Wilson, da Nokia: “Compartilhamento de rede não é fundamental”

Por Nelson Valêncio – 21.05.2018 –

Avaliação é de Wilson Cardoso, Chief Solution Officer da fabricante para a América Latina. Acompanhe a entrevista realizada na semana passada durante o Barcelona Days, na sede da empresa em São Paulo.

InfraROI: como a Nokia se posiciona hoje?

Wilson Cardoso: Nossa visão é que, com o 5G, uma espécie de rede das redes, quem tiver um portfólio fim-a-fim completo tem mais chances de ser bem sucedido. O nosso vai do acesso do usuário aos sistemas de operação e gestão. Por que isso? Porque a complexidade de rede aumenta exponencialmente como aumenta a velocidade de tráfego. Antes, a operadora comprava elementos de diferentes vendors e fazia a interação na rede. Hoje, vai demorar muito mais tempo se ela fizer esse caminho porque, embora tenhamos simplificado em termos de hardware, aumentou a complexidade de softwares e a integração em si. Um exemplo é o chamado fatiamento da rede para ativação de Internet das Coisas (IoT): a operadora pode comprar tecnologia de um vendor, de vários, fazer a integração ela mesma, etc. O que vai pautar a decisão é o tempo de entrada do serviço como oferta comercial.

InfraROI: a rede, como infraestrutura, caminha para ser o que?

Cardoso: “Compartilhar rede é como casar. É fácil para entrar e difícil para sair”

WC: Ela será definida pela evolução dos serviços em tempo real. Quando falamos de um carro com direção assistida, que interage com a rede, quando falamos de robôs em fábricas, precisamos de latências extremamente baixas, da ordem de 2, 3 milissegundos. O robô, numa linha de produção bastante automatizada, precisa reagir nesse tempo. Então, precisamos de um processamento de dados dentro da fábrica, ter a nuvem “dentro” da planta. O data center dentro da fábrica virou uma caixinha comum de 2, 3 U, com 15 cm no máximo. O que se precisa garantir é a proteção e a redundância desse data center e a conectividade dentro da fábrica.

 

InfraROI: Como as operadoras podem enfrentar esse desafio de descentralizar a rede, de virtualizá-la?

WC: A recomendação é que se faça uma análise para verificar a viabilidade das plataformas existentes ou para pular para a virtualização. Uma disrupção completa exige uma disrupção humana, o que é mais difícil de se fazer. Estamos construindo uma rede no México, a partir do zero, a famosa rede compartilhada do México. Tudo o que está sendo colocado lá é novo, com muita virtualização. Agora, para uma operadora que já tem infraestrutura, o recomendável é identificar e usar o espaço para virtualização. Talvez os grandes elementos que vamos virtualizar primeiro sejam exatamente os ligados ao core da rede porque isso é iminente. Baixar latência das redes móveis de 40 para 20 milissegundos, por exemplo, pode melhorar a experiência de uso entre 50% e 60% em alguns casos.

InfraROI: o avanço das redes vai exigir a ativação cada vez mais intensa de fibra óptica?

WC: Não é 100% necessário, mas é recomendável. Costumamos brincar que o 5G será a mais fixa de todas as redes móveis. Vamos precisar, nesse avanço, de praticamente uma célula por quadra, o que praticamente esse cria uma rede fixa. A opticalização de backhaul para interligação entre os macrosites já acontece há um bom tempo. Só não são macroconectados os que têm dificuldade de passagem de fibra ou onde ainda não há demanda por serviços. O desafio será densificar os sites “resistentes à fibra. Para quem já tem infraestrutura fixa é uma vantagem.

InfraROI: você falou em compartilhamento de rede e parece que isso está sendo oficializado na Coréia do Sul para a rede 5G…

WC: É mais ou menos isso. O compartilhamento – e estou falando de uma forma geral – é fundamental no 5G, mas ele pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. É como o casamento: pra oficializar é fácil, para descasar deve ser horrível. É preciso saber se vou ficar no compartilhamento, como vou entrar e como vou sair dele. A saída é muito difícil e para compartilhar é preciso que alguém administre os ativos. Ele é necessário e ajuda, mas não é fundamental. Pode-se construir a infraestrutura onde ela é necessária, se há um posicionamento de mercado confortável. Onde não preciso, compartilho. No Brasil cada um vai explorar o máximo do que tem da rede. A operadora que tem grande densidade de fibra pode começar a pensar em fatiamento de rede; já aquela que possui uma estrutura móvel grande deve evoluir para fixa móvel, na última milha, para crescer na cadeia de valor. E assim por diante.

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