Os portos brasileiros chegaram a uma nova escala de movimentação logística. O desempenho acompanha uma tendência que vem desde 2025, quando os portos brasileiros movimentaram 1,4 bilhão de toneladas, maior volume já registrado no País e 6,1% acima de 2024. O crescimento se mantém em 2026 em diferentes regiões do País, com destaques para os seguintes casos:
- Em agosto de 2026, o Porto de Santos registrou 538,2 mil TEUs, maior volume mensal de contêineres de sua história e avanço de 3,9% sobre agosto do ano anterior.
- Também em agosto, Suape, em Pernambuco, movimentou 2,7 milhões de toneladas, também estabelecendo recorde mensal, com crescimento de 61% na comparação anual.
- Já o Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) alcançou em setembro a maior movimentação mensal de sua história, com 152.347 TEUs, unidade equivalente a um contêiner de 20 pés. O resultado superou em 2,5% o recorde anterior, registrado em outubro de 2025, e foi acompanhado por novas máximas diárias de movimentação.
Para a Fundação Memória do Transporte (FuMTran), os recordes atuais evidenciam uma mudança no próprio desafio portuário. Se durante boa parte dessa trajetória o foco esteve na capacidade dos cais e terminais, o crescimento atual exige que rodovias, ferrovias, retroáreas e estruturas de apoio avancem no mesmo ritmo. Isso porque, à medida que o terminal se torna mais eficiente, cresce também a necessidade de garantir que a carga consiga chegar e sair com a mesma eficiência.
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Desafio agora é eliminar gargalos da logística
Por isso, Antonio Luiz Leite, presidente da FuMTran, diz que o desafio passa a envolver todo o corredor logístico. A questão é evitar que os ganhos obtidos dentro dos complexos sejam transferidos para gargalos em seus acessos. A ampliação da capacidade rodoviária e ferroviária, a organização de pátios reguladores e retroáreas e a integração com terminais intermodais tornam-se cada vez mais relevantes à medida que cresce o volume transportado. Afinal, a movimentação portuária depende de uma rede que começa muito antes do cais e continua depois dele, conectando áreas produtoras, indústrias, centros de distribuição e mercados consumidores.
Nesse cenário, a ferrovia pode ganhar maior participação no transporte de grandes volumes e em longas distâncias, enquanto o modal rodoviário permanece essencial na coleta, distribuição e conexão entre diferentes pontos da cadeia. A expansão dos próprios portos reforça a necessidade dessa mudança logística: entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram formalizados 25 instrumentos relacionados a Terminais de Uso Privado, com R$ 9,23 bilhões em investimentos previstos.
No Paraná, defesa é por maior acesso rodoviário
Especificamente sobre o Porto de Paranaguá, Luiz Gustavo Nery, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (Setcepar), defende que o avanço da movimentação portuária deve ser acompanhado por melhorias nos acessos ao porto e na BR-277. Ele também pede por fortalecimento dos pátios de regulação e dos pontos de parada e descanso, além de maior integração tecnológica.
Plataformas de agendamento, gates automatizados, documentação digital e compartilhamento de informações em tempo real são outra iniciativas que podem contribuir para reduzir deslocamentos desnecessários e aumentar a previsibilidade. “Caminhão parado representa custo sem geração de receita. Cada hora de espera afeta a rentabilidade, a capacidade de atendimento e o planejamento da jornada. Quando essas ineficiências se repetem, acabam sendo incorporadas ao custo da operação”, ressalta o vice-presidente.
Portos evoluíram, mas sozinhos não vão mudar a logística nacional
Ainda segundo Nery, o crescimento da capacidade portuária faz com que a infraestrutura terrestre precise ser planejada para acompanhar esse movimento. “Muitas vezes, ganhar previsibilidade com tecnologia e integração gera retornos importantes sem depender apenas de grandes obras. Porto e rodovia precisam evoluir juntos”, conclui Nery.
Como aponta o presidente da FuMTran, os recordes mostram o quanto os portos evoluíram. “O próximo passo é garantir que rodovias, ferrovias, terminais intermodais e áreas de apoio também avancem de forma coordenada. Sustentar volumes cada vez maiores dependerá menos de uma estrutura isolada e mais da eficiência com que todo o sistema consegue movimentar essas cargas”, conclui Leite.


