Construção imobiliária exige gestão integrada para enfrentar juros altos e um consumidor mais seletivo

Construsummit 2026 discute pressão sobre custos, escassez de mão de obra, crédito restrito e mudanças no comportamento de compra

Por Rodrigo Conceição Santos

em 2 de Julho de 2026

O mercado imobiliário brasileiro mantém crescimento, mas opera em ambiente de maior complexidade. Juros elevados, restrição ao crédito, custos pressionados, escassez de mão de obra, mudanças regulatórias e novos hábitos de consumo agora são desafios que acontecem simultaneamente, exigindo das construtoras e incorporadoras uma capacidade de coordenação que vai além da execução das obras.

Durante o Construsummit 2026, realizado em Florianópolis e com cobertura do InfraROI, executivos do Ecossistema Sienge defenderam que a competitividade do setor depende de gestão integrada para o canteiro de obras, capital, clientes, fornecedores, dados e estratégia comercial. “A construção sempre conviveu com ciclos. Agora, a diferença está na simultaneidade e na permanência das pressões”, disse Cristiano Gregorius, diretor-executivo do ecossistema Sienge.

Os dados reforçam essa percepção. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), as vendas cresceram 4,1%, enquanto os lançamentos recuaram 4,9% no primeiro trimestre do ano, movimento associado principalmente ao patamar dos juros e às condições de financiamento. 

Segundo Cristiano, o prazo médio de venda dos empreendimentos está na faixa dos dez meses, o que é historicamente aceitável, mas distante dos cinco ou seis meses observados em ciclos recentes. Com isso, o apetite ao investimento em novos empreendimentos reduz naturalmente, algo que pode ser revertido assim que os estoques forem reduzindo.

Custo do erro aumenta em um ambiente mais seletivo

A primeira edição do Radar da Construção – Panorama Estratégico do Mercado Imobiliário e da Construção, elaborada pelo Ecossistema Sienge, CV CRM e Grupo OLX, com participação da Nomad, também foi lançada durante o Construsummit 2026 e mostra que o momento é de maior seletividade por parte do construtor.

Segundo Gabriela Torres, gerente executiva de Dados e Inteligência do Ecossistema Sienge, as escolhas relacionadas à localização, ao produto, ao ticket médio e ao momento dos lançamentos estão mais determinantes para os resultados das incorporadoras. “O Radar nasce da combinação de diferentes fontes de dados e indicadores do setor, permitindo uma leitura mais integrada, clara e segura do mercado imobiliário e da construção”, disse.

Segundo ela, a vantagem competitiva está menos no acesso às informações e mais na capacidade de transformar dados em decisões com maior previsibilidade.

O estudo reúne indicadores sobre custos da construção, preços de lançamentos, demanda regional, financiamento e comportamento dos consumidores, combinando informações do INCC-FGV, IPMC-Sienge, Índice de Demanda Imobiliária e Índice de Lançamentos Imobiliários do Grupo OLX.

Desafios dos juros, crédito, custos e mão de obra

A expectativa do setor por uma redução mais acelerada da taxa de juros em 2026 não se confirmou até o momento e, por isso, o ambiente continua marcado por crédito mais seletivo e maior rigor das instituições financeiras na concessão de recursos.

Para as incorporadoras, isso significa ciclos de decisão mais longos e menor margem para erros estratégicos. “Embora tarifas e a guerra no Irã tenham impactado a dinâmica da inflação, os dados econômicos não apontam para um cenário de ruptura. O principal desafio do atual cenário é navegar a incerteza sem reagir de forma precipitada”, avaliou Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad.

Ao mesmo tempo, novos agentes financeiros começam a atuar no mercado imobiliário, mas a conexão entre esses investidores e as construtoras ainda ocorre de forma limitada, dificultando a ampliação das alternativas de financiamento.

Nesse contexto, planejamento financeiro, análise de demanda e gestão operacional passam a funcionar como partes de uma mesma estratégia.

A pressão sobre os custos está elevada no setor imobiliário, impulsionada pelos efeitos acumulados da pandemia, pela volatilidade internacional e pelos conflitos geopolíticos recentes.

Segundo Cristiano Gregorius, o Índice Nacional de Custo da Construção acumula variação cerca de 40% superior ao IPC, aumentando a necessidade de ganhos de produtividade e eficiência.

A escassez de trabalhadores — observada historicamente sempre que o setor amplia o número de obras — agora parece mais severa. Isto ocorre especialmente pela baixa atratividade do setor para os trabalhadores mais jovens. “Isso tem ‘envelhecido’ o canteiro de obras, onde a faixa etária média é de trabalhadores acima de 40 anos, atualmente”, destacou Cristiano. 

No Radar da Construção, os especialistas também pontuaram que mais de 80% dos empresários da construção civil relatam dificuldades para contratar profissionais, cenário que pode ser ampliado pelas discussões sobre mudanças nas jornadas de trabalho.

Construsummit 2026 mostra que consumidor está mais racional 

Não bastassem os desafios com juros, crédito, custos e mão de obra, as construtoras e incorporadoras imobiliárias também precisam se readequar à demanda. Sim, os consumidores estão mais comparativos, e isso amplia o tempo e a forma da decisão de compra.

O Radar da Construção mostra que 91% dos compradores consideram imóveis usados durante a busca, enquanto 16% avaliam lançamentos na planta ou em construção, participação mais elevada entre os consumidores mais jovens.

Grande parte dos interessados permanece nas etapas iniciais da jornada de compra, o que amplia a relevância da presença digital das incorporadoras e da construção de relacionamento antes da venda.

Também há diferenças regionais nesse cenário.

No Rio de Janeiro, por exemplo, preços elevados exigem maior diferenciação dos empreendimentos. Em Fortaleza, a demanda por imóveis econômicos favorece projetos ligados a programas habitacionais. Florianópolis combina renda elevada e oferta restrita, sustentando produtos de maior valor agregado, enquanto em São Paulo, a estabilidade dos preços reforça a importância das decisões sobre localização, produto e cronograma dos lançamentos.

“O Índice de Lançamentos Imobiliários (ILI) reforça que não existe uma única dinâmica para o mercado de lançamentos no Brasil. Cada praça responde de forma diferente a preço, renda, oferta, crédito e comportamento da demanda”, disse Coriolano Lacerda, gerente sênior de Inteligência de Mercado do Grupo OLX. 

Gestão integrada

O cenário multitemático para o setor de construção imobiliária exige, naturalmente, uma gestão mais integrada. Para Cristiano Gregorius, isso muda a forma histórica do setor priorizar a capacidade de execução de obras em detrimento de outras partes da gestão do negócio.

“Continua sendo importante executar bem a obra, mas isso passou a ser algo basilar. Nesse ecossistema mais integrado e complexo, com pressões que tendem a ser permanentes, é preciso olhar além da obra. É necessário olhar para capital, operação, formação de custos e gestão de forma integrada e sistêmica”, disse.

Ainda nessa linha, ele completou que a fragmentação agora custa mais caro, e isso tanto para a gestão de dentro da empresa, operando em silos, quanto fora, com pressão por custos, margem e eficiência.

É por isso que a integração entre áreas, processos e informações aumenta – inclusive com apoio da inteligência artificial – e deve continuar evoluindo para ampliar previsibilidade e velocidade de resposta, segundo o executivo da Sienge. “Se a gestão não estiver conectada, a previsibilidade do negócio diminui muito”, resumiu

No ecossistema Sienge, mais de 38% dos clientes já utilizam soluções baseadas em inteligência artificial, embora a maior parte das empresas ainda não possua políticas estruturadas para orientar seu uso.

Para Cristiano, a adoção da IA precisa partir de aplicações pragmáticas, voltadas à antecipação de problemas e à melhoria das decisões. A condição básica continua sendo a existência de dados organizados e integrados. “Não existe nenhum setor com tantos processos repetitivos em escala quanto a construção civil. A grande questão é o pragmatismo”, disse.

A disseminação das tecnologias digitais alterou a lógica competitiva da construção imobiliária, segundo ele, e o acesso às ferramentas está mais democrático. “Com IA, tecnologia e acesso às soluções para todos, o gap competitivo ficou na maturidade da gestão. E isso não tem relação com o tamanho da empresa”, concluiu, salientando que, na prática, obra, capital, fornecedores, clientes, riscos e operações precisam funcionar como partes de um único sistema integrado.

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