PIB da construção civil pode crescer 4% em 2021

Antonio Serrano – 18.02.2021 –

Construção civil fecha 2020 com crescimento de mais de 20% em relação ao pré-Covid. Para esse ano, expectativa considera vários fatores.  

O ano de 2020 começou com grandes expectativas para a Construção Civil, é verdade. Não por menos: o setor vinha de um contexto de cinco anos de retração, entre 2014 e 2018, passando por um ano de 2019 com baixo crescimento. Em poucos meses, no entanto, veio a pandemia e, como muitos setores, a Construção Civil sofreu forte impacto no volume de vendas.

Em abril, a Juntos Somos Mais , uma joint venture entre Votorantim Cimentos, Tigre e Gerdau e atuação no varejo de material de construção, identificou uma queda de atividade de cerca de 15% quando comparado ao período pré pandemia. As boas expectativas para o ano foram completamente desfeitas quando uma pesquisa com indústrias do setor apontou que apenas 11% acreditavam em um faturamento em 2020 superior a 2019. A grande maioria (56%) entendeu que haveria queda entre 10% e 30%.

Apesar do pessimismo, aprender a superar crises está no DNA do setor que é muito resiliente e encara os desafios de forma criativa. Essa postura, frente às duras demandas advindas da pandemia, fez com que o varejo de material de construção se reinventasse rapidamente, já mostrando em maio um desempenho 8% superior ao período pré-Covid segundo a Juntos Somos Mais. Em junho, o Índice Cielo do Varejo Ampliado apontava o varejo de materiais de construção como o setor com o maior crescimento versus o período pré-Covid. O setor seguiu acelerando e o indicador de atividade da Juntos Somos Mais registrou desempenho quase 30% superior ao período pré-Covid no terceiro trimestre de 2020, acima de 40% nos meses de outubro e novembro, fechando o ano com mais de 20% de crescimento.

Mas afinal, o que levou o setor a atingir esse patamar de destaque em um ano em que o PIB do Brasil deve cair cerca de 4,5%? Podemos resumir os principais fatores em 3: (i) lojas de material de construção foram consideradas essenciais e ficaram abertas durante a maior parte da pandemia, (ii) demanda reprimida e mudança de preferência em relação à casa e (iii) reação da política econômica com auxílio emergencial e redução taxa de juros.

O varejo de material de construção foi amplamente reconhecido pelas autoridades como fundamental e garantiu acesso a itens para reparos e construções emergenciais tanto para instituições de saúde como hospitais, clínicas, bancos de sangue, indústrias alimentícias, supermercados e farmácias quanto para a população como um todo.

No entanto, ficar aberto não seria motivo suficiente para o crescimento se não tivesse havido também uma mudança no comportamento do consumidor que, com o isolamento social, passou a ficar mais tempo em casa e ressignificou sua relação com seu próprio lar. Pesquisa da LEK mostrou consumidores classificando “pequenas reformas” como importantes (não supérfluo). Varanda, vista livre e ambientes mais bem divididos passaram a ser fatores importantes ou muito importantes para esse consumidor pós-pandêmico, segundo o Grupo Zap. O número de pessoas dispostas a mudar de casa para usufruir dessas características é 4 vezes maior do que no período pré-pandemia, como mostra a pesquisa do Upwork com 20 mil pessoas nos EUA.

A redução da taxa de juros básica para o menor patamar histórico de 2% ao ano resultou em uma redução da taxa média de financiamento imobiliário de 15,6% em 2016 para 7,6% em 2020, com impactos no valor do parcelamento de imóveis que pode superar 30%. Dados de vendas de imóveis da ABRAINC de setembro apontam crescimento de 20% no acumulado de 2020. Financiamento de imóveis a 52% de crescimento no acumulado até novembro segundo a ABECIP. O índice de confiança da construção atingiu níveis que não se via desde 2014 e houve 7 lançamentos iniciais de ações (IPOs) de construtoras em 2020, algo que não ocorria desde 2009.

O auxílio emergencial também teve um papel importante no setor. A Juntos Somos Mais concluiu em um estudo de correlações entre dados internos e externos, e mostrou que o auxílio emergencial foi responsável por 75% do crescimento do varejo de material de construção.

O ano de 2020 terminou, portanto, positivo para a construção civil como um todo. Uma pesquisa realizada em dezembro com indústrias do setor apontou que 89% acreditavam terminar o ano com crescimento no faturamento. E o que podemos esperar de 2021?

Apesar de ainda muitas incertezas, como o impacto na demanda de obras e reformas com o fim do auxílio emergencial, o nível de emprego que impacta especialmente o varejo da construção e o desempenho da macro economia que impacta principalmente as expectativas futuras de investimentos em imóveis, nossa expectativa é de um ano positivo para o varejo do setor e crescimento do PIB da construção civil de 4%.

Quando perguntadas em dezembro, 100% das indústrias pesquisadas previam aumento de faturamento em 2021, sendo que 67% esperam crescimento acima de 10%. A mudança de comportamento do consumidor que já iniciou sua obra ou recém comprou seu imóvel e precisará reformar em breve, as taxas de juros que devem permanecer baixas, o marco legal do saneamento básico e o lançamento da Casa Verde e Amarela, que prevê a regularização fundiária de 2 milhões de casas até 2024 funcionarão como combustíveis de estímulo à demanda.

A pandemia trouxe grandes desafios, mas os percalços pavimentaram um porvir promissor para o setor da construção. Devemos estar preparados para diversos cenários, claro, mas é fato que trabalharemos para que a Construção Civil contribua como nunca para o crescimento do Brasil em 2021.

Antonio Serrano é CEO da Juntos Somos Mais e trabalhou por dez anos na consultoria de estratégia Bain & Co e também na Votorantim Cimentos.

 

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