Mercado de caminhões está “On The Road” novamente

Por Rodrigo Conceição Santos – 23.10.2017 –

O crescimento começa já em 2017 e montadoras esperam avanço de até 15% em 2018. Veículos estradeiros devem puxar as vendas, ficando os off road com crescimento tímido, devido à falta de grandes obras de infraestrutura.

O crescimento das exportações e uma ligeira melhora no mercado interno animam o setor de caminhões, depois de três anos seguidos de queda. Não se espera, é verdade, grande crescimento para este biênio, mas a retórica é que chegamos ao ponto de inflexão, no qual as vendas e produções pararam de cair e iniciam uma subida gradativa. Os dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) confirmam a ascensão, prevendo a produção de 101,5 mil unidades de caminhões e ônibus neste ano, contra 79,2 mil do ano passado (crescimento de 28,2%). Montadoras como Iveco, Mercedes-Benz e Scania validam o crescimento em 2017 e esperam melhora de cerca de 15% em 2018, mostrando que ao espírito altivo do beat Jack Kerouac, autor do título com o qual brincamos, o mercado de caminhões está On the Road novamente.

Quem visitou a Fenatran na semana passada teve mesmo essa impressão. Com a maioria das grandes montadoras expondo em estandes enormes, com toda a prova de luxo e requinte remetentes aos áureos momentos de mercado, elas sinalizaram a volta para a estrada.

A soma dos investimentos previstos por essas empresas entre 2018-2022 chega a R$ 15 bilhões (veja notícia sobre no InfraROI), o que também demonstra o positivismo do mercado. E há ainda investimentos de outros agentes do setor, como a Randon, que aplica R$ 100 milhões em uma fábrica nova em Araraquara, entre outras incursões.

Randon sofre menos que concorrentes e projeta crescimento para 2018

“De 2013 a 2016, a Scania saiu da faixa de vendas de 20 mil unidades para 4,2 mil/ano”, diz Wagner Tillmann de Souza, chefe da área de vendas de caminhões da montadora no Brasil. Para este ano, segundo ele, a expectativa é vender 5 mil caminhões, confirmando crescimento de quase 20% sobre 2016 e validando o ponto de inflexão unanimemente comentado pelo mercado.

O executivo ainda vê insegurança no mercado e pondera com essa informação, mas também avalia que diversos clientes estão decidindo repor a frota, principalmente após a virada para o segundo semestre.

Há diferença de demanda por nichos, e isso é bem observado pela Scania, segundo Tillmann. No setor de pesados, por exemplo, 60% dos negócios são para frotistas rodoviários, ficando outros 20% para veículos de distribuição e 20% para off road. “No setor fora de estrada, o mercado da construção civil pesada continua com baixa demanda. Mineração vem melhorando, e hoje representa 25% das nossas vendas. Mas o que tem puxado mesmo as vendas de caminhões são os setores florestal e canavieiro/agrícola, sendo que esse último deve acelerar os negócios nesses últimos meses do ano, dada a sazonalidade da operação, que os levam a comprar entre setembro e fevereiro”, explica Tillmannn.

Heavy Tipper: lançamento fora de estrada da Scania

Para Fábricio Paula, gerente da área de mineração da Scania, o setor que representa tende a retomar representatividade nos negócios da marca e não é por menos que ela escolheu o Brasil para como palco do lançamento Heavy Tipper. Trata-se de um caminhão que fica entre os off road, da linha amarela, e os rodoviários usados nas operações fora de estrada. Esse modelo, segundo a fabricante, sai da faixa de 32 toneladas de peso bruto técnico (PBT), tradicionalmente adotada pelos rodoviários com aplicação off road, para 58 t de PBT, colocando-o em paridade com os modelos genuinamente off road.

“Pela idade da frota brasileira de mineração, acreditamos que o ciclo de troca está próximo, pois em operações desse porte o custo operacional começa a ficar desvantajoso”, diz ele. “Afinal, só para início de comparação, os caminhões que rodam hoje são de motorização Euro 3, enquanto as novas tecnologias são Euro 5, mais econômicas e menos poluentes”, diz.

Bernardo Pereira, gerente de inteligência de mercado e gestão de clientes da Iveco, tem visão semelhante quanto à renovação de frota. Ele calcula que o boom do mercado de caminhões, ocorrido em 2010 e 2011, completa sete anos agora e é justamente essa a faixa máxima para troca dos veículos. Isso, claro, para os frotistas que avaliam o peso que os custos de operação e propriedade têm sobre sua lucratividade.

“Além disso, o índice ABCR, que mede o fluxo mensal de veículos nas rodovias pedagiadas, aumentou, mesmo que timidamente, pela primeira vez desde o início da crise, neste mês de agosto. A projeção mais positiva do PIB, revista para cima pelo FMI recentemente, a expectativa de safra recorde de grãos e os primeiros respiros da indústria também nos dão uma combinação de dados para compor um cenário favorável ao setor de caminhões daqui em diante”, avalia.

A velocidade dessa retomada é incerta, ele admite, mas enxerga possibilidades de que ela seja mais rápida do que o mercado acredita. “O importante é que não se fala mais em queda e o cenário político está se descolando, de modo que, se ele simplesmente não atrapalhar, está bom demais”, diz. Mesmo as eleições de 2018, independente do vencedor, não devem influenciar no movimento de crescimento do setor, , segundo Pereira. Ele ainda vê a recuperação mais rápida no segmento estradeiro, ficando o off road com índices moderadamente positivos.

“Neste mês de outubro, devemos vender cerca de 60% mais do que no mesmo mês do ano passado. Isso se deve principalmente às grandes compras, que voltaram a ser realizadas pelos setores agrícola e florestal”, diz. “Já as vendas de fora de estrada crescem menos, mas crescem e, na combinação desses dois universos junto com os veículos urbanos, que são o carro-chefe da Iveco, acreditamos em crescimento superior a 15% em 2018”, conclui.

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