Especial Retroescavadeiras: “Retros” só no nome

Por Rodrigo Conceição Santos (originalmente na Revista Brasil Construção)

Desempenho de vendas superior ao da linha amarela e aumento das vendas para o agronegócio mostram como a retroescavadeira continua sendo preferência nacional.

O mercado de equipamentos da linha amarela teve uma queda significativa entre 2013 e 2017. O volume anual vendido passou de 33 mil para 8 mil unidades/ano, o que significa uma redução de 70%. No nicho de retroescavadeiras, a redução foi de 58%, atingindo a comercialização de 2,1 mil unidades no ano passado. Os números mostram uma realidade do mercado brasileiro: as retroescavadeiras “sofreram” menos que o mercado geral de equipamentos para movimentação de terra e hoje representam mais de 25% dessa indústria.

Na dúvida, o brasileiro opta pela retroescavadeira em função de características como a versatilidade e capacidade de locomoção própria nas cidades. Também há o outro lado da moeda. A aplicação desses equipamentos em processos onde outros seriam mais produtivos, como acontece na Europa e Estados Unidos, é um contrassenso. Em função das características peculiares do uso das retroescavadeiras e pelas dúvidas do mercado, a Revista Brasil Construção vem mostrar o porquê, como e até quando a retroescavadeira continuará sendo a preferência nacional.

Até hoje não há dúvida da liderança do equipamento na linha amarela. Além das maiores vendas, o parque fabril de retroescavadeiras está superequipado. Gabriel Freitas, especialista de marketing de produto para retroescavadeira e minicarregadeira da Case na América Latina, estima que a capacidade de produção instalada esteja entre 6 e 8 mil unidades ao ano. Isso corresponde à quase totalidade das máquinas da linha amarela (todas as linhas) vendidas em 2017.

Líder de vendas no ano passado, a fabricante comercializou 571 retroescavadeiras, segundo Freitas. O volume, apesar de baixo diante o potencial do mercado, foi 8% superior ao de 2016 para a marca. Lembrando que o mercado geral de equipamentos teve retração de 3%, fica fácil compreender porque Freitas e sua equipe comemoram.

Para 2018, a projeção geral do mercado é boa. O estudo de tendência da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema) estima crescimento de 5% para retroescavadeiras e de 8% para toda a linha amarela. A Case compartilha da estimativa, pontuando que as vendas de retros, como são popularmente chamadas, devem crescer menos que de outras linhas.

Retros versus minis
Freitas explica que as minicarregadeiras e miniescavadeiras, cujas vendas foram as mais afetadas durante a crise em decorrência da variação cambial, estão com demanda represada e devem ter uma retomada maior agora que o câmbio está estabilizado. A Case, como a maioria dos fabricantes de compactos, importa esses modelos.

Para a Randon, outro player importante do mercado, a retomada dos compactos pode ter uma outra dimensão. Atenta ao fato de que as minicarregadeiras e miniescavadeiras ganham mercado das retroescavadeiras no mundo desenvolvido já há alguns anos, a empresa começou a fabricar minicarregadeiras no Brasil no ano passado e assume que esse é um projeto para o futuro próximo.

Atualmente, a Randon é a única que fabrica minicarregadeiras no Brasil e tem isso como estratégia para sair na frente junto a clientes que estejam substituindo as retroescavadeiras pelas máquinas compactas. A empresa iniciou a produção em 2017, acirrando também a competitividade com seus concorrentes. Afinal, ao fabricar nacionalmente as máquinas na categoria de levante de 680 a 795 kg (peso total de 750 kg), ela pôde vender com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES-Finame). Mais importante ainda: a iniciativa obriga as demais fabricantes a pagar o imposto de importação, pois agora há um equipamento similar sendo fabricado localmente.

“As retroescavadeiras tendem a ser substituídas por minicarregadeiras e miniescavadeiras no mundo todo. No Brasil, no entanto, as retros ainda são determinantes pela capacidade de executar vários trabalhos com apenas um equipamento e um operador, além de poder locomover-se pela cidade”, diz Eduardo Dalla Nora, diretor de vendas internacionais da Randon Implementos e Veículos. “A nossa entrada na linha de minicarregadeiras – algo que levou três anos de desenvolvimento – é uma estratégia futura para atender a essa demanda por compactos, tanto no Brasil como no mundo”, salienta ele.

No ano passado, a fabricante comercializou 270 retroescavadeiras, com 55% delas absorvidas pelo mercado local. O restante abasteceu principalmente a América Latina. O resultado do segmento, segundo Dalla Nora, foi melhor que o de 2016, em grande parte pelas exportações. “Mesmo assim, sabemos que esse volume está muito aquém do que a indústria brasileira é capaz de produzir”, diz o executivo.

Roberto Marques, diretor de vendas da divisão de construção e florestal da John Deere, avalia que a competitividade entre retroescavadeiras e os compactos tem explicação multifatorial. Primeiro ele confirma que a ausência de financiamento competitivo (Finame) – pelo fato dos compactos serem, em sua maioria, importados – é um dos motivos da preferência nacional pelas retroescavadeiras. “Ainda há fabricantes que comercializam compactos no Brasil, mas restringiram-se às aplicações onde as dimensões dos equipamentos são determinantes, como espaços confinados e subsolos de edificações”, diz ele.

“Por motivos como preço, manutenção e desempenho, as retroescavadeiras são uma melhor opção. Para o futuro, caso o cenário cambial confirme queda do dólar, é possível imaginar que voltaremos a ter um nicho de mercado onde os equipamentos compactos serão mais vantajosos ao cliente”, complementa.

A JCB também acredita no potencial do mercado de retroescavadeiras, apesar de ser conservadora quanto ao crescimento esperado para 2018. Para Ricardo Franceschini Nery, gerente de produtos responsável por retroescavadeiras, manipuladores telescópicos e equipamentos compactos da marca, o país deve consumir o mesmo volume de 2016 neste ano. Ou, em outras palavras, deve crescer 3% sobre 2017. “Mas essa é a nossa projeção para todo o mercado da linha amarela. Se pegarmos o extrato das retroescavadeiras nos últimos anos, perceberemos que as suas vendas vêm caindo proporcionalmente. Por isso não esperamos crescimento para essa linha de produto. Ou, se ele houver, será menor do que o do mercado geral”, diz.

Segundo o especialista, as escavadeiras e pás carregadeiras estão ganhando participação de mercado das retroescavadeiras quando se avalia os compilados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) na última década. “Isso é curioso, pois difere do movimento mundial, no qual as retroescavadeiras são substituídas por compactos”, lembra. “Algo que talvez explique esse movimento é que realmente precisamos de infraestrutura e por isso os equipamentos maiores são mais necessários neste momento”, completa.

É o fim da 4×2?
Mesmo entre os modelos de retroescavadeiras há adaptações que as demandas do mercado imprimem. Os equipamentos com tração somente em duas rodas (4×2), que há pouco mais de 30 anos eram os únicos presentes no mercado, hoje são minoria. “Não há possibilidade de descontinuar a 4×2, mesmo com a queda na demanda, pois ela continua sendo essencial em várias aplicações e até mesmo compondo especificações de licitações”, defende a Caterpillar.

Nery, da JCB, lembra que “quem dita a regra é o cliente” e que a maioria das operações de retroescavadeira acontece em escavação (e não carregamento), o que não exigiria a tração nas quatro rodas em grande parte dos terrenos.

O especialista lembra, no entanto, que a diferença no valor de aquisição – inferior a 5% –  tem levado os clientes a optarem pela 4×4. Além de mais diversificado, esse modelo possui melhor valor de revenda. A representatividade das 4×2 nas vendas da fabricante no ano passado confirmam a assertiva de Nery: corresponderam a menos de 10%.

A proporção foi ainda menor na Case, com a marca vendendo apenas 29 unidades 4×2 entre novembro e janeiro de 2017. O volume representou 1,5% do total de 1953 retroescavadeiras comercializadas pela empresa nos mesmos 11 meses. “Hoje, as traçadas em duas rodas são vendidas a um pequeno grupo de compradores, que conhecem o terreno onde operam e sabem da não necessidade de tração nas quatro rodas”, diz Freitas.

Perfis dos usuários
Do mesmo modo que a Case identificou o perfil do comprador de equipamentos 4×2, ela e os demais fabricantes empenham estudos constantes para identificar outros perfis e ampliar sua penetração de mercado.

O fato de a crise econômica ter afetado as áreas de infraestrutura e construção civil de forma intensa, fez com que os fabricantes da linha amarela ampliassem clientela no agronegócio, onde as máquinas atendem um perfil de operação diferente. Esse processo ainda está em transição e a prova disso foi a presença, em massa, das empresas do setor durante o último Show Rural Copavel. A Volvo e a SDLG, Caterpillar e SEM, Case e New Holland, por exemplo, divulgaram a exposição. Na ocasião, o presidente da Caterpillar no Brasil, Odair Renosto, foi enfático ao declarar que “o mercado agrícola tem potencial para consumir de 20% a 25% da produção de equipamentos da linha amarela.

As retroescavadeiras – surpresa – são preferência entre dos agricultores. Multitarefas, elas realizam desde a paletização geral, com implemento de garfo palete, até a preparação de valas de irrigação e escoamento. Também são usadas no carregamento de insumos e alimentos para animais, além do transporte de materiais gerais e preparação de terrenos.

Governo gaúcho compra 117 retroescavadeiras da Randon

Para a Case, o agronegócio já é protagonista. Segundo Gabriel Freitas, o segmento consumiu cerca de 15% das máquinas da linha amarela comercializadas pela fabricante no ano passado. Em algumas regiões – caso do Sul do país – o agronegócio foi ainda mais importante, respondendo por 40% dos clientes. “A retroescavadeira é o grande destaque nesse extrato, pois respondeu por quase um terço das máquinas vendidas no Sul”, complementa.

Retomada da construção e do rental
Apesar do avanço do agronegócio, os fabricantes continuam tendo no setor da construção o maior volume de clientes, e é a esse setor que creditam a retomada mais contundente. Atrelado à ele, o mercado de locação merece um capítulo adicional. Os aluguéis chegaram a absorver 30% das vendas de equipamentos da linha amarela entre 2013 e 2014, mas está paralisado, com frota ociosa e sem capacidade de novas compras.

Ricardo Nery, da JCB, cita números da Abimaq contextualizando que a representatividade do locador caiu de 22% em 2016 para apenas 2% no ano passado. Para ele, esse é o claro efeito da reação em cadeia, uma vez que as grandes empreiteiras deixaram de locar equipamentos e as frotas das locadoras ficaram superdimensionadas, o que não justifica a efetivação de novas compras.

Nery e os demais especialistas ouvidos pela reportagem acreditam na recuperação do rental, algo que deve ocorrer tão logo a construção civil e a infraestrutura voltem a crescer efetivamente. “Com a tendência de propriedade de bens de capitais migrando para a compra de serviços, acreditamos que as locações irão avançar mais para todos os tipos de aplicações, tanto no setor público quanto no privado”, confirma Dalla Nora, da Randon.

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