Entrevista: Viavi mostra que a medição em redes de telecom ganhou inteligência

 Por Nelson Valêncio – editor executivo – 13.07.2016 – 

A norte-americana Viavi define-se como uma empresa que dá às operadoras de telecomunicações a visibilidade fim a fim do que acontece em suas redes. Essa “visibilidade”, antes parcial, era observada somente a partir de testes na infraestrutura física. A era dos testes “passivos”, segundo a Viavi, acabou. No seu lugar entram plataformas de hardware e software e instrumentos que, combinados, fazem uma captura inteligente de dados da rede e a retroalimentam. Ou seja, a operadora recebe informação em tempo real sobre a infraestrutura que detém e usa o recurso para monetizar sua atividade. Por “operadora”, nesse caso, diga-se não somente os profissionais de operação e engenharia, como também os responsáveis por tecnologia da informação, marketing e serviços de valor agregado. Nesta entrevista, Luiz César Oliveira, vice-presidente da região da América Latina e Caribe da Viavi, explica a nova fronteira do que conhecíamos como testes de rede.

InfraROI – A Viavi já teve outros nomes, inclusive JDSU e Acterna. O que mudou, além da denominação?

Luiz César Oliveira: Uma das razões de mudança é que a JDSU é muito forte em componentes ópticos e, quando comprou a Acterna, agregou a indústria de medição. Em agosto do ano passado, fizemos o spin off da área de componentes ópticos e a Viavi focou-se na oferta de soluções para dar maior visibilidade das redes, em várias camadas – vertical, horizontal e do ciclo de vida da infraestrutura. Essa visibilidade significa ver a rede como um todo – chamadas de voz, transmissão de vídeo em celular, etc. Do lado do usuário, ele espera um serviço de boa qualidade, independente do acesso. Para a operadora, no entanto, vários serviços são um desafio porque envolvem aplicações que necessitam de uma latência mínima ou porque demandam mais recursos de rede ou ambos. No Mobile World Congress, evento tradicional que acontece em Barcelona, assuntos como o 5G e a internet das coisas (IoT) mostram que teremos um ambiente cada vez mais conectado, com maior adoção de virtualização das funções de rede. E isso exige maior visibilidade da infraestrutura.

Oliveira, da Viavi: nem todos os dados de medição devem ser entregues à operadora.
Oliveira, da Viavi: nem todos os dados de medição devem ser entregues à operadora. Só os necessários.

InfraROI: Todos os dados capturados na rede devem ser entregues para a operadora? E como mudaram os instrumentos e plataformas que fazem isso?

LCO: Não. A solução para entregar visibilidade precisa incorporar inteligência para que a operadora possa agir. Ela já tem dados demais, então não podemos entregar mais dados que precisam ser correlacionados. É preciso entregar inteligência. Olhando para trás, nota-se uma mudança nos instrumentos de teste. Eles atrelaram mais funcionalidades em função de novos recursos eletrônicos. Antes eram caixas pesando de 15 a 20 kg que realizam uma só tarefa. Hoje, são multifuncionais, ficaram menores, têm forte eletrônica embarcada e estão interligados a outros sistemas. Muitos desses sistemas também foram virtualizados, ou seja, não requerem hardwares específicos. Nós já temos oito deles, onde a probe e o software de teste já é virtualizado, de forma que podem ser ativados em qualquer lugar, o que significa que vão adaptando-se aos conceitos emergentes de virtualização das funções de rede (NFV) e de redes definidas por software (SDN).

InfraROI – Como as operadoras e seus parceiros se adaptam a esse novo cenário?

LCO: Elas estão se adequando aos poucos, mas as mudanças precisam ser justificadas. A virtualização vai acontecer de forma prioritária, principalmente se o recurso físico for mais caro e demandar custos na rede, etc. Há um dinamismo em serviços de IoT, por exemplo, mas temos também um legado de redes, onde a mudança não acontece de um dia para outro.

InfraROI – A era dos testes em si mesmo era fácil de entender…

LCO: Sim, mas as operadoras precisam segmentar e identificar seus problemas de infraestrutura de forma mais rápida e simples. Os sistemas de medição, por sua vez, precisam estar próximos da operação e ser uma fração do custo dessa operação. As operadoras têm uma série de redes, desde o backbone até o acesso, passando pelo backhaul, e sobre essa camada de rede elas estão ativando outros dispositivos, como as small cells internamente em shopping centers, para citar um exemplo. Nessa mesma rede, elas transportam serviços que nem são delas, caso da oferta das OTTs. Então, quando se tem um problema é cada vez mais difícil falar para o técnico de campo onde está a falha. Por isso é preciso ter essa visibilidade de camada fim a fim, independente do core da rede, para poder identificar – em tempo real – onde está o gargalo.

InfraROI – E quem recebe essas informações? Somente a área de redes?

LCO: Temos as áreas tradicionais, incluindo operação e engenharia, que controlam os recursos dos centros de controle de redes e call centers, mas também aparecem figuras novas ou com maior importância. Temos a tecnologia da informação, a qual usa os inputs de rede para analisa-los num contexto de big data e que utiliza as métricas de analytics para melhorar a operação. E aparecem os profissionais de marketing e que trabalham com serviços de valor agregado. Para esse segundo grupo, as informações em tempo real permitem saber como os usuários estão usando os serviços e como a operadora pode montar novas ofertas. Com o uso de uma plataforma de software, eles podem monitorar essa rede 24×7. Hoje, o processo funciona como um drive test, que era usado anteriormente para emular o tráfego de redes em determinada região. Atualmente, cada dispositivo móvel funciona como input real do que acontece na infraestrutura física. A esse mapa de tráfego, podem-se agregar informações de geolocalização e de RF, dados sobre que tipos de aplicativos estão sendo usados, etc. Isso é a inteligência que pauta as ações da operadora. Aí, ela decide se vai investir em determinada região, onde a demanda é intensa pela transmissão de vídeo de uma OTT ou se vai focar onde os seus próprios serviços – e que ela pode monetizar – são o forte do tráfego.

InfraROI  – Como pode se dar essa retroalimentação de dados, com que recursos?

LCO: Existem soluções que envolvem conceitos já conhecidos, caso das redes auto-organizadas (SON), que alocam recursos dinamicamente de acordo com a demanda. Um exemplo disso é o deslocamento de maior capacidade de transmissão de rede para a região do estádio onde acontece um clássico de futebol. Isso pode ser feito temporariamente. A informação sobre o quanto de recurso deve ser alocado pode ser dada exatamente pelos sistemas de medição de infraestrutura. O inovador é a operadora ter informações rápidas de três ou quatro plataformas, de vendors diferentes, correlacionar essas informações e tomar ações assertivas. Outro exemplo é o de analisadores de estações rádio base (ERBs). Um técnico de campo pode avaliar o desempenho das antenas das ERBs sem ter que necessariamente subir até elas. Pelo cabo que interliga essa antena à rede, ele pode avaliar a qualidade do sinal, etc. É uma operação mais segura e menos custosa. O mesmo ocorre com a entrega de uma nova ERB, cuja operação pode ser emulada, identificando problemas se for o caso. Hoje, muitas operadoras só fazem o pagamento de um serviço como esse – a entrega das ERBs – depois de um certo período de funcionamento ininterrupto.

InfraROI – Nós estamos falando de agregar inteligência, mas o que continua sendo ativado? Continuamos a ter instrumentos físicos, sistemas?

Dispositivos físicos ainda fazem parte do dia a dia da medição de redes.
Dispositivos físicos ainda fazem parte do dia a dia da medição de redes. Caso desse cell advisor.

LCO: O ponto de captura mais adequado define que tipo de solução. Além da camada de captura, temos o processamento e a correlação de dados. E há ainda os recursos de analytics e de relatórios. E, por fim, a camada de monetização, cruzando essas informações com avaliações financeiras. O ponto de captura define a probe a ser instalada – se virtual ou física, ou se é o caso de um sistema ou de um software. Hoje, mais da metade do nosso faturamento é oriundo da área de instrumentos e isso deve continuar por um bom tempo, pois muitas áreas exigem a ativação de instrumentos, caso do teste de redes de fibra ópticas. Mesmo assim, temos pelo menos oito sistemas já virtualizados e o que vemos como tendência é o deslocamento cada vez maior da inteligência para o ponto de captura. Ele precisa captar a maior quantidade possível de informações inteligentes.

InfraROI – O que é essa informação inteligente?

LCO: É a informação necessária. Não podemos agregar tráfego desnecessário na própria rede. O ponto de captura precisa ser eficiente e transmitir a informação para um banco de dados ou para um sistema centralizado de medição. Um caso concreto é a avaliação de um lote de 1 mil chamadas de voz, sendo que identificou-se que 900 delas são absolutamente normais. O que tem que ser capturado e analisado são as 100 com problemas, identificando o que pode ser feito para reverter o processo. Os sistemas tradicionais não fazem isso.

InfraROI: vocês tiveram, na região da América Latina e Caribe, dois contratos recentes e importantes. Como essa inteligência que estamos discutindo acontece na prática?

LCO: Infelizmente, por questões contratuais, não podemos dizer quais são as operadoras, mas uma delas está no Brasil e outra num país vizinho. Ambos os projetos envolvem a ativação de sistemas com probes e recursos de geolocalização, entre outros, abrangendo vários tipos de redes, desde as de acesso até o backbone de longa distância. As duas também optaram por modularizar a ativação de recursos de medição, o que é outra funcionalidade importante. No caso da empresa nacional, ela está olhando o tráfego de seu backhaul com mais intensidade, entre outros diferenciais. Trata-se de uma operadora com rede bastante complexa, com infraestrutura móvel e fixa. Na outra, o desafio maior envolve três redes diferentes. A criação de uma nova infraestrutura LTE e a integração com as redes de duas aquisições recentes dela. Ela comprou duas outras empresas do setor e precisa ter a visibilidade de toda essa malha. Precisa antecipar os problemas para modular a oferta comercial.

InfraROI – Operacionalmente, os recursos de medição são amigáveis?

LCO: Com certeza. Começamos com uma tela com mapa, onde estão distribuídos os indicadores chave de desempenho (KPIs), determinados pela própria operadora. É tudo intuitivo, com a paleta de cores tradicional, onde a cor vermelha indica que há um problema. O mais interessante é que a inteligência dos sistemas correlaciona os dados e permite que, em apenas cinco cliques, navegue-se da visão macro para a raiz do problema. É claro que há muitos filtros, muita correlação e muita inteligência envolvida no processo. A própria operadora também, com o tempo, faz as mudanças na forma de acompanhar, personalizando a visibilidade que deseja ter.

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