Uma nova pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que 75% dos empresários industriais colocam o transporte como o principal gargalo de infraestrutura do Brasil. O estudo evidencia a forte dependência da indústria em relação ao transporte rodoviário, já que o modal é utilizado por 98% dos 2,5 mil representantes ouvidos, inclusive em longas distâncias, com 23% deles transportando seus produtos por mais de 1.600 quilômetros.
Para a CNI, o uso do transporte rodoviário em trajetos extensos é um dos grandes problemas da logística brasileira e ajuda a explicar a percepção dos empresários sobre os elevados custos logísticos no país. A entidade recomenda que o caminhão seja usado prioritariamente em percursos curtos e médios e integrado às ferrovias, hidrovias e à cabotagem nos deslocamentos mais longos. Para a instituição, cada modal deve ser utilizado de acordo com sua vocação para reduzir custos logísticos, acidentes e emissões de gases de efeito estufa.
A pesquisa mostra que há espaço para essa mudança. Entre os empresários que utilizam o transporte rodoviário, 45% afirmam que estariam dispostos a transferir, ainda que parcialmente, suas cargas para outros modais caso houvesse condições adequadas de infraestrutura. Nesse grupo, 67% apontam as ferrovias como alternativa, 21% indicam o transporte aéreo e 12%, o aquaviário.
A redução de custos é a principal motivação para uma eventual mudança de modal, mencionada por 82% dos executivos. Também aparecem entre os fatores a redução de sinistros nas rodovias (43%), a diminuição das emissões de gases (33%) e a menor incidência de roubos de cargas (26%).
Transporte ferroviário é o principal desafio de infraestrutura logística no Brasil
A pesquisa também avaliou a percepção de desenvolvimento de cada tipo de infraestrutura. Aeroportos são avaliados positivamente por 64% dos empresários, seguidos por telecomunicações (62%) e energia elétrica (60%). O saneamento básico aparece na sequência, com 48%, à frente de portos (44%), rodovias (38%), hidrovias (27%) e ferrovias (21%). Como se vê, uma possível mudança de modal para o ferroviário não seria possível no momento, principalmente porque o setor ainda convive com linhas antigas, trechos abandonados, sem operação ou com baixa utilização e dificuldades para ampliar o acesso e o aproveitamento da infraestrutura existente.
O superintendente de Infraestrutura da CNI, Wagner Cardoso, diz que a avaliação ruim das ferrovias reflete problemas históricos que limitaram a expansão e o melhor aproveitamento da malha. A rede ferroviária brasileira, que chegou a cerca de 37 mil quilômetros na década de 1950, conta hoje com aproximadamente 30 mil quilômetros, dos quais 12 mil sem qualquer operação – abandonados ou 100% ociosos.
Ele explica que é preciso avançar a agenda de obras e regulação, especialmente em questões como direito de passagem, acesso à malha, disponibilidade de capacidade e interoperabilidade, mas também tirar do papel os projetos de concessão e autorização e transformá-los efetivamente em novas ferrovias.
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CNI defende maior investimento privado e melhor regulamentação
O diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, avalia que as diferenças na percepção dos empresários sobre a qualidade dos serviços refletem trajetórias distintas de investimento, modernização e aperfeiçoamento regulatório entre os segmentos. Em um cenário de restrição fiscal, ele destaca a importância do capital privado para a modernização da infraestrutura, mas ressalta que os resultados dependem também de condições regulatórias e institucionais que favoreçam a expansão e a melhoria dos serviços.
“Diante da limitação dos recursos públicos, o capital privado é cada vez mais importante para financiar a expansão e a modernização da infraestrutura brasileira. Telecomunicações e aeroportos mostram como a combinação entre investimento privado e ambientes regulatórios mais maduros, com regras mais estáveis e modelos consolidados, pode contribuir para expandir a infraestrutura e melhorar a qualidade dos serviços prestados”, afirma o diretor.
Ele cita o saneamento básico como exemplo, visto que a ampliação da participação de empresas privadas no setor desde a aprovação do Marco Legal do Saneamento. Segundo dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), a ampliação do capital privado passou de 18% em 2020 para 52% em 2024. “É importante ressaltar que, mesmo com o crescimento da participação privada, os investimentos públicos continuam essenciais. Os recursos públicos e privados não competem entre si, mas se complementam e são fundamentais para acelerar a universalização dos serviços”, acrescenta Muniz.
Custos de transporte e energia pesam sobre a indústria
Os custos de energia e transporte estão entre os que mais pressionam a indústria, segundo os empresários entrevistados. A conta de luz é considerada alta ou muito alta por 81% dos executivos, enquanto 75% fazem a mesma avaliação sobre os custos de transporte. Segundo 91% dos entrevistados, os custos logísticos subiram nos últimos dez anos. Para 70%, o aumento foi expressivo e resultou em perda de competitividade.
Para o especialista em Infraestrutura da CNI, Ramon Cunha, o encarecimento desses dois componentes tem efeitos que ultrapassam os custos diretos das empresas, uma vez que energia e transporte estão presentes em praticamente todas as cadeias produtivas. Quando se tornam mais caros, pressionam os valores de produção e podem repercutir sobre os preços dos bens consumidos pela população.
No transporte, a CNI aponta que o custo elevado resulta de uma combinação de fatores, entre os quais estão deficiências na infraestrutura, a forte dependência do modal rodoviário e custos associados ao ambiente regulatório do Brasil. Entre os pontos de atenção da instituição estão a Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (PNPM-TRC) e as mudanças nas regras de contratação do seguro do transporte de cargas.
Na energia elétrica, por sua vez, o alto preço tem como explicação principal o peso dos encargos, subsídios e tributos sobre a tarifa. Esses componentes representam cerca de 44% da conta de luz, sendo 18% referentes a encargos e 26% a impostos. A participação dos encargos e subsídios no custo final da tarifa passou de 2,9%, em 2017, para 18%, em 2025.
A pesquisa da CNI foi realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, que entrevistou executivos de 2.500 empresas industriais de médio e grande portes, nas 27 Unidades da Federação. A margem de erro da pesquisa é de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.


