A Copa do Mundo de 2026 está sendo disputada em 16 estádios distribuídos entre Estados Unidos, Canadá e México. Ao contrário das edições anteriores, marcadas por megaconstruções do zero e obras emergenciais de última hora, desta vez o desafio de construção foi modernizar estruturas já existentes, integrar tecnologia em projetos de alto risco e manter controle sobre prazo, execução e fluxo de informação em operações simultâneas e altamente complexas.
O Estádio Azteca, palco do jogo de abertura do torneio em 11 de junho e com o nome oficial Estádio Banorte, é o exemplo mais eloquente do que está em jogo. Fechado por 671 dias para reformas, foi reinaugurado em março deste ano com obras ainda em andamento na estrutura interna, no entorno e nas vias de acesso. Na reta final, surgiu uma variável que ninguém havia planejado: a região apresenta histórico de afundamento do solo, o que exigiu monitoramento extra antes do torneio. As equipes chegaram a trabalhar sete dias por semana, 24 horas por dia, e mesmo assim, o estádio receberá as partidas com parte das intervenções ainda em andamento.
Para Diego Mendes, CEO da ConstruCode, startup de tecnologia para construção civil, o cenário evidencia um problema recorrente em projetos complexos. “Quando a informação deixa de circular no mesmo ritmo, entre coordenação de projetos e a equipe de execução no canteiro, o atraso normalmente só aparece quando o impacto já virou custo extra ou reprogramação. Em obras muito grandes, isso acontece rápido e repetidas vezes”, completa.
Copa do Mundo traz novo paradigma para a construção civil
Mendes diz que a Copa do Mundo de 2026 funciona como um reflexo direto das mudanças pela qual o setor da construção vem passando. A nova realidade exige a atualização de métodos e tecnologias impondo essas novas premissas na modernização de estruturas existentes sem perder a previsibilidade na execução, o que é um grande desafio em obras de retrofit.
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Ele lembra que os estádios nos Estados Unidos e no Canadá nunca fecharam. São arenas multiuso da National Football League (NFL) e da Major League Soccer (MLS) que seguiram recebendo eventos enquanto passavam por intervenções mais cirúrgicas e delimitadas. Cidades como Los Angeles, Dallas, Houston e Vancouver partiram de estruturas consolidadas, com menor necessidade de obras estruturais pesadas. Segundo Mendes, isso reduziu parte da complexidade operacional e permitiu cronogramas mais previsíveis, o mesmo princípio que diferencia projetos bem geridos de projetos que acumulam atrasos.
O que o setor brasileiro pode aprender com o evento
A preparação para o torneio concentra, em escala global, desafios que já fazem parte da rotina da construção civil: múltiplas equipes trabalhando simultaneamente, grande volume de revisões, decisões que dependem de informação atualizada e cronogramas que não admitem folga. O que o Azteca mostrou é que, quando esses fluxos falham, o impacto fatalmente aparece no cronograma e no orçamento.
Por isso, Mendes diz que as obras dos estádios do Mundial reforçam três lições centrais para a construção civil brasileira:
- Modernizar estruturas existentes exige planejamento de longo prazo e alinhamento entre projeto, canteiro e operação, sob risco de repetir atrasos como os de 2014.
- Previsibilidade e rastreabilidade nascem de processos que registram revisões de forma autônoma, consolidando informações e as distribuindo aos responsáveis de forma estruturada, permitindo assim, reagir a desvios antes que virem sobrecusto.
- O uso de tecnologia para integrar equipes, embasar decisões e dar visibilidade em tempo real ao avanço das frentes de obra é hoje um diferencial competitivo em qualquer contexto, e não apenas em megaeventos.
“A diferença entre uma obra que consegue manter previsibilidade e outra que opera no caos normalmente está na capacidade de conectar equipes em torno da mesma informação e fazê-la fluir no momento correto para os pontos de execução nos canteiros. Informações paradas sempre resultam em obras paradas”, conclui Diego Mendes.


