A eletrificação da linha amarela no Brasil começa a ganhar espaço, mas ainda está longe de se consolidar como tendência dominante no setor de equipamentos pesados. A afirmação pôde ser confirmada no Brazil Equipo Show 2026, evento que ocorreu durante os dias 4 e 7 de agosto em Jaguariúna (SP), que contou com a presença de fabricantes de equipamentos, distribuidores e locadores.
Apesar de alguns fabricantes já testarem e comercializarem modelos elétricos no País, a adoção segue restrita a nichos como mineração, agronegócio e operações confinadas, esbarrando em desafios como infraestrutura de carregamento, custo inicial e incertezas sobre o valor de revenda ao longo do ciclo de vida das máquinas. Há fabricantes que sequer têm planos de trazer seus modelos elétricos para o Brasil, enquanto dealers não possuem estoquem por não haver demanda de clientes.
Desafios para a eletrificação da linha amarela no Brasil
A falta de infraestrutura de carregamento é o principal desafio para a massificação dos equipamento elétricos no Brasil. Mais do que a distribuição de energia, o problema é garantir que o equipamento possa ser recarregado sempre que necessário e que isso ocorra onde ele vai operar. Por isso, os principais setores onde os elétricos se destacam são os de trabalho em local confinado, como mineradoras e indústrias.
Nesse contexto, as pás-carregadeiras são as máquinas elétricas mais demandadas e acabam representando uma fatia pequena do mercado de equipamentos, cerca de 10%, segundo Renato Duarte, diretor comercial da Bauko. Conforme ele diz, não é um volume suficiente para sustentar uma demanda e a Bauko nem sequer chega a ter um estoque de equipamentos elétricos no Brasil.
Mas a preocupação maior é com a revenda futura após primeiros anos de uso. Duarte explica que, como o custo da bateria abrange de 50 a 60% da máquina, a deterioração do preço do equipamento ao longo do tempo fica mais restrito à saúde da bateria. “Clientes têm receio devido ao ciclo de vida dos elétricos, enquanto ele já sabe o quanto vale um equipamento a combustão ao longo dos anos”, defende.
Komatsu prefere apostar em outras tecnologias
A Komatsu é uma das marcas que não tem previsão de trazer seu modelo elétrico de escavadeira para o País, conforme apontou Wellington Mitsuda, diretor de Vendas da companhia. Segundo ele, a Komatsu prefere apostar em tecnologias mais convencionais, como biocombustíveis. “Mudança na matriz energética atrai nosso negócio mais para biocombustíveis e estamos estudando o mercado para ver o interesse em utilizar o etanol principalmente em produtores de cana-de-açúcar.”
Os elétricos não estão totalmente escanteados pela fabricante japonesa. Ela conta com escavadeiras híbridas que se aproveitam da energia cinética gerada pelo giro do equipamento para reutilizá-la na em uma nova aceleração ou auxiliar o motor a combustão. Mitsusa explica que algumas operações específicas conseguem reduzir em até 30% o consumo de energia com o modelo, como é o caso da indústria de papel e celulose, onde o trabalho de giro com escavadeiras é mais intenso e já testam o equipamento em solo brasileiro.

A escavadeira híbrida HB365LC da Komatsu usa a energia cinética para economizar combustível (foto: reprodução/site).
Fabricantes chinesas apostam mais na eletrificação da linha amarela
Por outro, quem incentiva a eletrificação da linha amarela no Brasil são as marcas chinesas. XCMG e LiuGong são duas marcas que já contam com equipamentos elétricos no País e têm estratégias para expandir a atuação desses modelos para além dos mercados de mineração e agro.
O principal argumento de venda das duas é o custo de combustível e a sustentabilidade ambiental. Adriano Caputo, executivo de Vendas da XCMG, diz que “a economia de combustível já fecha o TCO (Custo Total de Propriedade, na sigla em inglês) da compra”. Segundo ele, uma escavadeira convencional consome 35 L/h em média, o que daria cerca de R$ 213, enquanto modelos elétricos consomem 95 kWh, custo de R$ 74.
Caputo conta que a XCMG tem uma “frota de teste” para oferecer pás-carregadeiras elétricas em um contrato de comercialização baseado em regime de comodato. A ideia é facilitar a experimentação desses equipamentos e a ideia tem dado certo, segundo ele, com clientes não querendo devolver o equipamento depois.
A LiuGong também tem estratégias para ampliar o espaço dos elétricos e uma delas é ajudar o setor de locação a encontrar formas de monetizar o investimento em elétricos. Wilson Soler Filho, gerente sênior de Estratégia da LiuGong, diz que a melhor forma é capacitar os locadores para que entendam o negócio ideal para oferecer esse tipo de solução. Como exemplo do sucesso da iniciativa, três locadoras já estão com equipamentos elétricos da LiuGong a disposição.
Espaço para elétricos ainda é restrito
Mesmo as fabricantes que arriscaram e conseguiram espaço no disputado mercado brasileiro de equipamentos sabem que os elétricos ainda são uma solução para operações específicas. A LiuGong mesmo destaca que a eletrificação da linha amarela no Brasil se restringe a pás-carregadeiras nos setores de agronegócio, mineração e indústria, além de aplicações com miniescavadeiras elétricas para operação urbana, aproveitando o baixo ruído do equipamento e a disponibilidade de energia.

A miniescavadeira elétrica 902FE, que está sendo usada em operações urbanas no Brasil (foto: reprodução/site).
Soler Filho entende que os elétricos são parte da solução para a sustentabilidade ambiental e maior eficiência, mas que não se aplicam a todos os casos. “A infraestrutura de carregamento ainda pesa muito e a carga horária de trabalho tem que ser bem gerida para não ter problemas de indisponibilidade por falta carga”, destaca.
Até mesmo a Bomag, fabricante alemã focada em equipamentos de pavimentação, percebe que o mercado para máquinas elétricas é mais restrito. Carlos Forghieri, gerente comercial da empresa, conta que o principal mercado para esses modelos são o norte da Europa, mas mesmo assim há uma intenção de expandir para outros locais, inclusive para o Brasil.
“Por aqui, a demanda maior são em pedreiras, o que mostra um mercado pouco expressivo”, diz. Para Forghieri, é preciso mostrar a aplicabilidade dessas máquinas em outras operações, apresentando os benefícios, a eficiência, o menor custo de manutenção e a menor incidência de poluição do ar e sonora.
Armac traça estratégia para locação de elétricos
A Armac, uma das principais locadoras de equipamentos do País, corrobora essa limitação de mercado. Até mesmo para a locação de máquinas elétricas, os principais interessados são players do setor da mineração e do agro, não à toa a empresa levou pás-carregadeiras elétricas para exposição na Agrishow 2026. Para Vinícius Marino, diretor de Marketing da Armac, o modelo elétrico ainda é uma solução de nicho para operações específicas porque não ter versatilidade o suficiente para atender todos os cenários.
Mesmo assim, isso não impediu que a locadora desenvolvesse uma estratégia específica para os elétricos, oferecendo os equipamentos apenas no formato de prestação de serviço, onde o operador da máquina é empregado da própria Armac. Ele diz que essa oferta, que foi criada no final de 2025, também é construída com um cálculo de economia de acordo com a perspectiva do cliente, com a aposta em diferentes fabricantes e modelos, sendo que as pás-carregadeiras são os principais equipamentos.
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Como fabricantes enxergam a questão da revenda de equipamentos elétricos?
Na XCMG, Caputo defende que a compra de modelos elétricos não vise o curto prazo e sim o uso do produto até o fim da vida útil. De acordo com ele, o valor da bateria poderia ser recuperado no final ao reverter o uso da peça para outra função, como para o uso em sistemas de armazenamento de energia (BESS).
Ele também aponta para a queda do preço dos equipamentos em relação aos seus primeiros anos, o que facilitado ainda mais o argumento de venda. Segundo ele, cerca de 200 pás-carregadeiras XC968-EV, de 19 toneladas, foram vendidas nos últimos três anos pela XCMG no Brasil, o que prova o sucesso da marca no Brasil.
Soler Filho, da LiuGong, vai na mesma linha e destaca a longevidade desses equipamentos. Segundo ele, a fabricante já apresentou uma pá-carregadeira que conta com mais de 27 mil horas de uso e a disponibilidade da bateria se manteve em praticamente 90%, o que mostra a vida útil bem longa do equipamento.
Além disso, com a diminuição do preço das baterias, o custo do equipamento também cai, assim como uma possível necessidade de troca do item. Essa necessidade foi o que fez a fabricante optar pela CATL, marca que permite trocar células da bateria de forma que o custo de manutenção seja menor. Ele lembra que, no Brasil, o suporte é feito pela Moura.
Já Forghieri, da Bomag, entende que a questão de revenda de equipamentos elétricos para a linha leve é mais simples e barata. Nesse caso, ele trata de equipamentos como compactadores de percussão, placas vibratórias e placas bidirecionais. “Para as máquinas pesadas, já é mais uma questão de tempo para barateamento de peças e otimização do mercados”, diz.


