Recorde de leilões marca nova fase da infraestrutura rodoviária no Brasil

Avanço é relevante, mas há riscos que não podem ser ignorados

Por Maurício Malanconi*

em 5 de Maio de 2026
Maurício Melanconi, CEO da Suporte - Foto de DivulgaçãoMaurício Melanconi, CEO da Suporte - Foto de Divulgação

O Brasil registra o maior ciclo de concessões rodoviárias de sua história recente. Entre 2023 e 2025, foram realizados 18 leilões, com mais de R$ 200 bilhões contratados, sendo 13 deles apenas em 2025. Embora os números sejam expressivos e indiquem uma aceleração clara na agenda de infraestrutura, eles, por si só, não garantem uma transformação estrutural do setor.

O que se observa agora não é apenas um aumento de volume, mas uma tentativa de mudança de patamar. O país começa, enfim, a tratar a infraestrutura rodoviária como uma agenda contínua, com maior previsibilidade e capacidade de planejamento. Esse é um avanço relevante — especialmente quando comparado a ciclos anteriores marcados por descontinuidade —, mas ainda incipiente diante dos desafios históricos do setor.

Leilões de infraestrutura em 2026

Para 2026, a expectativa é de continuidade desse movimento, com novos certames já em preparação. As estimativas apontam para cerca de R$ 149 bilhões em investimentos em rodovias, abrangendo aproximadamente 6,4 mil quilômetros de estradas, podendo chegar a R$ 180 bilhões a depender da efetivação dos contratos. O volume projetado reforça o apetite do mercado, mas também eleva o nível de responsabilidade sobre a qualidade da estruturação desses projetos.

BR-364/RO

BR-364 (RO)

Os projetos estão distribuídos por diferentes regiões do país e incluem corredores logísticos relevantes, como trechos das BR-070, BR-174 e BR-364, além de iniciativas como a Rota Agro Central e a Rota dos Sertões. Em teoria, trata-se de um desenho estratégico, voltado à melhoria do escoamento da produção e à integração logística. Na prática, no entanto, o sucesso dessas iniciativas dependerá diretamente da aderência entre planejamento e execução — um ponto em que o Brasil historicamente apresenta fragilidades.

A diferença, desta vez, estará na capacidade de execução consistente ao longo do tempo — e não apenas na promessa inicial apresentada nos leilões

O modelo adotado também evoluiu. Os novos contratos incorporam mecanismos de mitigação de riscos, maior clareza em processos de reequilíbrio e, em alguns casos, maior participação pública. Trata-se de um avanço importante, sobretudo para tornar os projetos mais financiáveis. Ainda assim, é preciso reconhecer que tais ajustes não eliminam as incertezas estruturais do ambiente brasileiro, especialmente no que diz respeito à segurança jurídica e à estabilidade regulatória.

A forma como os riscos são distribuídos ao longo dos contratos continua sendo um fator crítico. Embora haja progresso no desenho contratual, o equilíbrio entre atratividade para o investidor e sustentabilidade de longo prazo ainda é delicado. Modelos mal calibrados podem gerar distorções que só se tornam evidentes anos após a assinatura dos contratos.

Visivelmente, há também um aumento na competitividade dos leilões. A maior presença de players, inclusive internacionais, é um sinal positivo e contribui para elevar o nível das disputas. No entanto, esse cenário exige cautela. Propostas excessivamente agressivas, motivadas pela disputa acirrada, podem comprometer a execução futura e reintroduzir problemas já conhecidos, como pedidos de reequilíbrio precoce ou dificuldades operacionais.

Leia também: Painel do CBIC defende fim da regra do menor preço em licitações

Capacidade de execução

Na prática, os contratos preveem intervenções relevantes, como duplicações, ampliação de faixas, melhorias na sinalização e implantação de sistemas de monitoramento. Essas entregas são fundamentais, mas não inéditas. A diferença, desta vez, estará na capacidade de execução consistente ao longo do tempo — e não apenas na promessa inicial apresentada nos leilões.

É justamente nesse ponto que reside o principal risco deste novo ciclo. O histórico do setor mostra que avanços quantitativos nem sempre se traduzem em qualidade de entrega. O Brasil já vivenciou momentos de forte expansão em concessões que, posteriormente, resultaram em revisões contratuais, atrasos e frustrações de expectativa.

Mais do que celebrar os números atuais, é essencial manter uma leitura crítica. A consistência dos estudos, a maturidade dos projetos e a aderência entre premissas e realidade operacional serão determinantes para evitar a repetição de distorções já observadas no passado.

Além disso, variáveis como custo de capital, comportamento da demanda e mudanças no ambiente regulatório terão impacto direto na sustentabilidade desses contratos. Ignorar esses fatores em nome de um otimismo excessivo pode comprometer os resultados ao longo dos próximos anos.

O sucesso dessa nova fase não será medido pelo número de leilões realizados ou pelo volume financeiro contratado, mas pela capacidade de entrega ao longo do tempo. Isso passa, necessariamente, por governança sólida, segurança jurídica e disciplina na condução dos contratos — elementos que ainda precisam ser continuamente fortalecidos no país.

O Brasil avança, mas ainda não consolidou um modelo plenamente robusto. O momento é promissor, mas exige cautela, rigor técnico e acompanhamento constante para que o ciclo atual represente, de fato, uma evolução — e não apenas a repetição, em maior escala, de desafios antigos.

* Maurício Malanconi é CEO da Suporte.

    Os assuntos mais relevantes diretamente no seu e-mail

    Increva-se na nossa newsletter e receba nossos conteúdos semanalemnte

    Aceito receber a newsletter por email