BIM e Inteligência Artificial reduzem burocracias e aceleram projetos públicos

Por Marcus Granadeiro* Com o avanço da Estratégia BIM BR, iniciativa do governo federal que vem promovendo a adoção do Building Information Modeling (BIM) em projetos públicos, as obras de infraestrutura tem vivido um momento de amadurecimento digital. Essa metodologia revoluciona a forma como projetos são concebidos, desenvolvidos e gerenciados. Entretanto, esse modelo pode ir […]

Por Redação

em 27 de Julho de 2026

Por Marcus Granadeiro*

Com o avanço da Estratégia BIM BR, iniciativa do governo federal que vem promovendo a adoção do Building Information Modeling (BIM) em projetos públicos, as obras de infraestrutura tem vivido um momento de amadurecimento digital. Essa metodologia revoluciona a forma como projetos são concebidos, desenvolvidos e gerenciados. Entretanto, esse modelo pode ir muito além da modelagem tridimensional. Se nos últimos anos o foco esteve na criação de modelos tridimensionais e na digitalização dos processos de projeto, o próximo estágio dessa evolução está na capacidade de analisar, validar e auditar modelos digitais de forma automatizada, integrada e inteligente.

Um dos exemplos mais avançados dessa transformação pode ser observado em Singapura, por meio do CoreNet X, plataforma do governo local, liderada pela BCA (Building and Construction Authority), URA (Urban Redevelopment Authority) e GovTech, e que foi desenvolvida em parceria com o setor privado para modernizar e unificar o processo de aprovação de projetos de construção, permitindo que profissionais apresentem seus projetos em formato 3D e usem automação para agilizar trâmites legais.O programa demonstra como a combinação entre BIM, Inteligência Artificial (IA) e ambientes digitais colaborativos pode reduzir burocracias, acelerar aprovações e aumentar a qualidade dos projetos submetidos.

Historicamente, os processos de aprovação de projetos foram baseados na análise de documentos bidimensionais, exigindo extensas revisões manuais por parte dos órgãos reguladores. Com o BIM, essa realidade começa a mudar. Plataformas modernas de auditoria utilizam sistemas automatizados de verificação de modelos, conhecidos como Automated Model Checkers, capazes de analisar digitalmente as submissões antes mesmo que elas sejam avaliadas por técnicos e servidores públicos.

Para que esse processo funcione adequadamente, no entanto, é fundamental que os modelos sejam desenvolvidos seguindo boas práticas de modelagem, incluindo a correta federação de disciplinas, georreferenciamento adequado e níveis apropriados de detalhamento para sistemas mecânicos, elétricos e hidráulicos. Outro requisito essencial é a utilização de formatos abertos e padronizados, como o IFC (Industry Foundation Classes), que garantem interoperabilidade entre diferentes plataformas tecnológicas, além de assegurar a longevidade e a acessibilidade das informações ao longo do ciclo de vida do empreendimento.

Além disso, o apoio da IA é especialmente relevante porque nem todas as normas urbanísticas, construtivas e de segurança podem ser facilmente convertidas em regras computacionais. A importância dessa convergência tecnológica é reforçada pelo relatório “Digital Transformation in Engineering and Construction”, da Deloitte, segundo o qual empresas que adotam tecnologias digitais integradas, como BIM, Inteligência Artificial e análise de dados, conseguem reduzir retrabalho, aumentar a previsibilidade dos projetos e melhorar significativamente a eficiência operacional.

Entre as principais aplicações digitais da cadeia construtiva estão as análises geométricas, que verificam diretamente a geometria real dos elementos construtivos sem depender exclusivamente de parâmetros inseridos pelos usuários; as análises paramétricas, responsáveis por conferir se os dados do modelo atendem às exigências normativas; e os algoritmos de pathfinding, que calculam rotas ideais de circulação e evacuação, fundamentais para requisitos de segurança contra incêndio. Outras funcionalidades incluem a verificação automática de recuos, projeções e conflitos espaciais, além de análises computacionais capazes de validar condições complexas de projeto, como raios de giro para veículos de emergência e adequação da infraestrutura viária.

E, para concentrar toda a informação gerada pelas tecnologias digitais, é indispensável um Ambiente Comum de Dados (Common Data Environment – CDE), que se torna uma fonte única e confiável de informação, reunindo todos os documentos, modelos e registros associados ao empreendimento, além de garantir rastreabilidade completa de todas as atividades realizadas durante o processo de aprovação.

Cada submissão, revisão ou correção fica registrada em um histórico cronológico permanente, permitindo acompanhar desde a identificação de um problema até sua resolução, levando transparência, governança das informações e conformidade regulatória aos processos.

Outro diferencial importante é a integração entre BIM e GIS (Geographic Information Systems). Essa interoperabilidade permite que os modelos sejam analisados considerando não apenas suas características internas, mas também o contexto urbano onde estão inseridos, possibilitando verificações automáticas relacionadas a zoneamento, ocupação do solo, infraestrutura urbana e restrições ambientais.

Na prática, isso significa que um projeto submetido para aprovação pode ser automaticamente comparado às regras urbanísticas do município, identificando possíveis inconformidades antes mesmo da análise humana. Um edifício que ultrapasse limites de altura permitidos, invada áreas de recuo obrigatório ou apresente conflitos com infraestruturas existentes, por exemplo, pode ser sinalizado pelo sistema de forma instantânea, reduzindo retrabalho e acelerando o processo de aprovação. Os benefícios também se refletem na produtividade. Com processos mais rápidos, análises coordenadas e redução de retrabalho, tanto os órgãos públicos quanto o setor privado conseguem diminuir custos, mitigar riscos e acelerar o desenvolvimento de novos empreendimentos.

A auditoria baseada em BIM tende a se consolidar como um dos pilares da transformação digital da construção civil e da modernização dos serviços públicos ligados ao desenvolvimento urbano. À medida que cidades buscam maior eficiência, sustentabilidade e capacidade de planejamento, a adoção de modelos digitais inteligentes deixa de ser uma tendência futura para se tornar uma necessidade estratégica do presente.

*Marcus Granadeiro é sócio-diretor do Construtivo, empresa de tecnologia com DNA de engenharia, que é parceira em treinamento e certificação da buildingSMART Brasil.

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