O pico de CAPEX em infraestrutura no Brasil: gargalos operacionais, escassez de mão de obra e o risco silencioso das entregas

O pico de CAPEX expõe um paradoxo brasileiro: muito capital disponível e pouca capacidade real de execução, aponta o engenheiro Maurício Malanconi

Por Redação

em 10 de Fevereiro de 2026

Por Maurício Malanconi*

O Brasil vive um dos maiores ciclos de investimento em infraestrutura da sua história — mas a capacidade de entrega não cresceu no mesmo ritmo. O pico de CAPEX expõe um paradoxo brasileiro: muito capital disponível e pouca capacidade real de execução, o que pressiona prazos, custos e retornos. Enquanto os investimentos avançam no papel, os gargalos operacionais se acumulam nos canteiros de obras.

Esse movimento é impulsionado pela retomada das concessões, pelas parcerias público-privadas, pelo novo PAC e pela maior participação do capital privado em setores como transportes, energia e saneamento. No entanto, a simultaneidade de grandes projetos pressiona uma cadeia produtiva que já opera próxima do limite, revelando fragilidades estruturais que vinham sendo mascaradas pela falta de investimentos nos últimos anos.

Um dos maiores obstáculos à execução de grandes projetos no país está na capacidade operacional das empresas responsáveis pelas obras. Segundo dados solicitados ao Ministério dos Transportes e reportados pela imprensa local, no Mato Grosso do Sul, por exemplo, apenas cerca de 43,4% dos recursos previstos até 2026 para rodovias e ferrovias haviam sido aplicados até os primeiros meses de execução. A falta de equipamentos especializados e de sistemas de gestão integrados é um outro fato que compromete cronogramas e eleva custos. A isso soma-se a complexidade regulatória — com atrasos em licenciamentos ambientais, desapropriações e liberações — que frequentemente não está plenamente equacionada quando os projetos são contratados, ampliando ainda mais os riscos de descumprimento de prazos.

A falta de mão de obra qualificada sempre foi um calcanhar de Aquiles para a infraestrutura brasileira. Engenheiros, técnicos e profissionais especializados tornaram-se disputados entre projetos, elevando custos salariais e reduzindo a produtividade. Em um cenário de múltiplas obras acontecendo simultaneamente, a competição por talentos passa a ser um risco operacional tão relevante quanto o risco financeiro.

Esse desequilíbrio entre volume de investimentos e capacidade de execução gera pressão direta sobre os custos dos projetos. Orçamentos inicialmente viáveis tornam-se rapidamente defasados, exigindo renegociações contratuais e colocando em risco o equilíbrio econômico-financeiro das concessões. Para investidores, isso se traduz em maior incerteza sobre retornos e prazos de maturação dos ativos.

Há, porém, um risco menos visível, mas igualmente relevante: o risco silencioso das entregas. Trata-se de projetos contratados com premissas excessivamente otimistas, cronogramas comprimidos e pouca margem para imprevistos. Esses riscos não aparecem no início das obras, mas se materializam ao longo da execução, comprometendo a credibilidade dos projetos.

Diante desse cenário, é urgente repensar a forma como o Brasil organiza seus investimentos em infraestrutura. Não basta apenas aumentar o volume de CAPEX; é preciso fortalecer a capacidade de execução, investir em planejamento estratégico, qualificação da mão de obra e governança dos projetos. Sem essas medidas, o ciclo de investimentos corre o risco de se transformar em frustração em vez de progresso concreto. Este é um momento decisivo: se os gargalos operacionais forem tratados com rigor, o pico de investimentos pode se converter em ganhos estruturais duradouros. Caso contrário, o país estará condenado a repetir um velho padrão: grandes planos, recursos volumosos e entregas aquém do esperado. No fim das contas, investir mais sem investir melhor é apenas gastar esperança.

*Maurício Malanconi é engenheiro e CEO da Suporte.

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