Na crise ou na alta, Case Construction mostra como adequar a produção à demanda de mercado

Por Rodrigo Conceição Santos – 23.09.2015 –

Com demanda mais de 50% abaixo da dos últimos dois anos, dosar a capacidade fabril sem perder a expertise produtiva, e ainda se manter preparada para aumentar a fabricação quando o mercado retomar crescimento, é missão difícil, mas que a CNH Industrial revela ter encontrado a receita.

Linha de produção da CNH Industrial em Contagem (Fotos de Leandro Perez)
Linha de produção da CNH Industrial em Contagem (Fotos de Leandro Perez)

A CNH Industrial, que fabrica os equipamentos das marcas Case e New Holland, chegou a produzir 900 equipamentos de terraplanagem mensalmente em 2013 na sua principal fábrica latino-americana, em Contagem (MG). Hoje ela produz 400. Em contrapartida, no início dos anos 2000 ela não chegava a produzir 200 unidades, mas de 2006 em diante viu esses números de produção saltarem em velocidade descontrolada. Para esta reportagem, o InfraROI foi conferir, no chão de fábrica, como a empresa atua para adequar as mudanças repentinas de volume de produção e como seus executivos avaliam o mercado de equipamentos móveis pesados atualmente.

Carlos França, gerente de marketing da Case
Carlos França, gerente de marketing da Case

“Essa não é a primeira e nem será a última crise que atravessaremos. E entendemos que quem sair fortalecido dela larga na frente na hora que o mercado retomar crescimento”, diz Carlos França, gerente de marketing da Case, ao explicar que a fábrica mantém um conceito de flexibilidade produtiva (lean manufacturing ou manufatura enxuta) para se adequar às mudanças de demanda.

Célio de Freitas Nunes, gerente de logística industrial da CNH em Betim, explica que o conceito de lean manufecturing prevê que cada funcionário detenha habilidade para ocupar até três postos de trabalho diferentes. “Com a premissa ‘3×3’, teremos o ocupante oficial do posto e pelo menos mais dois capazes de substituí-lo. Isso nos dá flexibilidade para adequar a produção tanto para mais quanto para menos de maneira relativamente rápida”, diz. “Óbvio que há limites para isso e as vezes precisamos readequar a capacidade de mão de obra. Mesmo assim, o lean manufecturing ajuda no momento de retomada porque podemos direcionar os mais experientes aos postos mais complexos e os recém-contratados aos mais simples”, completa.

Lembrando que nos últimos dois anos a demanda foi inchada pelas compras do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) – para o qual só a Case produziu 900 motoniveladoras para entregar em 2014 – Carlos França acredita que o mercado retomará crescimento a partir do segundo semestre de 2016, quando parte do novo pacote de concessões anunciado pelo governo federal em junho deste ano, assim como outras obras em fase de projetos básico e executivo, devem chegar às etapas de terraplanagem.

Motoniveladoras produzidas em Contagem são exportadas para todas as operações mundiais da Case.
Motoniveladoras produzidas em Contagem são exportadas para todas as operações mundiais da Case.

A projeção distante, argumenta ele, não impediu que a Case lançasse equipamentos conforme vinha planejando. “Neste ano, foram a linha de tratores de esteiras, que não tinha no Brasil, a escavadeira de 20 toneladas da série C e a pá carregadeira com alcance estendido em 40 cm”, lembra o executivo.

França defende que o projeto de desenvolvimento de uma máquina pode durar até dois anos entre a pesquisa de mercado e a produção das primeiras unidades. “Não é uma decisão imediatista inserir um modelo no mercado e essa decisão não pode ser retroagida por conta da mudança do cenário econômico nos últimos meses. Além disso, cada lançamento que realizamos não tem só o objetivo comercial imediato, mas também faz parte de um planejamento maior, que envolve a nossa decisão de nos tornarmos fornecedores de portfólio completo de equipamentos móveis pesados”, completa.

Para quantificar a estratégia, Carlos França lembra que a Case ampliou o leque de produtos em 170% nos últimos nove anos, saltando de 12 modelos oferecidos em 2006 para 33 ofertados agora.

Equipamentos maiores sofreram mais nesta crise
Com a crise financeira local e a crise de alguns setores mundialmente, como a mineração, os equipamentos que mais tiveram queda de vendas foram os de maior porte, segundo Carlos França. Por isso, a Case teria sofrido menos do que outros fabricantes, uma vez que a sua linha de equipamentos está bastante voltada ao setor de construção, com modelos de portes pequeno e médio. “Temos uma linha de pás carregadeiras, por exemplo, que vai de 10 a 25 t de peso operacional, e o mercado que menos caiu foi justamente o que engloba máquinas de 10 a 14 toneladas”, diz ele.

O executivo da Case avalia que o mercado para essas máquinas intermediárias está sendo balanceado pelos clientes médios também, com frota de até 15 unidades, além do segmento de locação. “As minerações de menor porte, como de bauxita e pedreiras, também tiveram queda menor de compras e elas usam equipamentos de porte médio, diferente da mineração de ferro, para a qual as vendas caíram muito e que usam equipamentos maiores”, diz.

Paralelamente, o setor agrícola tem ganhado importância nos negócios da fabricante e hoje já representa 10% das suas vendas, trazendo ainda a rebol o segmento de fertilizantes, onde o consumo de equipamentos da linha amarela também tem crescido nos últimos anos, segundo Carlos França.

Importação versus exportação

Célio Nunes, gerente de logística industrial da CNH
Célio Nunes, gerente de logística industrial da CNH

Mesmo o baixo volume produzido atualmente na CNH Industrial – de cerca de 400 equipamentos ao mês – só está sendo segurado graças às exportações, segundo Célio Nunes. Neste ano, elas dobraram para a América Latina e triplicaram para outros continentes, principalmente a Ásia. Além disso, a unidade fabril de Contagem virou sócia produtora de motoniveladoras para todo o restante do mundo. “Inclusive, até para a China fizemos a primeira importação agora, abrindo um mercado que pode ser bastante volumoso para os próximos anos”, diz.

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Ao passo que as exportações têm sido o fiel da balança, as importações, com o dólar batendo recordes, têm sido um problema. Isso explica, de acordo com o gerente de marketing da Case, porque as vendas de equipamentos compactos (miniescavadeiras e minicarregadeiras) devem fechar 2015 com volumes muito abaixo das computadas em anos anteriores e com queda acima das que serão contabilizadas em outras linhas de equipamentos neste ano. “Não há fabricante local desse tipo de equipamento. Todos são importados”, adianta.

Ponderando essa informação, França admite a possibilidade de a Case nacionalizar a produção de equipamentos compactos no ano que vem, quando a empresa também deve anunciar outros lançamentos na área de escavadeiras.

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