Um segundo unicórnio brasileiro na área de transporte?

Nelson Valêncio – InfraDigital – 16.04.2021 –

TruckPad pode entrar no rol de empresas com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão no futuro se continuar a movimentar o mercado de cargas rodoviárias e quebrar tabus num setor tradicional

App foi amadurecido no Vale do Silício, com mentoria de aceleradores de startups

Conheci Carlos Mira, fundador do TruckPad, há alguns anos no evento Transmobile. Sabia que ele vinha de uma família tradicional da área de transporte de cargas e que demonstrava interesse em temas inovadores para um segmento extremamente tradicional. Não tinha conhecimento que ele chegou a brigar com a família para criar seu próprio negócio e nem da sua passagem pelo Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde aprimorou o modelo de negócios do aplicativo. Em 2002, quando Mira registrava o app no INPI, o mercado não estava preparado para a inovação. Hoje, a história é outra e talvez ele esteja a caminho de ser o segundo unicórnio brasileiro na área de transporte.

O primeiro, de acordo com o levantamento da TroposLab, uma aceleradora de startups, é o 99, cujo valor de mercado supera o US$ 1 bilhão, o que caracteriza a denominação de unicórnio. Se continuar na sua rota de ascensão, o TruckPad deve ampliar a participação no mercado brasileiro de cargas e avançar para a América Latina. Só o mercado local já tem um peso considerável: pela plataforma são movimentados cerca de R$ 20 bilhões em frente ofertados e o próximo passo é atingir R$ 50 bilhões. Como todo aplicativo, o TruckPad faz um meio de campo entre as transportadoras (que pagam pelo serviço) e os caminhoneiros autônomos.

O papel da empresa é o de ser um mercado digital para cargas, inclusive validando o status do caminhoneiro em relação a questões como a gestão de risco e outras burocracias. Com esse modelo, o TruckPad já tinha dado um cavalo de pau – perdão pelo trocadilho – nos agenciadores de carga. Eram eles que faziam a intermediação, cobrando um percentual (20% a 30%) dos caminhoneiros. O app subverteu a ordem tradicional e permitiu ainda que as transportadoras usem a plataforma para localizar os caminhoneiros e fazer a gestão do processo. Para quem está fora do ramo, pense no Uber como modelo inicial e, num segundo momento, no Mercado Livre.

Plataforma agora integra meio de pagamento e pode eliminar carta frete 

Mira: deixou o negócio da família para criar app

E explico o porquê. Depois de quebrar o tabu de que os caminhoneiros não adotariam o aplicativo porque não teriam smartphones e estariam acostumados com os agenciadores de carga, o TruckPad mexe com outra estrutura tradicional. Estamos falando da carta frete, uma jabuticaba tipicamente brasileira. Trata-se de um meio de pagamento atualmente ilegal e que existe há 60 anos. A modalidade de pagamento – informal e que funciona como se você um voucher – poderá ser substituída pelo TruckPadPay, uma plataforma de pagamento dentro do app.

“Não tem banco por trás, é um meio de pagamento homologado, que levamos dois anos para aprovar”, resume Mira. Segundo ele, a mesma pandemia que atrapalhou os planos de treinar presencialmente os caminhoneiros no uso do novo meio de pagamento, também criou o ambiente para sua adoção. “O pagamento do auxílio governamental mostrou o potencial de usar ferramentas digitais como meio de pagamentos”, argumenta.

Com seu modelo de Mercado Livre na área de cargas rodoviárias, o TruckPad também gerou um volume de dados grande para serem analisados e Mira adianta que vem usando recursos de Big Data e de Analytics para melhorar a ferramenta e, inclusive, Inteligência Artificial para turbinar a plataforma. Com tanto volume, não é difícil entender que o maior custo do TruckPad, operacionalmente falando, envolve o armazenamento de dados na nuvem, hospedados na Amazon e no Google. Do ponto de vista prático, o app fez com que as transportadoras reduzissem a contratação dos caminhoneiros em média, de 48 horas para 10 minutos. Os autônomos, por sua vez, não rodam mais quilômetros para conseguir um frete e contribuem para diminuir o percentual de 40% de caminhões trafegando sem carga no país.

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