 km). Escrevia para a Revista M&T naquele momento. No canteiro, o gerente de equipamentos e o diretor de contratos foram bons anfitriões e avançamos com as entrevistas e visitas aos trechos da obra.

Descobri ali a história da BR-163, conhecida como a Rota da Integração, dado o fato de que nos anos 1970 os Irmãos Villas-Bôas fizeram a primeira integração entre os indígenas da tribo Kreen-akarore, descendentes dos Caiapós, com os então chamados “homens brancos”. Vi trechos de asfalto pronto em pista duplicada. Vi outros de base, de sub-base prontos. Vi terraplanagens iniciando e um monte de outras coisas. Numerei que aquela obra usaria 567 equipamentos pesados, comprados ou locados por um montante de R$ 50 milhões.

Tinha até simulador de operações de escavadeiras. Eu cheguei a brincar nele. Entendi também que os investimentos totais chegariam a R$ 5,5 bilhões, sendo que R$ 2,8 bilhões deveriam ser desembolsados até 2019. A Concessionária, formada pela Odebrecht e a japonesa Mitsui, teria o direito sobre a via por 30 anos, recuperando o investimento com a cobrança de pedágio.

Rondonópolis era o eixo da obra e efervescia como cidade. Um projeto desse porte alocava praticamente toda a mão de obra de construção disponível e ainda migrava trabalhadores de outras cidades e estados. Havia um ecossistema funcionando para a obra e os expoentes disso foram duas pedreiras criadas exclusivamente para atender a demanda de brita para produção de asfalto. Eu também as vi funcionando.

Equipamentos de última linha foram importados da Alemanha e os comércios locais cresciam para atender as necessidades dos trabalhadores da rodovia. Estive no centro da cidade um pouco antes de partir e pude verificar isso de perto. A Margarida (nome fictício), dona de uma papelaria, me ajudou a entender o contexto. Estive por lá procurando algum livro para substituir a frustração de perder o do Noel Rosa e me fazer companhia do meio da tarde às 19h00 (hora do meu voo de volta à Cuiabá). Achei uma edição de bolso de A Arte de Escrever, do Shopenhauer. No caixa, dona Margarida me perguntou sobre o autor. Conversamos um pouco e ela me disse que havia mais livros numa ala nova da papelaria. “Expandimos recentemente”, revelou. Eu fui até lá e vi que realmente era um local novo, ainda com acabamentos de pintura por fazer. Ela disse depois que, na verdade, havia começado o empreendimento com livros há poucos dias e fazia isso devido ao aumento do fluxo de clientes.

Comprei também Os Escravos, de Castro Alves, da mesma coleção de bolso. “Me joguei num taxi”, como diz o meu amigo Augusto Diniz, e fui para o aeroporto esperar feliz das 16h00 em diante.

Voltei à Cuiabá e depois à São Paulo. Entreguei a reportagem, que foi a primeira da mídia a sair com os detalhes da obra e dos investimentos. Ela pode ser revisitada neste link: https://issuu.com/sobratema/docs/mt_187.

Meses depois, recebi a notícia de que o ritmo das obras estava reduzido, dadas as investigações da Lava Jato sobre a Odebrecht. A construtora afirmava que os serviços continuavam e que não tinham envolvimento com as suspeitas de corrupção. A Lava Jato não explicava o tamanho do prejuízo causado por suas ações. Em 2017, o Senado Federal publicou comunicado demonstrando a preocupação com a paralisia das obras, contrapondo as retóricas de ambas (veja aqui).

Hoje, ao que consta, as obras avançam. As mídias locais relatam que mais de 80% delas estão concluídas e que a data de término foi postergada para 2021. Se assim ocorrer, veremos quando e quantas inaugurações serão feitas. Veremos ainda se esses eventos serão mais uma tentativa de imposição de um “marco civilizatório” da gestão atual, como ocorreu com o relativamente pequeno trecho de 51 km inaugurados em outro lote de obras da BR-163, entre o Mato Grosso e o Pará, agora em fevereiro de 2020. Se assim for, fica desde já a referência aos Villas-Bôas, às pedreiras, à dona Margarida, aos equipamentos alemães e a tudo mais que há poucos anos, repito, eu vi.

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