O Brasil ainda precisa descaracterizar 30 barragens até 2035, revelam números da Vale – que conta com 11 a serem descaracterizadas. Segundo a mineradora, os prazos de conclusão variam a depender da complexidade das estruturas das barragens, mas a data limite prometida é 2035. Apesar do custo de cerca de US$ 7 bilhões para eliminar essas estruturas, o Instituto de Mineração do Brasil (Ibram) diz que o desafio não é o valor do investimento, mas o tempo.
O processo não é simples, como conta Julio Nery, diretor de Assuntos Minerários do instituto, em reportagem para o Radar Mineração. Segundo ele, o tempo é o principal desafio porque uma descaracterização rápida de uma barragem pode levar a um acidente, exatamente o que a Vale quer evitar depois das tragédias de Mariana e Brumadinho, ambas em Minas Gerais, onde estão a maioria das barragens ainda ativas.
O diretor explica que o processo é feito de forma extremamente cuidadosa: é preciso fazer um monitoramento grande na barragem para acompanhar se está havendo alguma alteração das características da barragem que possa levar a um problema. “A instrumentação é muito maior do que numa situação normal”, diz.
Tragédias implicaram no fim das barragens
Após os episódios de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019, uma lei de 2020 passou a proibir a construção de barragens do tipo a montante no Brasil. Esse tipo de estrutura traz um risco maior de rompimento porque sua expansão ocorre à frente do rejeito já depositado, com os diques de contenção se apoiando sobre o próprio rejeito consolidado formado pelas chamadas bermas, degraus de materiais que vão se sobrepondo.
Para Luís Valenzuela, consultor independente de avaliação de rejeitos, o desafio da descaracterização de barragens é imenso e ele compara às obras faraônicas do Antigo Egito. Há uma necessidade de adequação e modernização dos processos de mineradoras para eliminar as barragens, sendo necessário estabilizar a estrutura e reconfigurar o terreno, devolvendo-o a condições naturais e estáveis, sem riscos de ruptura. Nery, do Ibram, diz que, se houver qualquer modificação, tem de parar, deixar estabilizar e só depois voltar a trabalhar, um processo que pode demorar dias.
Tecnologia para descaracterizar barragens
Para ajudar as mineradoras, o caminho deve ser investir em novas tecnologias que gastem menos água e reutilizem o resíduo da mineração. A avaliação é de Paulo Alfenas, consultor sênior de geotecnia na divisão de Tecnologia em Bauxita e Alumina da Hydro Mineração, que aponta para a remoção da água dos rejeitos como o principal mitigador de riscos. A Hydro não tem barragens que precisem ser descaracterizadas.
O executivo explica que a existência da água na barragem é o que exige uma engenharia mais cuidadosa e sofisticada. Ao retirá-la, o risco cai e surge a oportunidade de fazer um reaproveitamento desse insumo. Nery chama isso de pilhas de material desaguado, mas a questão recai sobre o custo, que é quase sete vezes maior que o de uma barragem.
Quem ajuda nesse processo é o Instituto Global de Gestão de Rejeitos (GTMI), criado em janeiro de 2025 para aprimorar a segurança das instalações de rejeitos de mineração e promover a implementação do padrão GISTM, o Padrão Global da Indústria para Gestão de Rejeitos. O grupo conta com o Conselho Independente de Avaliação Técnica (ITRB, na sigla em inglês), forma por consultores independentes que avaliam o processo de descaracterização.


