Por Guilherme Marcial*
Durante os últimos dois anos, a inteligência artificial foi apresentada ao mercado principalmente por meio de assistentes conversacionais. Chatbots, geração automática de textos e criação de imagens dominaram as manchetes e despertaram o interesse de empresas de todos os setores. Mas, enquanto a atenção permanecia voltada para interfaces cada vez mais sofisticadas, uma transformação mais importante começava nos bastidores da infraestrutura. A próxima onda da IA não será definida pela capacidade de conversar com usuários, mas pela capacidade de manter operações funcionando com mais eficiência, disponibilidade e segurança.
Essa mudança de foco já aparece nas prioridades dos líderes de infraestrutura. Pesquisa recente do Gartner mostra que otimização de custos tornou-se o principal objetivo da adoção de IA para 54% dos gestores de Infraestrutura e Operações (I&O), superando iniciativas voltadas apenas para inovação. Em paralelo, áreas como cibersegurança, automação operacional e gestão de ambientes híbridos concentram a maior parte dos novos investimentos, refletindo uma busca por ganhos concretos de produtividade e resiliência.
Na prática, isso significa que a inteligência artificial está deixando de ser um produto para se tornar uma camada invisível da operação. Ela já analisa milhões de eventos em plataformas de observabilidade, identifica padrões que passariam despercebidos aos analistas, correlaciona alertas provenientes de diferentes fabricantes, prevê degradações de desempenho antes que afetem usuários e recomenda ações corretivas em tempo real. Em muitos casos, a IA sequer aparece para quem utiliza os sistemas. O resultado percebido é simplesmente um ambiente mais estável, mais rápido e menos sujeito a interrupções.
Esse movimento também redefine o papel dos Centros de Operação de Rede (NOCs) e dos Centros de Operação de Segurança (SOCs). Historicamente, essas equipes trabalhavam de forma reativa, respondendo a incidentes apenas depois que aconteciam. Com a incorporação de IA às plataformas de observabilidade, monitoramento e segurança, a ação passa a ser preventiva. Em vez de apenas identificar um problema, os sistemas conseguem correlacionar telemetrias de infraestrutura, aplicações e segurança para indicar a provável causa raiz e priorizar automaticamente os incidentes mais críticos. Em alguns cenários, já iniciam processos automatizados de contenção ou recuperação antes mesmo da intervenção humana.
Naturalmente, ainda há um longo caminho até operações totalmente autônomas. O próprio Gartner aponta que apenas 28% das iniciativas de IA em infraestrutura e operações atingem plenamente as expectativas de retorno sobre investimento. O diferencial das organizações bem-sucedidas não está em substituir pessoas pela inteligência artificial, mas em integrar a IA aos fluxos operacionais existentes, combinando automação, governança e conhecimento humano. Em outras palavras, o maior erro continua sendo tratar a IA como uma solução isolada, quando ela precisa fazer parte da arquitetura operacional da empresa.
Atualmente, quando falamos sobre inteligência artificial, as conversas giram em torno de como reduzir indisponibilidades, acelerar a identificação de falhas, melhorar a experiência do usuário, otimizar ambientes híbridos e fortalecer a postura de segurança. A IA embarcada nas soluções de infraestrutura, conectividade, observabilidade e cibersegurança torna possível entregar respostas muito mais rápidas e assertivas sem alterar completamente a forma como as equipes trabalham.
Talvez esse seja o maior aprendizado deste novo ciclo tecnológico. O verdadeiro valor da inteligência artificial não está necessariamente naquilo que vemos, mas naquilo que deixa de acontecer. Quando uma aplicação continua disponível durante um pico de demanda, quando uma ameaça é bloqueada antes de causar impacto, quando uma equipe resolve um incidente em minutos em vez de horas ou quando uma operação funciona de maneira contínua sem interrupções, dificilmente alguém atribui esse resultado à IA. No entanto, é justamente nos bastidores que ela demonstra seu maior potencial para o negócio.
Nos próximos anos, veremos menos demonstrações impressionantes de IA e muito mais inteligência incorporada às operações críticas das empresas. A verdadeira diferença competitiva estará entre empresas capazes de transformar dados operacionais em decisões automáticas, reduzir indisponibilidades, aumentar a resiliência digital e tornar sua infraestrutura cada vez mais inteligente. A IA que realmente fará diferença será aquela que quase ninguém perceberá, mas da qual todos dependerão.
*Guilherme Marcial é diretor de Vendas e Marketing da Teletex.


