“A guerra anticorrupção chinesa prendeu dez vezes mais que a Lava-Jato. Mas quebrar empresas é ridículo”, avalia Charles Tang

Por Rodrigo Conceição Santos – 24.06.2016 –

Reconhecido após atuação no Bank of Boston, onde foi substituído por Henrique Meirelles, especialista diz que a China é o único país disposto a investir num país em que nem os próprios brasileiros acreditam. Ele também avalia que não crescemos porque os economistas priorizam a estabilidade monetária no lugar da prosperidade social, e temos duas vertentes político-econômicas que nos levam igualmente à pobreza.

Foto do ForumSul
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Se o Brasil não é para principiantes, como disse Tom Jobim, ele pode, quem sabe, ser para milenares. É o que esperam os chineses. Donos da economia mais notória da última década e com diversos casos de sucesso em aplicações internacionais, principalmente na África, eles são “os únicos com disposição de investir no Brasil atualmente, onde nem mesmo os brasileiros acreditam”, como diz Charles Andrew Tang nesta entrevista. Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), senhor Tang (como será tratado daqui em diante) foi criado em Nova Iorque, onde se formou em economia pela universidade de Cornell. Ele também é bacharel em direito, pela Universidade Estácio de Sá, no Brasil, e conclui doutorado em Ciências Políticas na Universidade Paris V, em Sorbonne, na França. Autodeclarado Brasileiro, Sr. Tang defende que não somos uma potência econômica por que nos autodestruímos cotidianamente com o custo-Brasil, e ainda somos governados por dois pensamentos econômicos que resultam lamentavelmente na pobreza. Crítico da paralização das empresas e das demissões causadas pela Lava-Jato, mas afeito à prisão de corruptos, o executivo chama os especialistas brasileiros a estudar o capítulo dois da economia, e esquecer a ideia de que controle monetário é mais importante que o bem-estar social.

InfraROI – Por que o senhor defende os investimentos chineses em infraestrutura no Brasil?
Charles Tang Hoje a China é o hoje único país do mundo com disponibilidade financeira e disposição para investir no risco Brasil, algo que nem os brasileiros têm coragem. E eu concordo que é um excelente momento para investir aqui, pois os ativos estão baratos e todos sabemos que o Brasil é prospero. Tão próspero que tentam destruí-lo há 500 anos e não conseguem. Então, quem acredita que esse desconexo político é temporário, tem de investir, como a China está fazendo.

InfraROI – O senhor tem exemplos desses investimentos?
Charles Tang Só no setor de infraestrutura foram mais de 70 bilhões de dólares nos últimos cinco anos. Isso inclui US$ 25 bilhões em empréstimos para a Petrobras. Inclui também os aportes de mais de R$ 13,6 bilhões da China Three Gorges (dona da Usina Hidrelétrica de Três Gargantas, na China) no leilão de 29 usinas hidrelétricas no ano passado, e outros investimentos em energia. E as investidas continuam. Nesses dias mesmo a maior fabricante de tratores da China veio avaliar a compra de uma indústria local de componentes. Também há negociações de 750 megawatts de energia eólica e a possibilidade de dois projetos de termoelétrica a gás que gerariam 1,5 GW cada.

InfraROI – Quais benefícios os investimentos chineses trazem para o Brasil?
Charles Tang De imediato, os investimentos chineses são de suma importância nesse tempo de franca recessão e aumento de índice de desemprego. Basta olhar para a África para enxergar que os antigos mestres coloniais sugaram as riquezas e a deixaram como continente perdido por várias décadas, até o dia em que a China começou a investir massivamente lá e a transformou num local de esperança. Se olhar os países que mais cresceram nos últimos seis anos, verá que são os locais onde a China investiu. Não que o Brasil seja África. Não tem nada a ver. Eu só estou mostrando o que os chineses podem fazer para ajudar no crescimento de uma nação.

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InfraROI – A política econômica e internacional brasileira é facilitadora ou dificultadora desses aportes?

Charles Tang  Digamos que, basicamente, o Brasil não é um país “business friendly”. Esse novo governo provisório parece que quer transformar isso. Publiquei muitos artigos na grande mídia local e um deles é o Nacionalismo Antinacionalista (Jornal O Globo – Janeiro de 2012 – Veja link). Nele, digo que, em nome do nacionalismo vamos destruir nosso país. E um bom exemplo disso é a proibição da compra de terra por estrangeiros. Conforme Roberto Rodrigues, ex-ministro da agricultura de Lula falou, será que o estrangeiro vai levar um pedaço do Brasil embora na mala? A única coisa que conseguimos com essa proibição foi barrar 90 bilhões de dólares em investimentos, que foram parar nos nossos vizinhos latino-americanos como Chile e Peru – ambos com bons acordos de livre comércio – que agradecem a bondade brasileira de rejeitar riquezas que desembarcaram nas suas  terras.

InfraROI – O senhor avalia que o Brasil tem outros entraves para o desenvolvimento?
Charles Tang – Vários. Começando pelo custo-Brasil, que gera os juros mais altos do mundo: nem a Turquia consegue derrotar a gente nesse sentido. Temos 60 tipos de impostos que consomem quase 40% do nosso PIB. Ou seja, o setor não produtivo pesa 40% e é sustentado por 60% da renda. Não faz o menor sentido mantermos um sistema burocrático oneroso como o nosso. Para ajudar, temos uma legislação trabalhista que não mudou uma vírgula desde 1943, mas o mundo mudou, e muito, desde lá. Temos uma política cambial que não é favorável ao país. Criticamos a China que adota uma política favorável a ela, como deveríamos estar fazendo também. E por que a China faz isso? Simples: porque ela não quer se autodestruir, como nós queremos. Até a nossa legislação ecológica esquece que o bem mais sagrado da natureza é o ser humano e, para que ele tenha o mínimo de dignidade, precisa de emprego. Esses são alguns dos entraves questionados. Não temos uma política nacional de indústria e, portanto, não fortalecemos a indústria. Não digo que isso deva acontecer com proteções, que só criam dinossauros tecnológicos. Mas precisamos aumentar as chances de competitividade, algo que, novamente, passa pelo custo-Brasil.

InfraROI – Qual a razão dessas dificuldades permanecem?
Charles Tang  O principal problema nosso é que temos só duas visões político-econômicas, e ambas levam à pobreza. O centro para a direita acredita fielmente que a cada dois anos tem de quebrar as empresas com juros altos para criar crescimento sustentável. Já fizemos isso por mais de 20 vezes ao longo de mais de 30 anos e nunca deu certo. Mas continuam insistindo. Esse pensamento foi imposto pelo FMI aos países que a ele recorreu. O Consenso de Washington tem uma parte muito boa, que defende a redução do estado e as privatizações, e outra muito ruim, que é a estabilidade monetária como fim, quando esse fim deveria ser a prosperidade social. Já a centro-esquerda tem apego a alguns dogmas socialistas que a China teve de jogar no lixo 35 anos atrás para começar a crescer. O resultado disso é tratado no meu livro “Brasil e China – Modelos de Prosperidade Econômica?”, onde fica claro que não temos um modelo de prosperidade, apesar de o Brasil reunir mais condições que a China, Japão e outros países para se tornar o maior tigre de exportação do mundo e, consequentemente, uma potência econômica.

InfraROI – Por que isso não acontece?
Charles Tang  Porque não queremos, e sofremos com essas duas visões econômicas que levam à pobreza. Nossos economistas não leram o capítulo dois da economia, que diz que se reduzir o custo-Brasil, acaba com a inflação e gera riqueza econômica. A diferença é que a China, Coréia do Sul, Japão e Taiwan leram.

InfraROI – Isso tem explicação histórica?
Charles Tang – Me perguntam certa vez por que a China cresceu e o Brasil não acompanhou. Em 1974, quando os dois países reataram suas relações diplomáticas, o Brasil era cerca de cinco vezes mais próspero que a China. Hoje a China é umas oito vezes mais prospera que o Brasil. Nesse período, Deus não virou chinês. Deus continua brasileiro (risos). Houve que a China teve como prioridade absoluta a prosperidade, a qualquer custo, mesmo destruindo os dogmas absurdos do socialismo que é o de todos serem igualmente pobres, como eu já comentei. Já no Brasil, a prioridade nunca foi prosperidade. A centro-direita priorizou a estabilidade monetária e por isso, durante o governo FHC, chegamos a queimar um PIB inteiro de dinheiro com pagamento de juros a empréstimos tomados com o FMI. Em suma, os nossos economistas conseguiram inverter o meio com fim e o fim com meio. Afinal, o objetivo de qualquer economia é o bem-estar da sociedade. A estabilidade monetária é só um meio para isso. Mas preferem continuar sacrificando a sociedade para manter a estabilidade monetária, que por si só virou o fim a qualquer custo. Há mais de 20 anos que trato desse assunto e espero que algum dia alguém ouça e aplique. Eu pondero que isso está enraizado pelo Consenso de Washington, imposto pelo FMI, e pelas hiperinflações que causaram um trauma na consciência nacional nos anos 1980 e 1990.

InfraROI – Há indícios de melhora?
Charles Tang – Acho que as propostas do governo interino do Michel Temer fazem sentido. O líder econômico é alguém de competência comprovada e meu sucessor no Bank of Boston. O Blairo Maggi é um dos maiores produtores de soja do mundo e um grande empresário, que tem competência para tratar do enriquecimento das nossas terras.

InfraROI – A corrupção ou as ações anticorrupção são antagônicas a isso?
Charles Tang – A guerra anticorrupção chinesa já prendeu mais de 3 mil pessoas. É a Lava-Jato multiplicada por dez. Só que todas as empresas foram preservadas e o emprego foi preservado. Lamentavelmente, aqui, as leis não permitem que prenda o corrupto, como deve ser, e poupe as empresas, mantendo os empregos. É um contrassenso. Então, eu aplaudo a prisão dos corruptos. Mas quebrar as empresas é ridículo.

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