Por que testar a rede é importante para as operadoras de telecom?

Nelson Valêncio – 30.04.2019 –

A norte-americana Viavi Solutions define-se, oficialmente, como atuante em dois negócios principais: a ativação de rede e serviços e a segurança e desempenho ópticos. No Brasil, ela é player importante em ambos, mas podemos simplificar essa atuação ao ver a rede física como alicerce para todos os serviços que estão na mente das operadoras. Sem uma rede física bem instalada e bem testada, alguma coisa vai dar errado. Nessa entrevista, Marcelo Bragança, diretor de Vendas para o Brasil e para a região Sul da América Latina, fala de vários assuntos, inclusive do mercado de provedores regionais, um dos segmentos novos da companhia, que já possui uma tradição entre as grandes operadoras de telecomunicações. 

Bragança: Viavi diversificou atuação

InfraROI – Por que testar a rede continua sendo importante em telecomunicações?

Marcelo Bragança (MB): Para as operadoras não adianta ter soluções de serviços baseados em softwares se a rede física, que é o alicerce, não for bem construída. Daí a tendência em investir em equipamentos de teste portáveis, cujo uso impacta diretamente na operação, no desempenho das redes. Uma rede bem feita e bem testada leva à economia de custos operacionais (opex), facilita o lançamento de novos produtos e impacta na qualidade do serviço atual. Do lado dos fabricantes de soluções de teste, a tendência é de produtos que se adaptem melhor ao mercado e que sejam personalizados para os clientes, com um hardware único e upgrades realizados via software.

InfraROI – Isso inclui os chamados provedores regionais?

MB: Sim. Para eles uma das soluções são equipamentos que conseguem comparar o range dinâmico nas redes ópticas passivas em gigabit (GPON) menos complexos do que os usados pelas grandes operadoras. O upgrade do equipamento, com novas funcionalidades, vai sendo feito via software e à medida que esses provedores expandem sua rede. O foco para eles são equipamentos com facilidade de operação. O carro chefe é o OTDR com funcionalidades que ajudem o técnico de campo a interpretar a rede e identificar problemas. É preciso entender as demandas dos provedores e oferecer a personalização, ou seja, o que eles precisam no momento e ter canais de vendas e facilidade de pagamento. Também entram no escopo o reparo e a calibração dos equipamentos no Brasil, com venda e suporte local em português.

InfraROI – O know how de vocês não ficou restrito à captura de dados?

MB: Não. Atuamos no monitoramento de rede em vários segmentos e agregamos conhecimento em cima da captura de dados, correlacionando informações. Monitorar é estar envolvido em todas as fases de uma rede, no momento de desenho da rede, na leitura da infraestrutura instalada, na previsão de crescimento, na medição prévia do impacto da entrada de novo serviço e na qualidade atual da rede. A informação não fica limitada à área de engenharia. Outros departamentos, como o de marketing, por exemplo, podem utilizá-las.

InfraROI – Dê um exemplo disso, por favor.

MB: Uma operadora, a partir das nossas informações pode buscar informações de geolocalização e conseguir identificar – sem identificar o cliente – o perfil de uso dele,  e correlacionar comportamentos como o tipo de conta, dispositivo usado etc. É possível saber onde os dispositivos móveis da marca X em determinada hora do dia e outros dados. E alimentar os departamentos de marketing e de inteligência de mercado, permitindo a personalização de ofertas.

InfraROI – E em termos de dispositivos de teste?

MB: Hoje temos soluções que permitem extrair resultados do equipamento de campo e manda-los para a nuvem. O gestor das equipes de campo consegue ter estatísticas de desempenho em tempo real para agilizar as medidas de correção. E ele sabe quantos testes foram realizados por dia, as falhas mais comuns etc. O processo de emissão de ordens de serviço também foi agilizado. Os técnicos conseguem recebe-las direto na tela de alguns de nossos equipamentos. Antes eles recebiam nos smartphones de trabalho. Os dispositivos de teste portáteis substituíram os smartphones e reduziram a burocracia, pois é possível finalizar as ordens de serviço direto no equipamento. O gestor pode avaliar o tempo de deslocamento médio para a área dos testes, o volume de ordens de serviço por dia e outras informações.

InfraROI – Há também mais inteligência no processo?

MB: Exato. O equipamento pode, com base nos dados e campo reais, armazenados na nuvem, ajudar o técnico na interpretação dos testes, evitando avaliações errada. O dispositivo faz a interpretação da causa raiz do problema, automatizando o teste e aumentando a efetividade do processo. A atualização de recursos pode ser feita com acesso à nuvem, uniformizando os scripts de teste, o que garante uma padronização e facilita as comparações.

InfraROI – O perfil dos técnicos mudou?

MB: Mudou e temos profissionais multitarefa, que conseguem atuar na rede externa fixa de fibra óptica, mas também podem identificar problemas de banda móvel no cliente final. Mas, por outro lado, ele não pode andar com quatro ou cinco equipamentos, daí a necessidade de desenvolver dispositivos flexíveis.

InfraROI – A Viavi também mudou…

MB: Éramos uma empresa mais voltada para as operadoras, mas de cinco anos para cá, estamos diversificando, lançando novos produtos. No Brasil somos líder de mercado nas operadoras, temos entrado no mercado de provedores, muito bem posicionados em testes para FTTH e GPON. Lançamos há três anos uma solução automatizada para busca de interferência de celular, o que agiliza e facilita bastante a ativação e operação de redes, principalmente com a ativação de outros serviços na banda de 700 MHz. O feedback das empresas foi muito positivo, indicando que o tempo de identificação das interferências passou de meses para um dia.

InfraROI – E em relação aos serviços?

MB: Há várias alternativas. As operadoras, contratadas e provedores podem comprar a solução e eles mesmos executarem o processo ou podemos entregar a solução como serviço em várias modalidades. Alguns preferem contratar a capacitação dos técnicos ou somente a medição. A solução como serviço envolve a ativação de probes e a entrega dos resultados. Um outro modelo envolve a contratação de especialistas da Viavi para consultoria.

InfraROI – Vimos recentemente a contratação da Keysight pela Telefônica em nível global na área de testes de rede. Como vocês interpretam isso?

MB: A Keysight é competidora da Viavi para um segmento, enquanto atendemos uma série de verticais e a totalidade de uma rede para planejamento, instalação e operação. Existe uma diretriz global da Telefônica no caso desse contrato, mas as operações regionais têm autonomia. A Keysight tem soluções de nicho que atende alguns pontos da rede. Existem outros players como a Cisco, que tem soluções que trabalham na coleta de informação por meio dos equipamentos que ela instala. Algumas operadoras, por outro lado, preferem soluções agnósticas e não se limitam aos dados que o dispositivo entrega, porque podem perder um pouco os parâmetros de medição.

InfraROI – Por estarem na ponta da rede, vocês conseguem também inferir as tendências de investimento das operadoras. Poderia nos falar a respeito?

MB: Há iniciativas de implantação de fibra em todos os lugares. Todas as operadoras estão investindo para trazer maior capacidade ao cliente, que demanda mais serviços de banda larga. Outra tendência é trazer o conteúdo mais próximo do assinante, para um hub de distribuição, o que demanda investir em redes de transporte. É necessária uma descentralização da rede e também uma maior virtualização e temos soluções de medição para avaliar a eficiência dessa descentralização. A virtualização também acontece – na medida do possível – nos testes.

InfraROI – Outra tendência é a ativação dos serviços de Internet das Coisas (IoT), o que também leva a uma preocupação com fraudes. Como vocês podem contribuir nessa área?

MB: No caso de IoT, diretamente com nossas soluções de teste de campo. O número de dispositivos de rede vai aumentar exponencialmente, mas nem todos precisam de baixa latência, por exemplo. Podemos ajudar a classificar os grupos em função da demanda e contribuir para que as operadoras garantam a entrega de serviços correta. É possível medir 24 x 7 as demandas para cada grupo. Em relação às fraudes, podemos contribuir, ajudando a ter uma ideia do ataque, em função da mudança nas características da rede. Temos soluções especificas que elevam o monitoramento para a camada de aplicação, diferenciando uma mudança da rede causada, por exemplo, pela viralização de um vídeo, de um ataque.

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Podcast

    Redação InfraDigital – 20.10.2021 – Pesquisa aponta que 88% dos bancos investiram em UX em 2019, de olho em novas experiências 

    O início da pandemia de covid-19 interrompeu a digitalização do mercado financeiro no Brasil, aumentando em 17% a circulação do dinheiro em espécie no País. O índice foi resultado da entrada do auxílio emergencial de R$ 600 (que chegava a R$ 1200 para famílias chefiadas por mães solo) e por pessoas que guardaram o dinheiro em casa por segurança. No entanto, a praticidade que os meios digitais de pagamento, como o Pix, trazem podem mudar essa realidade. 

    No último podcast da segunda temporada de “O Futuro do Dinheiro”, especialistas do mercado discutiram as mudanças que o setor financeiro tem passado. Fabiano Sabatini, especialista em IoT da Intel, lembrou da pesquisa Digital Banking Report, da consultoria Infosys, que aponta que 88% dos bancos aumentaram o investimento em tecnologia para gerar uma melhor experiência ao cliente. 

    Esse investimento se reflete, por exemplo, na adoção do open banking, como lembra Matheus Marcondes Neto, especialista da Diebold Nixdorf. Além de citar diversos exemplos de tecnologia, ele destacou a simplificação que isso geral ao segmento financeiro, permitindo que clientes possam integrar seus dados entre diferentes serviços bancários para obter melhores soluções. 

    Outro exemplo da digitalização é a integração entre os ambientes físicos e digitais, que já acontece hoje. Aplicativos de diferentes bancos já mostram onde o cliente pode encontrar caixas eletrônicos que atendem a marca e até começar o processo de saque pelo smartphone, como melhor explica Neto no episódio do podcast. 

    O desafio está não só em apresentar melhores experiências, mas também garantir a segurança nos processos sem que isso se torne um incômodo. Sabatini explica que, por isso, os caixas eletrônicos podem contar com tecnologia Intel para garantir a otimização da criptografia. Funciona de forma parecida com o WhatsApp: ele criptografa os dados do cliente ao sair da máquina de autoatendimento até entrar na rede do banco da pessoa. Segundo Neto, da Diebold Nixdorf, isso garante que o cartão não seja clonado, por exemplo. 

    Confira o episódio completo: