TDM para IP: entenda porque essa sopa de letras dita o futuro das redes de telecom

Nelson Valêncio – InfraDigital – 10.07.2020 –

O mundo de telecomunicações que as novas gerações conhecem é flexível e dinâmico. Baseadas em IP, as redes permitem a oferta de serviços por demanda, entre outros recursos, e a automatização corrige falhas na infraestrutura supervisionada por especialistas “IP nativos”. Mas, há um porém: todas as operadoras de telecomunicações tradicionais têm um legado de redes baseadas em TDM, uma tecnologia rígida que vem sendo substituída passo a passo. Nessa entrevista exclusiva para o InfraDigital, Héctor Silva, diretor de tecnologia da Ciena para a América Latina, explica essa transição e destaca o caso recente da Telefônica UK, do Reino Unido, o exemplo mais recente do processo e um paradigma para as operadoras locais.

Silva: todas as operadoras têm algum tipo de rede em TDM e 73% quer migrar para IP

InfraROI – Vamos começar explicando essa sopa de letrinhas e porque a transição do TDM para o IP é importante?

Hector Silva (HS): Na década de 1990 era comum que todas as redes de telecomunicações serem baseadas na tecnologia de TDM, sigla para multiplexação por divisão de tempo. Embora seja um sistema de transmissão digital, as redes em TDM são mais rígidas do que aquelas que adotam o protocolo da internet (IP). Os serviços de nova geração, como os de vídeo, por exemplo, nasceram no mundo IP, o que dá um ideia da necessidade de transição. Hoje, não basta ter capacidade de rede, como ela também precisa ser flexível. A  rigidez também pesa nos custos. Quando um cliente corporativo compra um bloco da rede baseada em TDM, esse bloco é fixo e muitas vezes não é usado em sua total capacidade. O resultado é o desperdício. Com isso, as redes TDM não são escaláveis e nem rentáveis em alguns casos. A tendência é que os usuários peçam cada vez mais serviços baseados em IP, porém as operadoras ainda têm muitos contratos cujos clientes usam a interface TDM e não querem migrar para o IP.

InfraROI – A situação é complicada e a pergunta que fica é como equacionar o problema…

HS: Sim. Boa parte da receita das operadoras vem dessa rede legada, criando um cenário complexo. É uma infraestrutura cara e com manutenção difícil, visto que a produção de peças sobressalentes foi descontinuada e a mão de obra vem sendo aposentada ao longo dos anos. Os softwares de gestão da infraestrutura legada também são rígidos, o que complica a integração de plataformas. A solução está em transições como a que realizamos na Telefonica UK, do Reino Unido: elementos convergentes que permitam uma interface mais moderna na ponta dos clientes. Para eles é como se a rede TDM estivesse normal, mas temos lá a transição para a nova rede IP que as operadoras têm implantado. Quando o cliente quiser fazer a migração, o processo será feito porque a nova rede IP estará operacional.

InfraROI – Há números sobre essa migração e o que acontece com a Telefonica UK vem acontecendo na América Latina também?

HS: Em minha opinião e na experiência que temos com clientes, a transição começou antes em mercados como os da Europa e Estados Unidos. Na América Latina, as operadoras vão tirar o máximo possível das redes legadas antes de migrar para o IP. A tendência é estender a vida útil no máximo possível antes de migrar, de forma a reduzir os investimentos em capital (Capex). O limite está no custo para manter a infraestrutura legada. Se ficar maior do que o investimento em novas redes, a mudança acontece. Sobre estatísticas temos uma pesquisa conjunta com a Fierce Telecom, feita em 2017, que mapeia o percentual de redes TDM em nível mundial. Todas as operadoras ouvidas registraram que têm redes legadas desse tipo. Em um quarto delas, a infraestrutura baseada em TDM responde por metade da infraestrutura. Em outro quarto, esse percentual varia entre 31% e 49%. Para 73% dos entrevistados a mudança de TDM para IP é uma prioridade e eles já iniciaram o planejamento da migração porque querem ter uma rede mais sustentável.

InfraROI: Na transição, o que muda na rede das operadoras e no usuário?

HS: Para a operadora a vantagem é ter uma rede convergente e não dois silos separados. Para os usuários, a mudança será rápida caso a operadora já tenha ativado a nova infraestrutura dela e instalado uma interface moderna em que ele acredite estar usando o TDM, quando já há a interligação IP. Se o cliente quiser migrar para as novas redes, a operadora realiza uma operação de software.

InfraROI – Mas, do ponto de vista físico, o que muda, efetivamente na rede da operadora?

HS: As plataformas têm elementos plugáveis na infraestrutura atual e vai trabalhar com softwares para conduzir a transição. O primeiro passo é ter um plano para isso, colocando equipamentos na rede em campo e, a partir daí, começa a implantar os dispositivos complementares. Lembrando que estamos falando de uma plataforma que já existe, um sistema legado, que vai ter um upgrade e poder transportar novos e mais flexíveis serviços. É um processo que envolve a instalação de novas placas e de novos enlaces de rede. Mais do que a instalação física em si, há a ativação de várias ferramentas de software para a migração de tráfego dos circuitos de plataformas legadas para IP. E há ferramentas que automatizam essa transição, tanto da Ciena como da operadora.

InfraROI – A Ciena não é o único player com essa capacidade. O que você destacaria como diferencias para ter vencido esse contrato com a Telefonica UK em relação aos concorrentes?

HS: Uma das principais características da nossa plataforma é a facilidade de integração, pois ela é um complemento de sistemas de gestão que já tínhamos e que, muitas vezes, estão instalados nas operadoras. Então elas conversam facilmente entre si. Outro grande diferencial é que a plataforma é convergente, ou seja, permite utilizar recursos de rede adaptativa, elementos que se integram e que podem lidar com altas capacidades de tráfego. O terceiro grande diferencial é estar pronto para automatização porque é uma plataforma aberta, que conversa com outros sistemas de fabricantes diferentes.

InfraROI – Como estão replicando exemplo de UK na América Latina? O contrato com Telefonica ajuda?

HS: Não podemos falar pela Telefonica, mas somos parceiros dela e de outras operadoras na região.Todas estão fazendo algo para modernizar a rede legada. Muitos, no ano passado e nesse ano, lançaram processos de transformação da infraestrutura e isso acontece não somente na America Latina. Igualmente não está limitado ao core da rede, mas acontece nas pontas, no acesso. O 5G pede uma infraestrutura mais robusta nas regiões metropolitanas, a fim de colocar o conteúdo mais perto dos clientes, então vemos que as redes de acesso e as de agregação, vão sendo modernizadas.

InfraROI – Como essa transição deve acontecer na América Latina?

HS: Creio que é muito similar ao que acontece em outros lugares porque é uma infraestrutura conhecida. Há muitos anéis de redes TDM ao longo das cidades, o que vai pautar a priorização por aqueles trechos da rede que tem um impacto maior no tráfego, ou seja, nos distritos financeiros e de negócios e onde há uma concentração de população. Eles serão os primeiros e onde se verão resultados mais rápidos, uma vez que estão sobrecarregados e vão liberar espaço, inclusive espaço físico nas centrais, além de reduzir o consumo de energia.

InfraROI – As centrais mudam também?

HS: É onde haverá uma maior transformação porque vão mudar para uma estrutura que se parece muito com um data center menor e descentralizado. As operadoras precisam ter esses data centers menores nas pontas, o que exige espaço físico e energia. A infraestrutura legada é uma dor de cabeça e ocupa mais espaço. Ao migrar, as operadoras ganham um espaço físico que já existe, não precisa investir na expansão, faz um uso mais racional do espaço, eliminando racks e racks, entre outros ganhos.

InfraDigital é um projeto comum de conteúdo do InfraROI e o do portal IPNews (www.ipnews.com.br). Para informações sobre o formato, consulte Rodrigo Santos (rodrigo@canaris-com.com.br) ou Jackeline Carvalho (jackeline@cinterativa.com.br).

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