O estudo “Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas”, produzido pelo Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a consultoria EX ANTE, aponta para uma ampliação do consumo de água por diferentes fatores. Só a universalização dos serviços de água e esgoto deve aumentar em 30% a demanda.
O estudo busca projetar cenários de demanda futura de água no Brasil, apontando as principais variáveis que influenciam as diferentes tendências de crescimento do consumo. Segundo dados de 2023 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), foram consumidos 10,7252 bilhões de m³ de água. Esse volume corresponde a uma média diária de 175,38 litros por pessoa no país, incluindo a quantidade de água perdida na distribuição.
A ampliação de oferta de água, vinda com a universalização dos serviços de saneamento, tem forte impacto nesta questão. Com a expectativa de que todos os brasileiros tenha acesso à água potável até 2033, o volume adicional do consumo de água deve crescer 3,037 bilhões de m³, 30,7% a mais que o registrado em 2023.
Outro ponto que aumenta o consumo é o crescimento demográfico, já que a cada aumento de um ponto percentual na população urbana do município, espera-se um crescimento de 0,96% no consumo de água.
Crescimento do consumo ainda terá barreiras
Dois fatores podem diminuir o aumento do consumo. O primeiro é o aumento das tarifas com os serviços. Entre 2000 e 2024, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou uma variação média de 6,2% ao ano, enquanto os preços dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgoto cresceram, em média, 8,4% ao ano. Como o preço afeta negativamente o consumo per capita, essa tendência leva à redução do consumo médio por habitante ao longo do tempo.
A redução do índice de perdas de água na distribuição por vazamentos e gatos na rede é o segundo fator. O ITB indica que, em 2023, muitos municípios apresentavam perdas superiores a 80% da produção. Isso significa que, para cada litro consumido, outros quatro se perderam no caminho. O instituto pressupõe um ritmo constante de redução das perdas de 0,6% ao ano na média das cidades brasileiras até 2050, o que ajudaria a diminuir a pressão sobre a demanda.
Leia mais
Considerando todos os fatores até aqui abordados, o estudo considera que o crescimento médio anual do consumo per capita de água entre 2023 e 2050 será de 0,8% resultando em um aumento acumulado de 25,3% ao longo dos 27 anos. Com o atual índice de perdas, a demanda futura de água até 2050 exigiria um aumento significativo de 10,672 bilhões de m³, um aumento de 59,3% em relação à produção do setor de saneamento em 2023, que foi de 18,002 bilhões de m³.
Impacto das mudanças climáticas
Outra questão relevante nesse horizonte de análise, que abrange mais de duas décadas, é o impacto das mudanças climáticas. Os parâmetros do modelo econométrico utilizado para análise climática indicam uma tendência de elevação tanto da temperatura máxima quanto da mínima anual no Brasil até 2050.
A temperatura máxima deverá aumentar aproximadamente 1º Celsius em comparação aos níveis observados em 2023, enquanto a temperatura mínima terá um acréscimo estimado de 0,47º Celsius. Isso resultará em um aumento da amplitude térmica de 0,52º Celsius até 2050. Além disso, outras tendências apontadas incluem a redução no número de dias chuvosos e a ocorrência de precipitações mais fortes.
Segundo o estudo, para cada grau Celsius adicional na temperatura, a demanda por água cresce 24,9%. O consumo também sobe com a maior umidade relativa do ambiente: a cada aumento de um ponto percentual na umidade relativa do ar, o consumo per capita de água cresce 3,6%.
Além disso, cidades com chuvas mais frequentes estão associadas a níveis de oferta e consumo mais elevados. Em média, nas cidades brasileiras, a cada dia adicional de chuva na média mensal, o consumo per capita de água aumenta em 17,4%. Assim, municípios em áreas tropicais, com temperaturas elevadas ou localizados próximos ao litoral, apresentam maior oferta de água em relação a cidades situadas no semiárido brasileiro, onde a falta de chuvas ocasiona restrições na oferta de água.
Clima desfavorável pode levar a racionamento
Com um clima mais quente, a demanda incremental pode chegar a 2,113 bilhões de m³ por ano e uma quantidade necessária de produção de mais 3,515 bilhões de m³ por ano (mantendo o nível de perdas na distribuição de 2023). Além do aumento no consumo, as mudanças climáticas projetadas até 2050 podem acentuar o desequilíbrio entre oferta e demanda de água no país. O avanço das temperaturas e a redução esperada no número de dias de chuva tendem a intensificar a aridez de diversas regiões, ampliando o semiárido brasileiro e trazendo consigo o risco de desertificação em novas áreas.
Nessas regiões, onde a disponibilidade hídrica já é limitada, as mudanças climáticas podem comprometer ainda mais a oferta de água, criando cenários de escassez com alta probabilidade de ocorrência. Na média das cidades brasileiras, as tendências climáticas apontam para uma redução de 3,4% na disponibilidade de água ao longo do ano.
Isso se traduz em aproximadamente 12 dias anuais de racionamento. Regiões onde os índices de chuva e o número de dias chuvosos já são mais baixos – como partes do Nordeste e do Centro-Oeste, por exemplo – deverão enfrentar mais de 30 dias de racionamento.


