Dados do estudo “Mãos à Obra: Emprego e Produtividade na Construção”, elaborado pelo Departamento da Indústria da Construção e Mineração (Deconcic) da Fiesp, revelam que a produtividade do setor caiu 25,8% entre 2016 e 2023. Na comparação internacional, cada trabalhador da construção civil brasileira gerou, em média, US$ 19 mil por ano, patamar inferior ao de pares regionais como Chile (US$ 27 mil) e México (US$ 26 mil) e distante de mercados mais avançados, como Estados Unidos (US$ 84 mil) e Dinamarca (US$ 100 mil).
Como principal saída estrutural, o relatório aponta a aceleração da industrialização e da digitalização, incluindo a ampliação do uso de Building Information Modeling (BIM), com maior nível de padronização, mecanização, pré-fabricação e construção modular. Referências internacionais analisadas pelo estudo indicam que métodos industrializados podem reduzir entre 60% e 80% as horas de trabalho no canteiro e entre 14% e 50% a necessidade de mão de obra.
O estudo foi apresentado na última quinta-feira (8/10) na sede da Fiesp e um dos exemplos citados durante o evento foi a obra da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, que combina elementos pré-fabricados de concreto e estruturas metálicas. Para os especialistas, a integração de diferentes sistemas construtivos demonstra o potencial da industrialização para ampliar a produtividade e a eficiência na construção civil.
Fiesp defende transformação da Construção Civil para alcançar maior produtividade
Para o diretor titular do Deconcic, Newton Cavalieri, a recuperação da produtividade passa por uma agenda estruturada de modernização do setor. A primeira ação precisa ser a de qualificar e atualizar os profissionais, seguindo para uma mudança na gestão das empresas, que precisam passar a usar mais tecnologia e dados para melhorar o planejamento e tornar os processos mais eficientes. “Por fim, a industrialização permitirá integrar etapas, racionalizar processos e buscar soluções com mais eficiência, qualidade e previsibilidade”, ressalta.
Um ponto de partida favorável é o ganho de escolaridade do setor, com mais de 60% dos trabalhadores formais com ao menos o ensino médio completo (contra 33,8% em 2010), o que amplia o potencial de qualificação e adoção de novas tecnologias pelas empresas.
Para Renato Corona, superintendente de Competitividade Industrial e Inovação da Fiesp, mesmo em um cenário de ampla oferta de profissionais qualificados, a busca por escala e eficiência torna a automação uma tendência irreversível. “A construção brasileira não pode esperar o ambiente melhorar. As oportunidades não esperam, elas já estão se formando e quem quiser capturá-las amanhã precisa começar hoje a transformação em tecnologia, industrialização e produtividade”, afirma.

Estudo foi lançado em evento na Fiesp com empresários, especialistas e representantes da cadeia produtiva. (Foto: Camilla Carvalho/Fiesp.)
Setor enfrenta escassez de trabalhadores
Essa transformação ganha relevância diante das próprias dificuldades do setor para recompor e reter sua força de trabalho. A construção civil enfrenta o envelhecimento da mão de obra formal e a alta rotatividade. Em 2024, 75,1% dos profissionais formais tinham entre 30 e 64 anos, enquanto a participação dos jovens de 18 a 29 anos caiu de 33,4% em 2010 para 22,2% em 2024.
A construção civil lidera o ranking de rotatividade no mercado formal, alcançando a taxa de 63% entre junho de 2024 e maio de 2025, o que impede o acúmulo de aprendizado, reduz a produtividade do trabalho e eleva os custos de recrutamento e treinamento. Entre as empresas que relatam dificuldades de contratação, 55,1% apontam a falta de interesse dos candidatos, 55,1% a escassez de profissionais qualificados e 42,1% a ausência de experiência.
A perda de atratividade é acentuada pela concorrência com a economia de plataforma. O contingente de trabalhadores por aplicativos de transporte e entrega cresceu 170% em dez anos, passando de 770 mil em 2015 para 2,1 milhões no segundo trimestre de 2025. Esse mercado atrai um perfil socioeconômico semelhante ao da construção — majoritariamente masculino (83,9%), jovem e com ensino médio completo — oferecendo maior flexibilidade, autonomia e rendimento habitual médio mensal superior (R$ 2.996 no setor de plataformas contra R$ 2.786 na construção em 2024). Pesquisas citadas no estudo indicam ainda uma forte preferência pelo trabalho por conta própria (57,7%) e baixa escolha da construção como setor de atuação (4,8%).
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