O recente relatório International Construction Costs (ICC) 2026, produzido pela consultoria global de engenharia Arcadis, aponta que o Brasil não é um mercado de construção barato, apesar do menor custo da mão de obra. São Paulo (106) e Rio de Janeiro (105) aparecem com pontuação de custos acima de Amsterdã (100) no ICC 2026, enquanto diversas cidades de mercados emergentes ficam abaixo dessa referência. A leitura da Arcadis é que produtividade, industrialização, tecnologia, eficiência da cadeia, burocracia e capacidade de execução reduzem a vantagem que o custo salarial poderia proporcionar.
Os dados do relatório foram coletados no primeiro trimestre de 2026, atualizados para preços do segundo trimestre. Ele leva em conta o custo do terreno, os impostos, os honorários profissionais e as variações locais de escopo de projeto, usando a capital dos Países Baixos como um benchmark de preço. De acordo com o estudo, as duas cidades brasileiras estariam de 5% a 6% mais caras para se construir em comparação com Amsterdã, mas ainda bem abaixo de mercados muito desenvolvidos, como Nova Iorque (174), nos Estados Unidos, e a líder Genebra (227), na Suíça.
Custo da construção coloca o Brasil em faixa intermediária no mercado internacional
Conforme explica Karin Formigoni, presidente global do setor de Energia, Água e Mineração da Arcadis, a posição do Brasil é encarada como intermediária, sendo mais competitiva que cidades de altíssimo custo dos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental, mas significativamente mais caro do que diversos mercados emergentes, inclusive da Ásia e da América Latina. Em comparação com São Paulo e Rio de Janeiro, Bogotá, capital da Colômbia, aparece com um custo de construção de 94 pontos, enquanto a Cidade do México está com 82.
De acordo com ela, esse posicionamento enfraquece a narrativa de que o Brasil seria naturalmente competitivo apenas por contar com mão de obra mais barata. “Na prática, o relatório sugere que o país não converte essa vantagem salarial em uma vantagem estrutural de custo. Em termos internacionais, o Brasil não aparece como um mercado de construção de baixo custo, mas como um mercado de custo médio-alto para padrões emergentes.”
Falta de produtividade explica custo de construir no Brasil
Karin ainda explica que, em mercados desenvolvidos, custos mais altos costumam estar associados a maior conteúdo técnico, padrões mais exigentes de segurança, automação, desempenho ambiental e qualidade final. Já mercados emergentes podem apresentar custos menores em razão de padrões distintos de acabamento, menor exigência técnica em alguns segmentos e maior escala de produção padronizada.
“No caso do Brasil, o fato de São Paulo e Rio de Janeiro aparecerem acima de 100 sugere que o país não compensa seus menores custos salariais com ganhos suficientes de produtividade, tecnologia, escala e eficiência de cadeia”, diz. No final das contas, a mão de obra mais barata não significa que a construção seja mais eficiente e outros mercados combinam melhor os temas de produtividade, controle de custos, atendimento a prazos, inovação tecnológica, industrialização, qualificação da mão de obra e burocracia legal.
Presidente da Arcadis fala dos riscos para o Brasil
Para a executiva, o o fato de o Brasil não se posicionar como mercado de baixo custo, mesmo tendo salários relativamente menores do que países desenvolvidos, é um forte sinal de limitações estruturais. “Quando o Brasil aparece mais caro do que diversos mercados emergentes sem apresentar, em contrapartida, evidência clara de superioridade em produtividade, tecnologia, industrialização ou qualidade sistêmica de entrega, a leitura mais objetiva é que o custo está mais associado a ineficiências estruturais do que a uma vantagem competitiva real.”
Isso pode representar um risco para quem quer investir no País. Karin diz que qualquer projeto de construção no Brasil precisa de uma análise mais detalhada, especialmente em projetos industriais e de infraestrutura. Para o investidor internacional, isso significa que o Brasil não deve ser tratado como uma plataforma naturalmente barata de implantação sem o devido conhecimento da sua extensão territorial. “Lembrando que o índice só aborda a região sudeste do País, em estados com menor densidade industrial, a percepção inicial de custo unitário mais baixo pode ser enganosa.”


