Em um mercado conservador como o da construção civil, falar de mudanças rápidas, readequações e incorporações de tecnologias como a inteligência artificial não é fácil. Mas é “o novo normal”, como definiu o fundador da StartSe, Júnior Boneli, durante o Construsummit 2026, realizado nesta semana em Florianópolis, com cobertura do InfraROI. Segundo ele, essa dinâmica não é exclusiva da construção civil, mas de todos os negócios atualmente, que, no fundo, enfrentam uma disputa permanente contra a irrelevância.
Afinal, o que antes levava décadas para mudar agora acontece em poucos anos, reduzindo o tempo disponível para adaptação e expondo a derrocada de negócios que “até ontem” faziam sentido. “Coisas que a gente esperava para acontecer nos próximos 50 anos vão acontecer nos próximos cinco. Se a gente não acelera algumas ações, depois fica muito difícil recuperar o espaço perdido”, disse.
E é por isso que a cultura empresarial construída em ambientes mais estáveis – como a construção civil – precisa ser constantemente revisada. “Se no passado mudanças frequentes eram interpretadas como falta de direção, hoje a ausência de transformação é que representa isso”, disse.
IA exige bases organizacionais sólidas
Para o executivo, é por isso que a inteligência artificial não pode ser tratada como uma solução isolada. Assim como em um canteiro de obras, onde a fundação é aestrutura de base, para a IA os dados estruturados precisam estar prontos antes de adotá-la. “A adoção de ferramentas mais avançadas depende da capacidade das empresas de rever processos, competências e formas de trabalho”, disse Boneli.
Na avaliação dele, a transformação digital exige menos apego aos métodos históricos e maior disposição para experimentar novos formatos operacionais. “O nosso modelo mental faz a gente voltar sempre para o mesmo lugar. Existem ferramentas novas que podem nos ajudar a ser mais produtivos, mas continuamos presos às formas tradicionais de fazer”, disse.
Outro desafio apontado por Boneli é encontrar equilíbrio entre a busca por resultados imediatos e os investimentos necessários para garantir a sustentabilidade dos negócios no longo prazo. Na visão dele, as empresas que concentram todos os esforços apenas no desempenho atual correm o risco de comprometer a capacidade de adaptação. Ao mesmo tempo, organizações que ignoram a geração de caixa presente podem não reunir condições para financiar as mudanças futuras. “Quem paga a conta da construção do futuro é o presente”.
Conversas difíceis e revisão de competências

Capa do Livro Organizações Infinitas, de Júnior Borneli (Foto de Divulgação Amazon)
Boneli também defendeu que as empresas enfrentem o que chamou de “fatos brutais”: avaliações honestas sobre competências, lideranças e estruturas que podem não responder mais às demandas atuais.
Segundo ele, o sucesso construído ao longo das últimas décadas não garante competitividade nos próximos anos, uma vez que o novo ambiente exige atualização constante e disposição para abandonar práticas que perderam eficiência. “O que nos trouxe até aqui não será suficiente para nos levar daqui para frente”, disse.
Na visão do executivo, essa discussão envolve lideranças, acionistas e equipes para lidar com o desafio de identificar quais competências continuam gerando valor e quais precisam ser substituídas ou complementadas. “Não é sobre ser bom ou ruim. É sobre o mundo ter mudado. Mesmo sendo bom, algo pode ter se tornado inadequado”, disse.
Durante o Construsummit 2026, Boneli utilizou o mercado farmacêutico para ilustrar como diferentes países se encontram em estágios distintos de evolução de um mesmo modelo de negócio.
Enquanto o Brasil continua ampliando a abertura de lojas físicas, os Estados Unidos passam por um movimento de fechamento de unidades e a China avança para modelos predominantemente digitais, com entregas realizadas em poucos minutos.
Para ele, compreender esses movimentos permite antecipar tendências e adaptar estratégias antes que mudanças mais profundas cheguem ao mercado local. “Capturar sinais do futuro não é difícil porque a gente não vê. É difícil porque muitas vezes a gente não quer enxergar”, afirmou.
Na construção civil, concluiu ele, o futuro depende menos de prever cenários exatos e mais da capacidade de interpretar transformações em curso, fazer escolhas conscientes e manter disposição permanente para evoluir.


